Economia resiliente, inflação no horizonte: o Monitor do PIB da FGV revela o dilema do Banco Central
Economia resiliente mantém pressão sobre inflação e amplia dilema do Banco Central diante de juros elevados
O Monitor do PIB-FGV divulgado ontem trouxe mais um sinal de que a economia brasileira segue em expansão. Em abril, a atividade cresceu 0,1% na comparação com março, na série dessazonalizada. É um avanço pequeno, é verdade, mas ainda assim positivo, e, quando se olha para o quadro mais amplo, o desenho fica nítido: na comparação interanual, a economia subiu 1,8% e, no acumulado em doze meses, cresce 2%. O motor desse desempenho foi, principalmente, a indústria e os serviços, enquanto a agropecuária e o consumo do governo recuaram no período. Entre os componentes da demanda agregada, é o consumo das famílias que se destaca, com alta de 2,6% no trimestre móvel findo em abril, o maior patamar desde fevereiro do ano passado, puxado sobretudo pelo setor de serviços.
A Formação Bruta de Capital Fixo, o investimento agregado, também deu sinal de vida, com alta de 0,7% depois de quatro trimestres consecutivos de retração, impulsionada pela retomada do segmento de máquinas e equipamentos. As exportações tiveram desempenho ainda mais expressivo, com avanço de 9,3%, e aqui o destaque é o petróleo: a indústria extrativa explodiu, com alta de quase 28%, numa reação clara ao choque recente nos preços do barril. As importações, por sua vez, subiram 5%, refletindo uma atividade um pouco mais aquecida. No conjunto, são números que confirmam uma economia resiliente, que insiste em crescer mesmo num ambiente de juros elevados.
O dado preocupante, no entanto, está na taxa de investimento, que permanece em 18% do PIB. Esse continua sendo o grande problema da economia brasileira. Quando o motor do crescimento é o consumo, e não o investimento, a capacidade produtiva não se expande na mesma medida em que a demanda avança. É exatamente essa a armadilha que o país vive agora: uma economia que cresce empurrada pela demanda, mas sem ampliar a oferta, o que se traduz, inevitavelmente, em pressão inflacionária.
E é justamente esse o pano de fundo da decisão do Banco Central, que, na última quarta-feira, voltou a cortar os juros. A medida vem num contexto delicado. A inflação deste ano deve superar os 5%, e a do ano que vem provavelmente ficará acima dos 4%. O que os dados do início de 2026 até agora vêm mostrando é uma economia mais aquecida do que se imaginava. Não há recessão, não há crise, nada disso. E é precisamente por isso que a inflação responde: estamos operando próximos da capacidade plena, com desemprego muito baixo e sem ganhos relevantes de produtividade. Nesse cenário, o excesso de demanda acaba se convertendo em preços mais altos.
A novidade que o Monitor traz é confirmar que a economia segue em expansão, e isso coloca o Banco Central diante de um dilema que tende a se agravar. Como lidar com uma economia resiliente que continua pressionando a inflação? O debate, na prática, já se deslocou para a próxima reunião do Copom, em agosto. Nessa altura, o horizonte relevante de política monetária — aquele que olha cerca de seis trimestres à frente — passa a contemplar 2028, e não mais 2026 ou 2027. O próprio Copom já admitiu isso no comunicado, e veremos os detalhes na ata da semana que vem. A mensagem que ficou é que o Banco Central não vai perseguir a inflação deste ano, nem poderia, porque o regime de metas o obriga a mirar adiante; tampouco olhará para 2027, já que, a partir de agosto, é a inflação de 2028 que passa a contar.
O jogo, portanto, está na discussão sobre a inflação brasileira em 2028. E até lá ainda há muita água para rolar. Talvez venha mais algum corte de Selic, mas o cenário inflacionário é complicado, porque a economia está aquecida, o desemprego segue muito baixo, a produtividade não avança e o investimento permanece deprimido. Esse é, no fim das contas, o nó que o Brasil não consegue desatar. Uma economia que cresce pelo consumo, sem investir na própria capacidade de produzir, está fadada a esbarrar na inflação. É esse o recado que o Monitor do PIB nos deixa neste meio de ano.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




