Fecham-se as cortinas – ou réquiem para a sociedade do espetáculo...

Optou o procurador por substituir a sua obrigação funcional (aqui compreendida enquanto retratar a realidade) pelo manejo de significativa ilusão imaginativa (ficção jurídica), em ordem a perfilar os interesses do grupo político (imprensa familiar) que lhe vem sustentando, quer sejam; Fazer de Lula, ainda que a poder de retórica e só isso, o chefe de uma organização criminosa

Optou o procurador por substituir a sua obrigação funcional (aqui compreendida enquanto retratar a realidade) pelo manejo de significativa ilusão imaginativa (ficção jurídica), em ordem a perfilar os interesses do grupo político (imprensa familiar) que lhe vem sustentando, quer sejam; Fazer de Lula, ainda que a poder de retórica e só isso, o chefe de uma organização criminosa
Optou o procurador por substituir a sua obrigação funcional (aqui compreendida enquanto retratar a realidade) pelo manejo de significativa ilusão imaginativa (ficção jurídica), em ordem a perfilar os interesses do grupo político (imprensa familiar) que lhe vem sustentando, quer sejam; Fazer de Lula, ainda que a poder de retórica e só isso, o chefe de uma organização criminosa (Foto: João Gomes)

Em relação ao espetáculo midiático (festa pobre) protagonizado pelo procurador da república que tentou explicar a própria denúncia – como se fosse preciso traduzir o que se deve compreender lendo –, Lula já disse tudo. Foi tão enfático, deveras, que nós outros nos animamos a trazer para o tema uma visão singela daquilo que (aguardem) acreditamos ser o tiro no pé da direita oligárquica e estúpida – conforme antevisto pelo próprio porta voz dos civita...

Deveras e neste contexto, a sociedade do espetáculo, como a desenhou Debord, não desnatura da manipulação do coeficiente midiático, como o equívoco não se aparta do tolo, conforme muito bem demonstrou o procurador que convocou os médias para divulgarem o seu tema político, bem assim se vê da atuação da imprensa familiar brasileira (civita + marinho + frias + mesquita), sempre alinhada à golpes antidemocráticos e, no caso concreto, toda voltada para a desconstrução cidadã de Lula.

Assim, eleito previamente o culpado, a farsa de sua desconstrução se desenha pelas mãos de um espetáculo pouco circense (e talvez este seja o grande equívoco), patrocinado por uma hipótese política que desnatura as cores históricas do ministério público – outrora fiscal hoje intérprete e agente político...

Reparem que a articulação dos procuradores é tão política que se inicia fazendo uma ressalva que, em peça jurídica clássica, seria mais do que redundante: não se estaria julgando Lula por sua história – ainda que toda a retórica despejada na sequência seja fortíssima em não alinhar, por mínimo que seja, qualquer imputação por fato típico, além de não ir além de triste e paupérrima interpretação política do autor da peça.

Que outra circunstância justificaria apontar Lula chefe de uma organização criminosa que não existe senão no imaginário prostituído do autor da acusação, que se vale de fatos políticos interpretados sob o vício de sua evidente preferencia pela corrente adversária, na medida em que a acusação está focada nestes fatos políticos (de interpretação corrompida pela internalização da hipótese cara à preferência política do procurador) e não em condutas típicas?

Há anos os Advogados criminais deste país vêm alertando que os tipos julgais estão sendo tão elastecidos que a narrativa implementada à acusação, via de regra, é quem arrima a pretensão e não os supostos informativos da conduta do apontado...

Neste limite se fixou o moderno processo penal condenatório; com forte tendência fascista, povoado por evidente coloração política e sustentado com exclusividade na retórica sofista de seus articulistas...

Este flerte fascista, em certa medida, está justificando hipóteses condenatórias abusivas, tiradas na desnaturação da culpa e das garantias individuais do cidadão...

Assim, cada vez mais a condenação passa a depender do espetáculo midiático que a imputação alimenta, uma vez que o limite do caso penal já não seria a denúncia, mas os interesses políticos que insuflaram e sustentaram a própria vestibular acusatória...

Então e nesta medida, ao convocar os médias para dizer que Lula é chefe de uma organização criminosa e, para justificar a sua pretensão, apontar apenas o seu entendimento corrompido pela presença vívida de elementos políticos, em hotel de luxo, o procurador à testa da operação mais midiática de nossa história abraça a perversão da vida moderna com tamanho ardor que, pensamos nós outros, torna difícil alinhar um outro exemplo acadêmico da idiotização do mundo e da politização de nosso sistema judiciário...

