Feijoada Completa
Uma mulher sozinha. De vestido azul e sem celular, uma mulher à espera de ninguém
Ideia de brasileiro, é o que dizem da comida por quilo.
O almoço rápido, variado e com o preço proporcional à quantidade mexeu no cardápio do país inteiro.
Mexeu, mas não mudou. Pelo menos em São Paulo, o prato do dia nos botecos populares sobrevive.
Segunda, virado à paulista.
Terça, bife rolê ou rabada.
Quarta, feijoada.
Quinta, massa com frango.
Sexta, peixe,
Sábado, feijoada mais uma vez.
Como em time que ganha não se mexe, esse cardápio, com uma ou outra pequena alteração ou opção vegetariana, não muda.
Eu, com trinta e cinco anos de São Paulo, nunca provei uma feijoada numa segunda, muito menos numa quinta.
Adoro feijoada e sigo o ritual, na quarta de vez em quando e no sábado muitas vezes.
E aquele era um sábado de feijoada. Nascido pra isso. Um sábado seco e fresco. Sem chuva e com a temperatura certa pra sentar na calçada e saborear o caldo espesso, quente e seus pertences.
Na minha frente, uma mulher sozinha. De vestido azul e sem celular, uma mulher à espera de ninguém.
É certo que curiosos especularam. “O marido ou namorado, a amiga ou companheira, tem uma dessas profissões de quem trabalha aos sábados. Manicure, motorista, corretora, jornalista, enfermeiro. E ela chegou antes para garantir a mesa.”
Não, nada disso. Ela está e vai continuar só.
Suelen traz o cardápio, a mulher agradece sem nem abrir. Já sabe o que quer.
- Uma feijoada grande.
- A light é 70, a gorda 60.
- Gorda. Por favor, pede pra Nilda caprichar no rabo, no pé e na orelha. Bisteca ao ponto. A caipirinha é a de sempre, com cachaça mineira e açúcar.
- Pode deixar, dona Cleide.
“Dona” é só um tratamento respeitoso de Suelen. Cleide está longe dos 45.
A caipirinha abre o apetite e seca no exato momento em que a porção de torresmos acaba e que Suelen chega com a cumbuca de barro e as travessas de alumínio. Arroz soltinho, couve enfeitada com fartura de alho, farofa torrada, laranja perfumada, bisteca dourada. Um pote de vidro que já foi de palmito ou maionese e agora guarda malagueta vem junto. Pronto, não falta mais nada.
Uma suave cortina de fumaça surge entre Cleide e o resto do mundo.
- Su, por favor, mais uma caipirinha. Do mesmo jeito.
Uma mulher e sua feijoada.
Garfadas bem medidas, mastigadas vagarosamente, na paz da solidão. Cada uma combina a riqueza dos ingredientes. Pequeniníssimas quantidades de arroz, feijão, uma lasca de paio ou a suculenta gordura do pé, que pode revezar com a cartilagem macia da orelha e ainda fiapos de couve, um tico do bife do porco.
É como se uma micro-feijoada-completa viajasse em cada uma daquelas minúsculas porções, saboreadas em silêncio absoluto.
Uma mulher e sua feijoada.
O primeiro prato, muito bem servido, já foi. Cleide, repete.
A segunda parte da refeição termina como a primeira. Nenhum grão de arroz restou sobre a louça branca.
Nas travessas e na cumbuca de barro ainda há uma quantidade razoável.
- Por favor, embale que vou levar pra casa.
- Dona Cleide, a senhora tem direito ao pudim e ao café. É cortesia da casa.
- Obrigada, estou de regime.
Cleide ri da própria piada e pisca o olho. Então, se despede dos balconistas e paga no caixa com dinheiro, sem esquecer a gorjeta da garçonete preferida.
Uma mulher e sua feijoada.
Uma feijoada morna, num sábado já frio em São Paulo.
Uma mulher sem pressa e sem celular a caminho de casa.
Sem que ninguém pergunte, Suelen tempera devaneios.
- Tá levando pra ela mesma. Dona Cleide mora só. Ela me disse que congela. Feijoada requentada é mais gostosa. Melhor no domingo que no sábado.
*Luis Cosme Pinto é autor do livro de crônicas, Birinaites, Catiripapos e Borogodó, da editora Kotter.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
