Groenlândia e o neocolonialismo de Trump
Trump expõe o desprezo pelas regras do direito internacional e pela autodeterminação dos groenlandeses
Em recente entrevista ao jornal The New York Times, referindo-se ao seu desejo de conquistar a Groenlândia, Donald Trump declarou textualmente: “Ter a Groenlândia é psicologicamente necessário para o sucesso. Acho que a propriedade lhe dá algo que não se pode obter com um simples contrato de aluguel.”
Só essa frase já bastaria para se ver que, na ideologia trumpiana, não há diferença alguma entre soberania estatal em uma democracia e propriedade imobiliária. Mas, além disso, na mesma entrevista Trump afirma que seu poder como comandante-chefe do exército mais poderoso do mundo é limitado “apenas pela minha moralidade”. Ou seja: se ele olha no mapa e vê uma imensa extensão de terra pertencente a um país pequeno e periférico como a Dinamarca, nada poderia impedi-lo de tomá-la.
Desde que tomou posse o ano passado, e desde os primeiros dias de governo manifestou o seu desejo de invadir e se apoderar da grande ilha ártica, a pergunta permanece fazendo o giro do mundo: Por que Donald Trump quer tanto a Groenlândia? Razões imprescindíveis de segurança nacional, respondem de Washington, para monitorar as rotas árticas percorridas por russos e chineses. No entanto, desde 1951 existe um acordo entre Dinamarca e Estados Unidos que concede a estes últimos acesso praticamente ilimitado à ilha. Na época da Guerra Fria, os americanos administravam várias bases ali; agora resta apenas uma, a Pituffik Space Base, mas, explicam os especialistas, o tratado permite aos EUA reabrir quantas bases quiserem, mediante consulta prévia com o governo de Copenhague e com o governo regional groenlandês - que, pelo clima atual, certamente não fariam grandes objeções.
Também em relação às supostas riquezas minerais escondidas sob o gelo, a estratégia poderia ser menos agressiva: bastaria concluir acordos pacíficos de exploração econômica em parceria com um governo aliado, em vez de tentar se apossar do território à força, desmantelando ao mesmo tempo a Nato e a ordem mundial.
A verdade é que Trump não estava apenas fazendo uma provocação retórica ao falar de “propriedade” da Groenlândia. Sua frase revela a essência de uma mentalidade imperial que transforma geopolítica em negócio imobiliário e soberania em mercadoria. Para ele, povos, territórios e alianças valem menos do que o ato simbólico de fincar a bandeira e registrar escritura em cartório. Quando diz que “um aluguel não basta”, Trump expõe o desprezo pelas regras do direito internacional e pela autodeterminação dos groenlandeses - e reafirma a lógica predatória segundo a qual potências não negociam: tomam. No fundo, sua obsessão pela Groenlândia é menos estratégia militar e mais encenação de poder bruto, típica de líderes que confundem Estado com empresa e mundo com tabuleiro pessoal. Portanto, um caso evidente de pura megalomania narcísica e vaidade.
Sua frase expõe, quase sem filtros, a engrenagem mental de um projeto de poder que trata o planeta como portfólio de ativos e os povos como peças descartáveis de um grande tabuleiro empresarial. Na cabeça do ex-presidente americano, geopolítica se confunde com especulação imobiliária: território não é espaço de vida, cultura e soberania, mas patrimônio a ser adquirido, valorizado e exibido como troféu.
Quando ele diz que “um aluguel não basta”, não está discutindo apenas bases militares ou rotas do Ártico - está reafirmando uma lógica colonial que o Ocidente dizia ter superado. Para Trump, acordos multilaterais, tratados internacionais e consultas democráticas são meros obstáculos burocráticos à vontade do império. O que importa é a posse formal, o carimbo de domínio, o gesto de apropriação que transforma natureza e nações em extensão do poder americano.
Há aí também um traço profundamente autoritário: ao reduzir soberania a propriedade, Trump elimina simbolicamente o direito dos groenlandeses de decidir seu próprio destino e rebaixa a Dinamarca à condição de administradora provisória de um território que, em sua fantasia, já pertence aos Estados Unidos. Trata-se de uma visão de mundo que naturaliza a assimetria entre países grandes e pequenos, ricos e pobres, centrais e periféricos.
Mais do que estratégia militar, a obsessão com a Groenlândia revela um desejo de espetáculo político. Trump não busca apenas controle geoestratégico; ele busca um gesto histórico grandioso que possa inscrever seu nome ao lado de aquisições imperiais do passado - como se o século 21 ainda admitisse compras de territórios como no século 19. É a teatralização do poder bruto em tempos de crise da ordem liberal.
No fundo, sua fala desnuda o espírito de um capitalismo predatório levado ao extremo: tudo é negociável, tudo é comprável, tudo pode ser tomado - inclusive pedaços do mundo e o futuro de povos inteiros. E é justamente essa mentalidade que torna sua ambição pela Groenlândia menos uma questão de segurança e mais um sintoma perigoso de um projeto neocolonial travestido de pragmatismo.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



