Entre o silêncio e a morte: o Brasil que cala mulheres
Não estamos diante de uma crise momentânea, mas de um processo contínuo e estrutural de violência contra mulheres
Os números mais recentes sobre feminicídio no Brasil não deixam espaço para relativizações: estamos piorando e rápido. O país registrou 399 mulheres assassinadas entre janeiro e março de 2026, o trimestre mais letal desde o início da série histórica. Isso significa, na prática, quatro mulheres mortas por dia, ou uma a cada cinco horas, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública.
O dado, por si só, já seria alarmante. Mas ele se torna ainda mais grave quando observado em perspectiva: houve aumento de cerca de 7,5% em relação ao mesmo período de 2025. E não se trata de um ponto fora da curva. Ao longo da última década, os feminicídios praticamente triplicaram no país, saltando de pouco mais de 500 casos em 2015 para 1.470 em 2025.
Ou seja: não estamos diante de uma crise momentânea, mas de um processo contínuo e estrutural de violência contra mulheres, que começa, na maioria das vezes, dentro de casa. O feminicídio é o último estágio de uma escalada que envolve agressões, ameaças, controle e silenciamento. Combater esse ciclo exige mais do que leis: exige prevenção, educação, proteção efetiva e mudança cultural.
Nesse cenário, é impossível ignorar como diferentes formas de violência de gênero se conectam. A agressão não é apenas física, ela também é simbólica e institucional. Um exemplo recente é o caso da vereadora Juliana de Souza, que teve o microfone arrancado pelo também vereador Mauro Pinheiro, durante uma sessão em Porto Alegre.
O gesto, aparentemente isolado, carrega um significado profundo: mulheres ainda são interrompidas, deslegitimadas e silenciadas, inclusive nos espaços de poder. Essa violência política de gênero não mata diretamente, mas contribui para a mesma lógica que naturaliza a inferiorização feminina, a mesma lógica que, em casos extremos, termina em feminicídio.
Quando uma mulher é impedida de falar em um parlamento, reforça-se a ideia de que sua voz vale menos. Quando denúncias de violência doméstica não são levadas a sério, reforça-se a impunidade. E quando o Estado falha em proteger, o ciclo se fecha da pior forma possível.
Tenho sido alvo de uma série de ataques por estar à frente de uma escola de samba quase centenária, reconhecida como uma das maiores do mundo. Sendo uma mulher negra nesse espaço, a tentativa de silenciamento vem, muitas vezes, acompanhada de ainda mais violência. A gestão na Mangueira é conduzida com amor, mas também com firmeza, e é justamente essa combinação que incomoda os machistas de plantão.
Os números estão aí, ano após ano, mais altos. Eles não são estatísticas frias: são vidas interrompidas. Enfrentar o feminicídio no Brasil passa, necessariamente, por reconhecer que a violência contra a mulher é uma só, seja dentro de casa, seja na política, e que combatê-la exige ação contínua, firme e coletiva.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



