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Sara York

Sara Wagner York é jornalista, psicanalista, PhD em Educação, pós-doutora em Semiótica, licenciada em Letras – Inglês, Pedagogia e Letras Vernáculas. Especialista em Educação, Gênero e Sexualidade, é autora do primeiro trabalho sobre cotas para pessoas trans no Brasil, desenvolvido no mestrado em 2020. Tem um filho, é avó e foi a primeira travesti a ancorar no jornalismo brasileiro, pela Brasil 247, tornando-se referência nacional nas discussões sobre mídia, educação e direitos humanos. É imortal da Academia de Letras e Artes do Estado do Rio de Janeiro.

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Eles choram, e chamam de avivamento: a culpa como moeda de cooptação infantil

Entre espetáculos de fé, choro coletivo e disputas ideológicas, eventos religiosos expõem doutrinação e controle emocional de crianças e adolescentes

Evangelicos (Foto: Pixabay)
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Aconteceu em Central City, Kentucky, durante o Just Jesus 2026, um "tent gathering" de quatro dias — 11 a 14 de junho de 2026, montado como uma "Building an Altar of Praise" — que a linguagem evangélica chama de avivamento. Crianças e adolescentes chorando, gritando, ajoelhados sob uma lona, enquanto adultos transformam a fé em espetáculo, a infância em jazida e a vulnerabilidade em propaganda. Chamam isso de "a próxima geração clamando a Deus". Talvez devêssemos chamar pelo nome certo: doutrinação religiosa. Tenho falado de casos similares nessa coluna com alguma recorrência.

O fenômeno não é isolado nem espontâneo, por mais que a retórica do "mover do Espírito" insista em apresentá-lo assim. Desde o despertar de Asbury, em 2023, uma rede de organizações evangélicas — Unite US, IF:Gathering e similares — vem replicando o mesmo roteiro emocional em campi universitários e, cada vez mais, em escolas de ensino médio pelos Estados Unidos, com confissões públicas, batismos coletivos e choro em massa transformados em prova de autenticidade espiritual. O próprio ministério já relata ter levado o esquema a estudantes secundaristas, com cerca de mil deles "entregando seus corações a Jesus" em um evento voltado a adolescentes em Nashville. Não é um acidente de carpa. É um método, com público-alvo deliberadamente rejuvenescido.

Uma coisa é crer — que cada um creia no que quiser, com a liberdade que qualquer Constituição minimamente decente deve garantir. Outra, muito diferente, é submeter crianças e adolescentes a dinâmicas estruturadas de culpa, êxtase coletivo, medo, obediência e submissão, e depois apresentar o colapso emocional desses corpos pequenos como vitória espiritual. O que se descreve como entrega é, na arquitetura concreta do dispositivo, condicionamento: corpos dóceis, na acepção foucaultiana exata — corpos que aprendem, sob vigilância de adultos e da multidão, o que sentir, quando chorar, a quem temer e a quem obedecer. Isso não é metáfora. É a fabricação disciplinar da obediência operando sobre sujeitos que ainda não dispõem do aparato crítico para nomear o que lhes está sendo feito.

A hipocrisia se torna estrutural, não acidental. Os mesmos campos políticos que erguem a bandeira da "proteção à infância" para enxergar ideologia em um livro infantil com duas mães, em uma bandeira de arco-íris ou em uma palestra sobre diversidade são os que, diante de uma criança ajoelhada e chorando sob uma carpa cercada de adultos que lhe dizem o que pensar, chamam isso de fé. Hannah Arendt já havia notado que os movimentos totalitários têm predileção particular pela infância e pela juventude — não por amor, mas porque ali a capacidade de dissenso ainda não amadureceu. Chantal Mouffe chamaria isso de uma operação hegemônica: travestir um projeto de controle com o vocabulário da proteção e da fé, exatamente como venho descrevendo a respeito de outros atores que disfarçam política excludente sob roupagem democrática. A fé não precisa quebrar emocionalmente menores de idade para existir. Isto é poder. Isto é controle. Isto é uma fábrica de obediência.

O Brasil não está isento desse dispositivo — está, na verdade, em fase avançada de produção própria. Em setembro do ano passado, a reportagem do Intercept Brasil sobre o Retiro Sobreviventes, organizado pela Igreja da Família em Marataízes, no Espírito Santo, documentou adolescentes transformados em "soldados de Cristo", em fila, empunhando réplicas de fuzis e repetindo palavras de ordem, em um acampamento estruturado nos moldes de treinamento militar. Especialistas ouvidos pela reportagem apontaram que o modelo levanta preocupação não só pela estrutura militarizada, mas pelo possível desrespeito a direitos garantidos pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, incluindo a integridade física e psicológica dos participantes. Os registros do próprio evento mostram jovens prostrados após exercícios físicos, com instrutores gritando ordens no estilo de pressão psicológica de treinamento militar — a mesma gramática de exaustão, submissão e êxtase coletivo de Central City, com sotaque capixaba e fuzil de brinquedo.

A retórica protetiva, entretanto, costuma blindar exatamente quem deveria ser escrutinado. A reportagem da SUMAÚMA sobre o arquipélago do Marajó mostrou como o discurso de "proteção à família" e combate ao tráfico infantil foi mobilizado eleitoralmente por lideranças evangélicas bolsonaristas, enquanto dados oficiais indicam que 65,1% dos estupros de menores de 14 anos no Brasil acontecem dentro de casa, cometidos por um familiar — o mesmo lar que esse discurso erige como santuário inquestionável. E não é caso isolado, a CartaCapital registrou um pastor de Goiânia afirmando, em pleno culto, que crianças vítimas de abuso sexual carregam parcela de culpa pelo crime sofrido. A proteção da infância, nesses círculos, não é um compromisso ético com a integridade psíquica da criança — é um significante vazio, mobilizado seletivamente contra a diversidade e suspenso sempre que o agressor está dentro da própria estrutura de poder eclesiástico ou doméstico.

É a mesma lógica seletiva que sustenta o projeto Escola sem Partido e o pânico moral em torno da "ideologia de gênero" no Brasil desde 2011: o terror diante da possibilidade de uma criança ouvir falar de afeto entre pessoas do mesmo sexo convive, sem contradição interna, com a naturalização de crianças ajoelhadas, em prantos, sob pressão emocional coletiva, prestando contas de pecados que mal compreendem. Observamos uma assimetria como erosão silenciosa das normas que deveriam proteger igualmente todos os corpos infantis — não apenas os que servem ao projeto político de quem fala.

Não se trata de proibir a fé, nem de questionar o direito de qualquer família educar seus filhos dentro de uma tradição religiosa, mas de nomear, com precisão e sem eufemismo, a diferença entre formação espiritual e engenharia emocional coercitiva sobre sujeitos que ainda estão construindo as ferramentas psíquicas para consentir ou recusar. Central City e Marataízes não são fenômenos religiosos espontâneos, são tecnologias de poder, treinadas em corpos que não escolheram estar ali — e que, debaixo da carpa ou diante do fuzil de brinquedo, aprendem cedo demais a obedecer.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.