Em 2050, com Isabela e Clarice
Uma visão de 2050 que projeta uma Campinas sustentável, inclusiva e resultado de escolhas feitas no presente
Terminei de ler O Mercador e o Portal do Alquimista, de Ted Chiang. É um conto de As Mil e Uma Noites, ambientado em Bagdá, que explora o tema da viagem no tempo; trata de questões morais, emocionais e de livre-arbítrio. Recomendo: é muito bacana.
Depois da leitura, resolvi viajar no tempo e pensei em levar o leitor do BRASIL 247 comigo; escolhi 2050, subi na máquina do tempo e procurei minhas netas. Por que elas? Porque sim. Encontramo-nos entre sorrisos e lágrimas. Convidei-as para tomarmos um café na “Cafeteria Cambuí”, na Vieira Bueno, para me contarem como é a nossa Campinas e o mundo em 2050.
Elas me receberam com alegria infinita. Não mostraram surpresa — viagens no tempo são comuns em 2050 —, mas riram, pois a cafeteria havia se mudado para o centro da cidade. “– Muita coisa mudou, vovô".
O centro foi completamente revitalizado e tornou-se um espaço rico em experiências gastronômicas; os prédios foram todos “retrofitados” e passaram a abrigar escritórios de serviços em diversas áreas. Os moradores de rua foram acolhidos em um projeto vitorioso de várias secretarias municipais, que ajudou cada um deles a reencontrar a sanidade e a cidadania, sem internações compulsórias e sem políticas higienistas.
Encontrei Isabela com 27 anos: linda, articulada, poderosa e livre. Ela é engenheira de sustentabilidade, economia verde e energias renováveis. A empresa que criou, da qual é CEO, desenvolve soluções de energia limpa e capacita gestores ambientais e especialistas em sustentabilidade. Ela participou da revitalização do centro.
Clarice, com 26 anos, igualmente linda, articulada, poderosa e livre, tornou-se bailarina. Fundou um grupo de dança e cultura; está ligada à dança contemporânea e à certificação de Pontos de Cultura, que buscam promover a formação e a valorização de saberes tradicionais. Em 2026, há 19 “Pontos de Cultura”; em 2050, são 470 — um em cada bairro da cidade.
Clarice me perguntou: “– Vovô, por que não convidamos o seu ‘eu’ de 2050 também?”. Fiquei confuso. Isabela percebeu e me disse: “– Não se preocupe, vovô, isso não causará nada de ruim. Mas lembre-se: o passado é imutável'. E Clarice completou, em tom de brincadeira: “– Você só não pode querer saber os números da Mega-Sena, tá bom?” Rimos. Preferi não me encontrar com o Pedro de oitenta e seis anos. Já não me reconheço com sessenta e dois; imaginem o susto de me ver aos oitenta e seis.
Fomos de transporte público. O centro, em 2050, está maravilhoso. O transporte é feito por VLT e monotrilhos, tudo elétrico e com energia gerada por placas fotovoltaicas — nada de poluição. Há também modais voadores, que não me arrisquei a usar.
O Largo do Rosário e todas as outras praças foram transformadas em mini-bosques, o que atraiu aves de várias espécies; não há mais podas radicais, mas manejo adequado e técnico. Não há postes nem fios aparentes: tudo é subterrâneo ou por conexão wi-fi. Chegamos à cafeteria. Pedimos três lattes, uma bombinha de creme e uma torta de nozes. Isabela não pediu nada para comer.
Campinas tornou-se moderna a partir da administração de um amigo meu; tornou-se plenamente sustentável. Todas as áreas de ocupação foram regularizadas e urbanizadas; não há déficit de vagas nas escolas; o nosso SUS é reconhecido como modelo internacional; não há criminalidade. Tudo foi planejado para maximizar a qualidade de vida. A cidade voltou a produzir cultura. Clarice disse: “– A gente não quer só comida; a gente quer comida, diversão e arte, não é, vovô?”. A cidade está cheia de ciclovias e zonas de pedestres, o que reduziu drasticamente o uso de carros particulares.
Enquanto comíamos as guloseimas, elas me explicaram que há sistemas avançados de coleta seletiva, compostagem e reutilização de água da chuva — tudo tendo em vista o aumento de parques, telhados verdes e a preservação da biodiversidade local, para melhorar o conforto térmico e a qualidade do ar. A SANASA, empresa da qual sou conselheiro, continua pública e comprou a SABESP, que quase foi à falência depois da privatização.
Perguntei à Clarice: “– Como está a cultura?”. Ela, muito empolgada, olhou-me com seus incríveis olhos azuis e disse: “– Vovô, temos um Ponto de Cultura em cada bairro e um enorme respeito à cultura produzida naquilo que já foi chamado de periferia".
Elas me contaram que tudo foi fruto de trabalho e de decisões corajosas do poder público, de líderes empresariais e de trabalhadores — não sem muito debate e disputas. Perguntei da Ponte Preta. Elas se entreolharam e ficaram em silêncio, talvez para me poupar do sofrimento.
Perguntei do Lula. Elas me disseram que ele fez um grande quarto mandato e que viveu até os 120 anos, como ele próprio previu.
Minhas netas vivem em um futuro sem criminalidade, misoginia, machismo, guerras, preconceito e intolerância. Encontraram seus amores; vivem o infinito de possibilidades em uma sociedade de paz e respeito.
Pretendo voltar para saber mais do futuro, mas o que ficou claro para mim é que a realidade que vi em 2050 só foi possível porque houve um pacto entre o poder público e o setor privado — um pacto de desenvolvimento social, econômico e humano.
Despedimo-nos com um gostoso abraço. Entrei na máquina do tempo e voltei para 2026, disposto a contar a todos que o futuro exige decisões e ações no presente.
Essa é a história da semana.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
