Gleisi desafia Alcolumbre a instalar CPI do Master
A petista também vinculou a pauta da dosimetria à derrota de Jorge Messias no Senado
A deputada federal Gleisi Hoffmann (PT-PR), ex-ministra das Relações Institucionais do governo Lula, cobrou de Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) a instalação da CPI do Banco Master durante a sessão conjunta do Congresso Nacional desta quinta-feira (30), convocada para analisar o veto de Lula ao projeto da Dosimetria de Penas.
A cobrança foi feita da tribuna, diante do próprio presidente do Congresso. Gleisi usou a votação sobre a dosimetria, que pode reduzir penas de Jair Bolsonaro (PL) e de condenados pela trama golpista do 8 de janeiro, para devolver à direita a pressão sobre o caso Master.
“Instale-se a CPI do Master”, afirmou Gleisi.
A sessão conjunta começou às 10h35 no Plenário da Câmara dos Deputados e foi destinada à deliberação do Veto nº 3 de 2026, que trata da chamada Dosimetria de Penas. O veto total foi apresentado pela Presidência da República em 9 de janeiro de 2026.
Gleisi classificou a sessão como uma vergonha para o país. Segundo ela, votar a derrubada do veto seria “passar pano” para a tentativa de golpe.
A deputada disse que a pauta da dosimetria passa uma mensagem perigosa aos condenados pelo 8 de janeiro.
“É a mesma coisa que dizer: façam de novo”, afirmou.
O alvo político da fala foi Alcolumbre. Gleisi disse que o presidente do Congresso levaria a sessão “na biografia” se conduzisse a votação para aliviar penas de golpistas.
A petista também vinculou a pauta da dosimetria à derrota de Jorge Messias no Senado. Para Gleisi, a rejeição do indicado de Lula ao Supremo Tribunal Federal (STF) foi fruto de um acordo envolvendo oposição bolsonarista, interesses eleitorais, financeiros e medo de investigações.
A instalação da CPI do Master está parada apesar de o requerimento ter 53 assinaturas. Segundo a Rádio Senado, a abertura da comissão depende da leitura do pedido por Davi Alcolumbre no Plenário. Senadores recorreram ao STF para tentar destravar a CPI.
A fala de Gleisi atingiu o ponto sensível do acordo político em Brasília. Alcolumbre acertou com a oposição o engavetamento da CPI do Master em troca da votação da dosimetria.
Gleisi disse não temer a discussão sobre o Master. Ao contrário, afirmou que a CPI seria uma oportunidade para investigar a relação de bolsonaristas com o caso.
Segundo a deputada, a comissão permitiria cobrar explicações sobre pagamentos ligados ao entorno de Jair Bolsonaro, sobre o apoio político ao governo do Distrito Federal e sobre decisões do Banco Central no período Bolsonaro.
O caso Master já está sob investigação formal. Em março de 2026, o ministro André Mendonça, do STF, prorrogou por mais 60 dias o inquérito da Polícia Federal (PF) sobre a compra do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB).
A crise também produziu impacto bilionário no BRB. O banco estatal de Brasília poderia precisar provisionar mais de R$ 5 bilhões por causa de operações com o Banco Master, segundo depoimento de um diretor do Banco Central.
Em 22 de abril de 2026, acionistas do BRB aprovaram aumento de capital de até R$ 8,8 bilhões para reforçar o banco após os problemas ligados ao Master. O Blog do Esmael registrou que o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa foi preso pela Polícia Federal sob suspeita de receber propina para beneficiar o Master, acusação negada por sua defesa.
A CPI, se instalada, coloca a crise bancária no centro do Congresso justamente quando a oposição tenta transformar a dosimetria em saída penal para Bolsonaro e aliados condenados.
Gleisi amarrou os dois temas na mesma frase política: quem quer aliviar pena de golpista, segundo ela, também precisa explicar por que resiste à investigação do Master.
A sessão expôs o tamanho do confronto. De um lado, Alcolumbre segura a caneta da pauta. De outro, a base de Lula tenta empurrar o Congresso para discutir o escândalo financeiro que ameaça atingir o coração da direita.
A fala de Gleisi também recoloca o PT no ataque depois da derrota de Messias no Senado. A deputada disse que Lula venceu a Lava Jato, foi absolvido pelas urnas e chegou três vezes à Presidência da República pelo voto popular.
O recado central foi dirigido aos bolsonaristas. Gleisi afirmou que a democracia permite até os ataques feitos contra o governo, mas não pode servir de abrigo para quem tentou derrubar um presidente eleito.
O Congresso entrou nesta quinta-feira (30) numa encruzilhada pública: aliviar penas do 8 de janeiro ou abrir a caixa-preta do Master. A resposta de Alcolumbre dirá qual crise ele prefere manter fora do plenário.
