Um novo mapa-múndi está se formando?
'O novo mapa do mundo passa pelo Brasil - ou passará por cima dele, a depender de como soubermos nos comportar nesse cenário de grandes mudanças'
Em termos de geopolítica, sim. Estamos de fato desenhando um “novo mapa-múndi”, não no sentido cartográfico clássico, mas na redistribuição real de poder, alianças, rotas econômicas e esferas de influência. O mundo não está apenas mudando: ele está se reorganizando estruturalmente.
Após o fim da Guerra Fria - lá pelos idos de 1901, com a dissolução da União Soviética, consolidou-se um mundo unipolar, com hegemonia dos Estados Unidos. Esse modelo está em crise: estamos rapidamente passando de um mundo unipolar a um mundo fragmentado. Hoje, emerge um sistema multipolar, marcado por: disputa entre grandes potências (EUA, China, Rússia), autonomia estratégica de potências regionais, enfraquecimento das instituições multilaterais clássicas (ONU, OTAN, etc).
As guerras contemporâneas redesenham fronteiras invisíveis. Conflitos armados e tensões prolongadas não apenas deslocam fronteiras físicas, mas reorganizam alianças globais: a guerra na Ucrânia reposiciona a Rússia frente ao Ocidente; o Oriente Médio permanece como epicentro de instabilidade sistêmica; a Ásia-Pacífico torna-se o novo centro da disputa estratégica global.
Esses conflitos criam zonas de influência, corredores militares, sanções econômicas e dependências energéticas - um novo mapa, ainda que invisível no papel.
Nesse novo modelo geopolítico do mundo, um dos destaques mais notáveis é a ascensão da Ásia e do Sul Global. A China deixa de ser apenas “fábrica do mundo” e passa a atuar como: potência tecnológica, financiadora de infraestrutura, alternativa diplomática ao modelo ocidental.
Ao mesmo tempo, blocos como o BRICS ganham peso, questionando: a centralidade do dólar, o poder do FMI e do Banco Mundial, a hierarquia política herdada do pós-1945.
O novo mapa-múndi é econômico, energético e digital. Hoje, o poder se expressa em infraestruturas, não apenas em territórios: rotas de energia (gás, petróleo, minerais críticos), cadeias globais de suprimentos, cabos submarinos, satélites e dados, controle de semicondutores e inteligência artificial. Quem controla essas redes desenha o novo mapa do mundo.
A União Europeia, por seu lado, está em plena crise de redefinição e vive um dilema estratégico: dependência energética, pressão migratória e alinhamento militar com a OTAN, ao mesmo tempo em que perde protagonismo econômico relativo.
A conclusão a que se pode chegar, quando se observa o atual momento histórico, é que o mapa do mundo está realmente sendo redesenhado - mas ainda não terminou. Não existe ainda um “novo mapa-múndi” acabado. O que existe é um mapa em disputa, fluido, instável, fragmentado. As linhas não são traçadas apenas por exércitos, mas por: sanções, tecnologia, finanças, narrativas e informação.
Estamos vivendo a transição histórica entre um mundo que deixou de existir e outro que ainda não se consolidou. E, como em toda transição, o risco maior é acreditar que as velhas regras continuam valendo.
O novo mapa do mundo passa pelo Brasil - ou passará por cima dele, a depender de como soubermos nos comportar nesse cenário de grandes mudanças, pois o mundo está sendo redesenhado sem pedir licença. O antigo mapa-múndi, organizado sob a hegemonia do Ocidente após a Segunda Guerra, está ruindo. Em seu lugar, surge um sistema multipolar, instável e conflituoso, no qual poder não se mede apenas por tanques de guerra, bombas e territórios, mas, muito mais, por energia, tecnologia, finanças, dados e capacidade de articulação política.
Nesse novo tabuleiro, a América Latina - e especialmente o Brasil, dado o seu tamanho e potencial de riquezas - deixou de ser periférica para se tornar estratégica. A questão central é brutal e insisto: seremos sujeitos do novo mapa ou apenas um espaço explorado por ele?
Na dúvida, convém considerar, em primeiro lugar, que essa nova equação de forças mundiais representa o fim da de qualquer neutralidade confortável. Durante décadas, a região se acostumou a uma posição ambígua: exportadora de commodities, politicamente fragmentada e dependente do eixo liderado pelos Estados Unidos. Esse arranjo garantiu estabilidade relativa, mas cobrou um preço alto: baixo desenvolvimento tecnológico, dependência externa e vulnerabilidade crônica. Hoje, essa “neutralidade” já não existe. O mundo se organiza em blocos, e quem não escolhe posição acaba sendo escolhido.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



