Fortaleza 300 anos: uma cidade de sol, mar e dengo
Entre afetos e contradições, Fortaleza resiste às perdas e reafirma sua identidade viva nas ruas, nas pessoas e na memória de quem a habita
É aniversário de Fortaleza, a cidade que me abriga e com quem tenho uma eterna relação de amor e ódio. No aniversário da cidade, nos alegramos, mas também choramos de tristeza quando vemos as coisas belas, uma a uma, sumindo, se desmilinguindo, como diz o poeta. Mas Fortaleza teima em resistir, não se deixando engolir por estacionamentos, igrejas, farmácias e mais um supermercado.
As belezas e delicadezas da minha cidade são inúmeras, mas muitas vezes são encobertas pelas indelicadezas dos táxis e carros de aplicativos, que te cobram muito caro para te levar tão perto. Pela letargia das coisas em um mundo cada vez mais rápido. Pelo abandono e pelo desrespeito com a coisa pública. Pela falta de amor ao nosso povo, adormecido sobre papelões debaixo das marquises nas melhores calçadas da cidade. E penso no que diriam Francisco Carvalho e Milton Dias sobre os “centauros urbanos”, metade homem, metade carrinho de geladeira, lutando pela vida, catando garrafas entre a boca da noite e a madrugada. E como não sofrer com as Iracemas diariamente violentadas na nossa cidade-mulher, apenas por serem Iracemas?
As imagens na mídia não dão conta de tudo o que Fortaleza realmente é, pois a cidade pela qual caminho todas as manhãs em direção ao trabalho também é linda graças ao sorriso das tapioqueiras da Paupina, à alegria da garotada que nada na lagoa de Messejana, a mesma lagoa na qual já se banhara a virgem dos lábios de mel. A Fortaleza que me encanta é aquela que se mostra nas canções de Fausto Nilo, minha terra natal, cujas longarinas de seus verdes mares bravios arrebentam na ponte velha, que ainda não caiu. A cidade que me seduz é aquela de Ednardo, mas é também aquela dos meninos e meninas do Bom Jardim, do Poço da Draga e do Curió.
Mais que “odiar” essa cidade, amo seus aconchegos, os cafunés que faz em minha cabeça e os dengos em minh’alma. A paz e a liberdade que ela me proporciona conseguem diminuir as dores que me causa, enchendo meus olhos de um verde que apenas nosso mar parece ter. Assim, quando Fortaleza faz aniversário, tento não lembrar que sou “filho da dor” e agradeço as oportunidades que tenho de, sob o sol novo de cada amanhecer, ouvir a jandaia cantar em meu coração.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