Não seria, entrementes, de lhe comparar a torquemada, na medida em que, se iguais na tolice da crença cega na fé política, revelam-se absurdamente desiguais na justificativa desta crença; enquanto o inquisidor acreditava agir em nome da Santa Igreja, o procurador pensa agir em nome de quem? Da sociedade? Do ministério público? Da direita? Da imprensa familiar?

Nenhuma destas crenças, isolada ou cumulativamente, autoriza o desuso da função pública refletida na conduta do procurador, consistente na exposição da imagem do cidadão Luiz Inácio (e o que possa esta imagem representar) enquanto centro de um esquema para o qual convergiam os desafetos ideológicos dele procurador, notadamente quando lhe era devido apenas e tão somente descrever qual a conduta típica praticada por Lula e apontar, neste contexto, as razões de sua pretensão condenatória pela realização do ilícito por parte do denunciado.

Optou o procurador por substituir a sua obrigação funcional (aqui compreendida enquanto retratar a realidade) pelo manejo de significativa ilusão imaginativa (ficção jurídica), em ordem a perfilar os interesses do grupo político (imprensa familiar) que lhe vem sustentando, quer sejam; Fazer de Lula, ainda que a poder de retórica e só isso, o chefe de uma organização criminosa.

Esta situação engessa o próprio estado democrático de direito, criando a ilusão de sua presença, na medida em que, pela espetacularização que as mídias familiares empregam à ficção jurídica desafiada, tem-se a impressão do regular funcionamento de nossas instituições...

Fixada a impressão da regularidade funcional de nossas instituições no inconsciente coletivo, a imprensa familiar busca consolidar a aparência daquilo que lhe interessa em lugar da realidade, criando uma imobilidade de raciocínio através da repetição de seu mantra espetaculoso, que desafia qualquer forma dinâmica de pensar, de agir ou de observar a realidade.

É dizer; ao convocar uma coletiva de imprensa para dizer que Lula é chefe de uma organização criminosa, o procurador busca o espetáculo causado pela divulgação dos valores que abraçam esta afirmação, em ordem a estabelecer um mínimo (aparente) de integridade à sua hipótese.

Neste instante Lula é tratado enquanto mercadoria e a espetacularização de sua desconstrução pública se aprimora naquilo que seria o próprio fetichismo de mercado, em ordem a justificar a venda do produto (Lula chefe de quadrilha) sem que sequer se raciocine sobre a acusação estar nua de qualquer fato ou dado concreto que justifique, minimamente, a própria imputação.

Assim Lula passa a ser chefe de uma coisa que não existe, mas que deve existir para que Lula seja submetido ao fio da espada, após quebrada a balança e arrancada a venda daquela Senhora avexada!

Neste contexto a oferta pública da desconstrução cidadã de Lula, amplamente noticiada pela imprensa familiar, busca apenas e tão somente sugerir à massa consumidora (nós, o gado contemporâneo, que a acusação tange, ferra, engorda e mata) que há regularidade no funcionamento das instituições, neste instante, no Brasil e, dai em diante, receber a recompensa de uma condenação pelo conjunto da obra – afinal, se Dirceu está condenado com fincas na desvirtuação teórica do domínio dos fatos, porque carga d'água Inácio não pode ser desconstruído pelos desmandos históricos que nos soçobram desde o descobrimento? Ou por ter feito o que nenhum sociólogo, nem de longe, ousou pensar fazer? Ou, pior; por ter permitido que pobre mal cheiroso tivesse assento em aviões?

Esta merda toda fica muito evidente quando se apelida de nine uma das fases da operação!

Nine!

O espectro fascista deste modelo que torna tudo em espetáculo politicamente engajado e ideologicamente ordenado, tem nítido escopo de substituir o diálogo e a busca da compreensão social, pelo consumo desenfreado que nos isola, enquanto sociedade, e mais separa os homens do que une os interesses difusos.

A realidade e a liberdade de pensamento vêm sendo, ao longo da espetacularização ideológica da desconstrução cidadão de Lula e de seu legado político, paulatinamente, substituídos pela imposição de um regime de intolerância (fascista) que chega ao cúmulo de ameaçar nosso maior poeta, pela vociferação não de uma sua posição política, mas sim pela não adesão ao império da idiotização do homem, na medida em que o espetáculo constitui a realidade e a realidade o espetáculo.

Assim seguimos assistindo ao deplorável espetáculo patrocinado pela imprensa familiar, que soube melhor do que a igreja usar o seu inquisidor. Talvez, neste ponto, efetivamente, se possam comparar as figuras, já que ambas não pensavam, apenas consumiam: óbolos ou glória – ainda que efêmera esta e apenas para a apreciação dos idiotas...

Força Lula, não diminua a pegada!

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