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Íntegra do discurso de Gleisi Hoffmann:
“Senhor presidente, colegas, é com muita tristeza que eu subo nessa tribuna, porque, infelizmente, senhor presidente, essa é uma sessão que envergonha o país.
Infelizmente, senhor presidente, Vossa Excelência levará essa vergonha na sua biografia.
É uma vergonha porque atenta contra a Constituição e contra a nossa democracia.
Passar pano para a tentativa de golpe, para os golpistas, é a mesma coisa que dizer: façam de novo. Vão lá, depredem de novo o Congresso Nacional, depredem de novo o Supremo, depredem de novo o Palácio do Planalto e tentem dar golpe novamente para tirar um presidente eleito.
É essa mensagem que a gente deixa para o futuro.
Eu ouvi falar de ódio aqui. Não somos nós que carregamos ódio no coração. O ódio veio para a pauta da política quando Bolsonaro entrou na disputa da Presidência da República.
O ódio veio para a pauta da política quando Bolsonaro presidiu esse país. O ódio foi um instrumento da disputa, e esse ódio esteve retratado no que fizeram nessa Casa.
O Congresso que Vossa Excelência preside foi vítima desse ódio.
Por isso nós não podemos votar um projeto de anistia e de redução de penas.
E é um projeto tão ruim que foi vetado integralmente pelo presidente da República.
E Vossa Excelência teve que fazer um acochambramento regimental para poder tirar a redução de pena para estuprador, para criminoso, para bandido que vocês votaram.
Vocês votaram um projeto que tinha isso escrito e que nós vetamos, lamentavelmente.
Infelizmente, senhor presidente, essa sessão coroa um acordo feito para derrotar a indicação de Jorge Messias ao STF.
Um acordo que pega todos os interesses políticos, eleitoreiros, financeiros, de impunidade, infelizmente.
E eu vi aqui gente falando que nós temos medo de discutir o Master. Nós não temos medo.
Quero fazer um pedido para Vossa Excelência: instale-se a CPI do Master.
Nós vamos fazer essa discussão aqui dentro do Congresso Nacional, porque vai ser uma boa oportunidade para os bolsonaristas explicarem por que Bolsonaro ganhou R$ 3 milhões do Zetel, cunhado do Master.
Por que os bolsonaristas deram apoio e dão apoio a esse governo do Distrito Federal que quebrou o BRB nos conluios com o Master?
É bom para os bolsonaristas dizerem por que o Banco Central, sob Bolsonaro, autorizou a compra do Master e todas as calcatruas feitas.
Isso vai ser muito importante para o país e para a gente resgatar a verdade.
O Lula é um grande líder, que venceu a farsa da Lava Jato, mas, sobretudo, foi absolvido pelas urnas.
Presidente eleito três vezes pelo povo brasileiro.
Aliás, o PT subiu cinco vezes a rampa do Palácio do Planalto, apoiado pelo povo.
Isso diz muito sobre o nosso legado para a população.
Vocês governaram por um ano e foram escorraçados do Palácio do Planalto, porque deixaram morte, deixaram dor, deixaram prejuízo para o povo brasileiro, mas, sobretudo, deixaram o ódio.
Aliás, quase entregaram esse país na Lava Jato. Quase entregaram a Petrobras para os americanos.
E agora a família Bolsonaro queria entregar para o Trump a nossa soberania, apoiando as vergonhosas taxas que ele colocou aqui.
Se vestem com a bandeira brasileira, mas não têm coragem de defender esse país.
Vocês batem continência, é para a bandeira americana, e desonram essa nação.
Nós temos o dever, como campo progressista e de esquerda, de vencer as eleições dos bolsonaristas, para não deixar o retrocesso na história, para que nunca mais esse país sofra uma tentativa de golpe.
A democracia é fundamental, inclusive para deixar vocês falarem as besteiras que falam e os ataques que fazem contra nós. Sem democracia, isso não aconteceria.
A tentativa de golpe queria matar o presidente Lula.
É isso mesmo que Bolsonaro queria.
Não ganhou nas urnas e queria ganhar na força.
Por isso, votar a anistia e votar esse projeto da dosimetria é permitir que isso aconteça novamente.
O nosso compromisso com a Constituição de 88 é defender a democracia que ainda está frágil.
Eu espero, senhor presidente, o senhor, como presidente do Congresso Nacional, que teve essa Casa que Vossa Excelência dirige aviltada pelos golpistas, não permita isso.
Não leve isso na sua biografia, porque vai ser muito vergonhoso para a nossa história um retrocesso desse jeito.
Nós não estamos falando de pequenas penas, não.
Nós estamos falando de um movimento que quase deu certo para a retirada do poder de um homem que estava eleito democraticamente.
Nós temos o dever de defender esse Congresso Nacional, a democracia, o Brasil.”
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



