Greenwald não foi censurado: praticou mau jornalismo e quer ser uma estrela acima de qualquer crítica

O jornalista Mauro Lopes escreve sobre o episódio da saída do jornalista Glenn Greenwald do Intercept e da acusação de censura que ele lançou contra seus colegas

Glenn Greenwald
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Por Mauro Lopes

Duas preliminares antes de escrever sobre o episódio da saída do jornalista Glenn Greenwald do Intercept e da acusação de censura que ele lançou publicamente contra seus colegas.

1.Greenwald é um jornalista de renome mundial devido ao caso Edward Snowden (2013), com o qual ganhou o Pulitzer. Em 2019, recebeu as conversas de integrantes da Lava Jato no Telegram, gravadas por hackers que haviam procurado Manuela D’Ávila -ela encaminhou-os a Greenwald em função de sua justa fama.

2. O jornalismo é uma atividade coletiva. Há, como em todos os campos de atividade, espaço para a projeção pessoal, mas ela é sempre resultante da soma de esforços de um grupo de profissionais.  Quando você lê uma reportagem assinada por um ou uma jornalista ou uma matéria na TV apresentada por um(a) repórter, saiba: ele nunca fez sozinho. Há uma série de outros jornalistas que contribuem na produção da matéria e, ao final, editores que apontam falhas e inconsistências, solicitam mudanças, checagens, novos ângulos (é o trabalho de edição). Portanto, não se iluda: jornalismo não é uma profissão artesanal nem feito por estrelas de brilho único. 

Feitas as preliminares, comento o caso Greenwald a partir do anúncio que ele fez de sua saída do Intercept e da entrevista que ele concedeu à TV 247, a Leonardo Attuch e Tereza Cruvinel neste sábado (31).Num texto espalhafatoso, Greenwald acusou seus colegas (editores) do Intercept nos EUA de “censura” (aqui), o que confirmou na entrevista à TV 247.

Uma das chaves de interpretação da postura de Greenwald é a expressão-símbolo da entrevista: “minha liberdade de expressão”. Ele manobrou com perícia a contraposição entre censura e liberdade de expressão. Mas deixou escapar que não estava defendendo, como uma visão minimamente analítica da entrevista deixa patente, a liberdade de expressão como um valor. Não, Greenwald estava defendendo a liberdade de expressão dele como valor absoluto.

Ora, do ponto de vista do jornalismo profissional, cumpre examinar o material jornalístico produzido por ele para poder discernir: ele sofreu uma censura política ou apenas correções do ponto de vista da edição de sua reportagem?

Aparentemente, Greenwald considera que seu passado (Snowden e Vaza Jato) o tornariam isento do trabalho de edição. Mas quem trabalha em veículos de comunicação sabe que isso não existe. Os louros de ontem não servem de salvo-conduto para hoje. Cada reportagem deve ser analisada pelo que apresenta, mesmo que o jornalista seja uma estrela.

Uma análise detida da reportagem de Greenwald, que ele publicou na plataforma Substack, da qual é ou será um dos sócios a julgar por sua entrevista à TV 247, mostra que a peça é claudicante. O texto contra Joe Biden e seu filho Hunter lembra as reportagens da imprensa conservadora brasileira contra Lula e seus filhos.

Se você não é jornalista, saiba que a boa técnica jornalística indica que em reportagens investigativas ou factuais o mais importante está sempre no início. É a informação de maior impacto, que apresenta logo a “bomba”. Leia o que está em dois dos primeiros parágrafos dos texto (na tradução feita pelo 247):

“Um dos ex-parceiros de negócios de Hunter (Biden), Tony Bubolinski, apresentou-se oficialmente para confirmar a autenticidade de muitos dos e-mails e insistir que Hunter, juntamente com Jim, irmão de Joe Biden, planejavam incluir o ex-vice-presidente em pelo menos um negócio em China. E o pesquisador do Partido Republicano, Frank Luntz, que apareceu em uma das cadeias de e-mail publicadas, pareceu confirmar a autenticidade também, embora se recusasse a responder a perguntas de acompanhamento sobre isso.

Até o momento, nenhuma prova foi oferecida por Bubolinski de que Biden efetive sua participação em qualquer um dos negócios discutidos. O Wall Street Journal diz que não encontrou nenhum registro corporativo refletindo que um negócio foi finalizado e que "mensagens de texto e e-mails relacionados ao empreendimento que foram fornecidos ao Journal pelo Sr. Bobulinski, principalmente a partir da primavera e verão de 2017, não mostre Hunter Biden ou James Biden discutindo um papel para Joe Biden no empreendimento."

Um editor que lê este texto sabe que não há nada de concreto contra Biden ou mesmo seu filho. Greenwald não diz que houve negócios escusos. Escreveu que Hunter e um tio “planejavam incluir o ex-vice-presidente em pelo menos um negócio em China”. Ou seja: não houve qualquer negócio, apenas, em tese um plano. Mais adiarefnte, Greenwald reconhece que não há nenhuma prova de participação efetiva dos Biden nos “negócios discutidos” e afirma que o  Wall Street Journal “não encontrou nenhum registro corporativo refletindo que um negócio foi finalizado”.

Bem, qualquer editor responsável mandaria seu repórter voltar à investigação, porque na reportagem só há fumaça. De fato, apenas no contexto da Lava Jato a imprensa brasileira perpetrou acusações contra Lula e sua família no nível do que Greenwald tentou fazer contra os Biden.

O contexto no qual surgiu a reportagem de Greenwald exige ainda mais cuidado editorial. A poucos dias de uma eleição que será decisiva para o futuro dos EUA (e do mundo), ele decidiu investir contra o candidato democrata com um texto que não contém sequer uma acusação sólida. Nenhum editor sério autorizaria a publicação de um texto assim, exceto aqueles comprometidos com a campanha de Trump. Não é à toa que Greenwald teve que lidar nas últimas horas com a acusação de querer favorecer Trump -por sinal, na entrevista à TV 247, ele foi muito mais crítico a Biden e aos democratas que a Trump e os republicanos.

Há muitos que usam a fama de Greenwald e sua verve expressiva para engrossar sua narrativa de “censurado” e defensor da liberdade de expressão.

Mas, se é para usar a figura de Greenwald e seu passado como argumento praticamente definitivo em favor dele, lanço mão da avaliação de ninguém menos que Naomi Klein, jornalista como Greewald, escritora e um ícone do pensamento pós-moderno, uma referência para toda a reflexão progressista sobre a globalização e o neo-liberalismo. Ela escreveu sobre o episódio: “Glenn não foi ‘censurado’ - ele foi editado e bem editado. Choramingar sobre censura é uma jogada de marketing para atrair assinantes para seu novo Substack. As pessoas realmente vão cair nessa?”.

Na entrevista à TV 247 Greenwald revela-se mais do que talvez imaginasse ou desejasse. A resposta dele para explicar sua omissão diante de um caso grave de assédio no Intercept Brasil é chocante. Há outras facetas do caso que podem ser examinadas. Mas este artigo prende-se apenas à acusação pública de Greenwald contra seus colegas editores. Quanto a isso, está claro: Greenwald não foi censurado, praticou mau jornalismo e quer ser uma estrela acima de críticas.

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