Flávio é o esqueleto ambulante da extrema direita
“O filho ungido não precisa se esforçar muito para esconder os ossos do bolsonarismo”, escreve Moisés Mendes
Até por jornalões procuram os esqueletos no armário de Flávio Bolsonaro, enquanto o próprio candidato cata os ossos da fome do desgoverno do seu pai, para atribuir a ossada ao governo de Lula. O efeito da nova busca ao passado do filho ungido pode ser zero. Nada.
Todo mundo sabe o que ele fez por suas relações e até homenagens a criminosos e pela capacidade de escapar dos cercos do sistema de Justiça. Sabem ou fingem não saber, porque a imagem de Flávio está, como dizem no mercado financeiro, precificada há muito tempo.
Flávio tem preço, tem etiqueta, tem especificação do material de que foi feito e tem alertas sobre os danos que pode sofrer se for exposto à luz. Mesmo assim, o Estadão publicou no sábado, dia 11, que o filho é uma página em branco.
O jornal deu na capa, em destaque, a chamada para a entrevista do marqueteiro Jorge Gerez, que trabalha para Ratinho Júnior. Segundo o especialista em imagem pública, ninguém sabe de onde Flávio veio e o que pretende da vida. Essa seria a sua vantagem.
Esse mesmo marqueteiro vai pisando no que diz e chega ao ponto de dizer, ao comparar Flávio e o gângster argentino da criptomoeda, que “Milei é um cientista, uma pessoa com muito conteúdo”. Pelos disparates, a entrevista seria um desastre até uns 10 anos atrás. Hoje, não dá nada.
Tanto que o mesmo Estadão, que apresentou o mais novo extremista moderado como se fosse um Collor de 1989, informa nesta segunda-feira, dois dias depois, que o filho tem um passado sombrio. E publica no título do editorial: “Os ‘esqueletos’ de Flávio Bolsonaro”.
O jornal adverte: “Não demorou para que o passivo do senador – sobre rachadinhas e milicianos – começasse a aparecer. E o candidato, ao dizer que não sabia de nada, escolheu ofender a inteligência do eleitor”.
E aí vem a lista, no Estadão e nos jornalões que redescobrem a folha corrida do filho escolhido, tudo o que se sabe sobre o envolvimento de Flávio com suspeitas e investigações de desvios de verbas públicas, com milicianos e com a compra de imóveis da família com dinheiro vivo ou morto.
É um passivo sem fim. O Globo destacou hoje que o delegado da Polícia Federal Erick Ferreira Blatt, flagrado furtando um vidro de carpaccio de trufa (que custa R$ 300) em um supermercado do Recife, é ‘conhecido’ dos Bolsonaros. Não é amigo há uma década, é conhecido. Seria amigo se a relação fosse com Lula.
Quem sai a pesquisar no Google para saber quem é o delegado desdobre que ele engavetou uma investigação contra Flávio em 2022, sobre um dos casos brabos de ocultação de imóveis e lavagem de dinheiro.
Nessa busca, aparecem links aleatórios para outros textos e lá está a seguinte chamada, no Globo de 11 de fevereiro de 2022: “Flávio Bolsonaro diz que se encontrou com Queiroz e tratou de eleição: Ele é ficha-limpa, falei para ir à luta”.
Queiroz foi e não se elegeu deputado estadual. Flávio recomendava ao ex-assessor que se virasse, enquanto já estavam engavetadas, por decisão do STF, as investigações sobre as rachadinhas.
Agora, há uma semana, em 6 de abril, em entrevista a um podcast, Flávio disse ao tentar se afastar do ex-parceiro:
"O Queiroz cuidava de uma parte da minha assessoria que trabalhava na rua, fazia panfletagem, evento, e tinha autonomia sobre esse pessoal. Ele falou que, de algumas pessoas que ele tinha empregado, ele cobrava uma parte do salário, mas obviamente não tinha minha concordância. Ele fala que eu jamais tive conhecimento disso."
Em 2022, Flávio deu corda para que Queiroz buscasse um mandato, mas agora é mais cuidadoso. O que se sabe é que o ex-assessor virou subsecretário da Segurança e Ordem Pública de Saquarema, no Rio de Janeiro.
O sistema de Justiça que pegou Braga Netto, o mais poderoso general da era Bolsonaro, não consegue pegar Flávio nem Queiroz. Como não pegou e talvez nunca mais pegue os grandes financiadores do gabinete do ódio, dos bloqueios de estradas e da invasão de Brasília no 8 de janeiro.
O delegado amigo de Flávio, que engavetou a investigação de 2022, o ex-assessor agora xerife da guarda municipal de Saquarema, os amigos milicianos homenageados solenemente – todos estão por aí, descontando-se os que já foram executados em queima de arquivo.
Flávio, o sujeito que o Estadão apresenta como página em branco, para dar voz na capa aos que falam por ele, mesmo que sejam bobagens, é também o homem dos esqueletos que a grande imprensa escondeu até agora.
Decidiram mostrar alguns ossos, mas em cena rápida, e quem não viu não verá mais. Porque esse é o jogo dos jornalões. Mostram, em flashes eventuais, os podres da extrema direita, mas querem mesmo é bater todos os dias em Lula.
Por isso é ilusória a sensação de que em algum momento todos os ossos escondidos pela família irão desabar sobre Flávio. Porque são ossos expostos há muito tempo. Todo mundo conhece cada detalhe desse acervo, o crânio, a clavícula, o fêmur, a tíbia.
Todos conhecem a fíbula que segura a tornozeleira de Bolsonaro. Conhecem ossadas avulsas e cadáveres inteiros. Poucas páginas são mais preenchidas do que o histórico da família de Flávio Bolsonaro, que o Estadão apresentou como sendo imaculada.
Se encontrarem amanhã um cemitério ocupado só com ossos do bolsonarismo, a reação pode ser a mais natural, porque não é nessa área que Flávio será abalado.
Essa é a eleição em que valores e referências sobre bons modos não valem um fêmur descarnado. Até porque Flávio é o próprio esqueleto vivo e ambulante da extrema direita. Os outros são os outros.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



