Gaza não precisa de conselhos. Precisa de reconhecimento do Estado Palestino
'Gaza precisa do fim da ocupação e da responsabilização criminal do governo Netanyahu. Não há paz construída sobre cadáveres'
É preciso parar de fingir neutralidade diante do horror. O que acontece em Gaza não é um conflito, não é uma guerra, não é uma disputa simétrica. É um genocídio em curso, praticado pelo Estado de Israel, sob o comando direto de Benjamin Netanyahu e de uma coalizão nacionalista sionista de extrema-direita, com o apoio ativo e cúmplice dos Estados Unidos.
É igualmente necessário afirmar, sem ambiguidades: o povo judeu não é responsável por esse crime. Judeus não são sinônimo de sionismo. Há judeus em Israel e no mundo inteiro denunciando o massacre, marchando contra Netanyahu, sendo presos por se recusarem a compactuar com a barbárie. O que mata em Gaza não é uma religião, é um projeto político colonial, racista e expansionista, que trata palestinos como obstáculos descartáveis.
Hospitais destruídos, escolas bombardeadas, jornalistas executados, crianças soterradas, a fome usada como arma, a água bloqueada, a eletricidade cortada. Nada disso é “excesso”. Tudo isso é método. Tudo isso é política de Estado. Gaza foi transformada em um campo de extermínio a céu aberto, enquanto o mundo é convidado a discutir arranjos administrativos para o dia seguinte - como se o problema fosse governança, e não assassinatos em massa.
Nesse cenário, a ideia de um chamado “Conselho de Paz” para governar Gaza é um escárnio. Não é paz, é intervenção. Não é reconstrução, é administração das ruínas deixadas pelo agressor. É um esquadrão de contenção, criado para estabilizar os efeitos do crime sem tocar em sua causa. Um mecanismo pensado para normalizar o inaceitável.
Por isso, penso que Lula não deveria, em hipótese alguma, aceitar participar desse teatro cínico. O Brasil não pode emprestar sua autoridade moral para legitimar um arranjo que contorna o direito dos palestinos à autodeterminação e absolve, na prática, os responsáveis pelo genocídio. Fazer isso seria trair a tradição histórica da diplomacia brasileira e macular um legado construído na defesa do direito internacional.
A Palestina é dos palestinos. Gaza não precisa de tutores estrangeiros, nem de forças “pacificadoras” que chegam depois das bombas. Precisa do fim da ocupação, do fim do bloqueio, do reconhecimento pleno do Estado Palestino e da responsabilização criminal do governo Netanyahu pelos crimes contra a humanidade que cometeram sob o seu comando.
Não há paz construída sobre cadáveres. Não há reconstrução sem justiça. Não há neutralidade possível diante do genocídio. A história não perdoa quem mata. Mas também não absolve quem legitima o crime chamando intervenção de paz.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



