Fome de chão
A especulação imobiliária em São Paulo não tem limites. Quando digo isso, falo com o fígado
Semana passada, uma janela se abriu em minha agenda e corri para a sorveteria mais gostosa do bairro. Sou frequentadora, e a atendente Lia já conhece os sabores que mais gosto. A conversa com ela é tão saborosa quanto as duas bolas caprichadas que instala com arte sobre o cone crocante, e flui entre um cliente e outro, enquanto me dou aquele presente no dia quente de verão. Mas, surpresa, virei estátua ao ver a pequena e charmosa lojinha transformada em entulho e ferro retorcido no tempo de um dia. O queixo insistiu em permanecer caído, enquanto um aperto no peito trazia o oposto do que eu havia ido buscar naqueles minutos de descanso.
A especulação imobiliária em São Paulo não tem limites. Quando digo isso, falo com o fígado. Trabalho em um bairro da zona oeste e vou a pé duas vezes por semana à aula de Pilates, os olhos varrendo muitas realidades no caminho. Na esquina, um novo empreendimento foi anunciado e testemunhei o que muitos paulistanos têm visto acontecer: todo o processo de derrubada das casinhas de pequeno comércio e a construção de estandes, muitas vezes principescos, anunciando lofts, studios, flats, kitnets, espaços de 25 a 400m² a depender dos projetos das construtoras, de olho nos investidores. Não se vê uma única melhoria no bairro, como arborização, redesenho das redes de esgoto, algum planejamento que tente evitar a tragédia anunciada com o inevitável adensamento que virá com a verticalização insana que tem pressa de acontecer.
Passado um tempo, depois de derrubado o estande de vendas, vejo buracos ao longo da calçada fazendo a volta no terreno para a colocação de tapumes na fachada. A questão que me indignou foi que esses buracos avançavam no meio do passeio público, e me fez prever que os pedestres iriam perder metade da calçada, sem aviso nem vergonha. Exatamente o que aconteceu: depois dos buracos, postes; depois dos postes, muretas; depois das muretas, tapumes e uma calçada diminuta para uma pessoa a pé e no máximo um cachorro. A mãe de gêmeos com carrinho de bebê terá que mudar de calçada.
No bairro onde moro, os prédios já estão lá há tempos, mas algumas construtoras conseguem ainda encontrar estreitas brechas para subir torres, lançar suas canções de sereia e seduzir compradores e mais investidores.
Um denominador comum surgiu bem no meio do meu percurso dia desses. Outro grande empreendimento – termo que gostam de usar – vai nascer numa esquina conhecida. Ali, um casarão do início do século XX foi preservado e restaurado para se avizinhar ao dito prédio de luxo. Ouvi dizer que a casa, que desperta curiosidade pela beleza, estaria aberta à visitação. Enquanto andávamos até lá, meu namorado me contou que já havia estado ali no passado. Como jornalista, foi ao lugar várias vezes fazer reportagens, e teve a chance de entrar onde o simples cidadão não tem acesso. A casa imponente já abrigou o DOPS, local onde presos políticos, na época da ditadura militar, eram detidos e retirados de circulação – e muitas vezes, torturados –; em outro momento, foi sede da Polícia Federal, e vários criminosos, até mesmo corruptos estrangeiros, eram mantidos nos porões feitos de carceragem até encontrarem seus destinos finais.
Pois é, mas o acesso hoje, ou a prometida visita ao imóvel tombado é uma isca dos vendedores de apartamentos. O casarão agora fará parte do futuro condomínio, e a abertura para conhecê-lo acontece apenas às segundas-feiras, das 9h às 17h, com agendamento. A moça que nos atendeu fez um muxoxo e ficou sem argumento quando lhe lembrei que eu, e a torcida do Corinthians, trabalhamos nesse horário. O sentimento de exclusão e o óbvio desinteresse dos empreendedores em compartilhar a experiência estética e artística do lugar com pessoas comuns ficaram explícitos. Do lado de fora, circundando o terreno, adivinhe quem estava: os tais tijolinhos de concreto formando a nova muretinha que avançava, igualmente, por meia calçada, sinalizando o preparo para o início, em breve, das fundações da construção das gigantescas torres.
Senti uma raiva crescente, e tive que desabafar por vários quarteirões enquanto meu corpo destilava bílis ao longo da nossa caminhada: discursava sobre o público e o privado, a mistura e a invasão de outro sobre um. Foi amargo. Mas o contraste ainda estava por vir. Passando na frente de uma loja, um funcionário, munido de mangueira, lavava não a calçada, mas um sem-teto, expulsando com água o homem que teve que suspender à cabeça a sua moradia, um colchão mequetrefe que lhe garantia um metro quadrado de sono. A água avançava e escorria também para uma indígena, que havia feito de um pano no áspero do chão a sua vitrine, expondo trabalhos de cestaria. Foi obrigada a arrastar toda a produção às pressas até um canto livre na esquina, escapando por muito pouco do banho indesejado e invasor. A calçada é roubada do transeunte na construção do prédio, mas quando o sem-teto, o morador de rua ou o camelô a ocupa, sai da frente que vem água, prego, creolina, cachorro, palavrão, cassetete. Se for para ocupar com mesinhas e cadeiras para ampliar o restaurante, também pode. O pedestre é obrigado a dar um jeito de se esgueirar num ziguezague seguido, até encontrar um espacinho alargado e continuar conversando lado a lado com seu amigo. Pense no cadeirante. Não, ninguém pensa.
Para coroar a manhã, uma cena arremata o tema que me atravessou ao longo daquelas horas: um senhor de idade dorme no pé de um muro, sobre trapos sujos, aquele sono dos justos, profundo, entregue, e ao lado o espera um pote recheado de comida, acompanhado de uma colher – de metal. Alguém se compadeceu daquela situação dolorosa e ofereceu ao senhor um momento digno; sem assinatura, sem identificação.
A quem pertence o espaço público, afinal?
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



