Esmeralda
Se o presente presenteasse, se o destino destinasse, a gente bateria copos, jogaria sinuca e esperaria a noite chegar.
Era uma vez um menino bonito. Não bonitinho ou simpático, bonito mesmo.
O que mais chamava atenção no garoto eram seus olhos grandes, com brilho de esmeralda.
Como tudo o que é verde, o tom variava. De manhã, eram serenos, cor de limonada. Depois do almoço, transformavam-se em azeitonas. À noite, as bolas verdes faiscavam.
Os outros meninos da rua afiavam a inveja e espetavam: “Acho azul mais legal”. “Quer apostar como ele usa lente de contato?”.
Gilberto, o Giba, saboreava mesmo era a unanimidade entre as meninas. Bem menos carrancudas que os garotos, elas perceberam que não era apenas questão de cor. Naquele olhar havia personalidade e sedução.
Ali pelos nossos 12 ou 13 anos, nos conhecemos; me resignei com meus míopes olhos castanhos e experimentei uma inesquecível amizade.
Nada é mais visceral e verdadeiro do que amizade adolescente. Quando ninguém nos entende, quando você descobre que não é mais criança e que falta uma eternidade para ser adulto, só pode contar com os amigos; e o Giba foi meu melhor amigo naqueles tempos.
Nunca soube se eu era o dele, mas ele era o meu.
Nos anos 1970, o Brasil vivia tempos muito tristes de repressão e censura que a gente, ainda inocente, ignorava. Nosso compromisso era com a diversão.
A pelada do domingo era a melhor de todas, mas em Vila Isabel, os poucos campos e quadras já tinham donos: os garotos maiores.
Gilberto, que estudava em escola católica, teve uma ideia: acordava bem cedo e ia até o colégio. Tocava a campainha e, quando a madre superiora aparecia, ele pedia com o melhor sorriso: “Bom dia, posso assistir à Santa Missa em Seu Lar com a senhora e as outras irmãs?”.
Depois que o padre se despedia, o Giba, com sua boa malandragem, dava o xeque-mate: “Irmã, a senhora deixa eu e meus amigos jogarmos na quadra da escola? Garanto que não vai ter briga nem palavrão”. Como negar? Os oito ou dez meninos, que esperavam do lado de fora do portão, entravam, e a bola rolava até o meio-dia, religiosamente.
Quando tive meu primeiro carro, um Fiat 147, segui a moda e troquei o volante grande por um menor, que imitava madeira. Ao sairmos da oficina, Giba apoiou o volante velho no painel do carro e fingiu que dirigia.
Outros motoristas, pedestres, motoqueiros, todos paravam para ver. Gilberto se mantinha sério, “dirigindo” no banco do carona, concentrado no trânsito e sempre movimentando o volante em sintonia comigo.
As pessoas não sabiam se era uma encenação ou se um excêntrico carro tinha sido inventado. Pode parecer uma brincadeira boba, talvez fosse, mas há fases na vida em que tudo é engraçado. E como a vida era alegre com o Giba.
O pai do Giba trabalhava na Globo e levou o filho. Mesmo muito jovem, o Giba assumiu responsabilidades: entregava os textos que precisavam ser decorados ao elenco e informava os horários das gravações.
Um dia, a gente foi ao teatro e ele me apresentou a uma linda mulher, a atriz Maria Zilda. Ganhei dois beijinhos, senti minhas bochechas arderem e o calor subir pelas orelhas.
Outra vez, na praia, ele encontrou o ator Jonas Bloch, que nos apresentou a filha dele, uma jovem ruiva com lindas sardas, a Débora Bloch. Eu, que sempre me interessei por televisão, me encantava.
Giba saiu de Vila Isabel, e eu mudei para São Paulo. Depois, meu amigo casou. Casou uma, duas, muitas vezes. A vida nos afastou sem perguntar se a gente queria.
Mais de trinta anos depois, a escrita nos reaproxima. Giba vê essas crônicas que publico por aí e me acena. A gente se segue, troca mensagens. Entusiasmado, ele me conta que é vizinho das montanhas da Mantiqueira e vive mais um amor. Está feliz com a nova companheira e a presença dos filhos.
“Precisamos nos ver”... “vamos combinar”... “qualquer hora passo aí”... “mês que vem?”. Enrolamos, mesmo sabendo que não estávamos mais em idade de brincar com o tempo. No início do mês, o meu amigo tão querido me contou que passaria por uma cirurgia no coração; se mostrou preocupado, mas também confiante.
A operação não deu certo, e a gente se despediu na semana passada. Nem os olhos verdes eu pude ver de novo. Meu amigo de toda a vida foi-se embora, levou a camisa do Flamengo no peito e deixou uma saudade imensa.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
