China amplia influência enquanto EUA perdem prestígio global, diz pesquisa
Levantamento do Conselho Europeu de Relações Exteriores aponta percepção de ordem global menos centrada em Washington
247 - Quase um ano após a eleição de Donald Trump para seu segundo mandato como presidente dos Estados Unidos, a percepção global sobre a liderança estadunidense aponta para uma perda de influência de Washington e para o fortalecimento da China no cenário internacional.
De acordo com o jornal O Globo, uma pesquisa divulgada nesta quinta-feira (15) pelo Conselho Europeu de Relações Exteriores, a opinião pública em diversos países avalia que a influência chinesa tende a crescer na próxima década, enquanto os Estados Unidos são vistos como uma potência com capacidade reduzida de liderança global.
Expectativa de crescimento da influência chinesa
O levantamento foi realizado em novembro de 2025, um ano após a vitória de Trump, e ouviu 25.949 pessoas em 21 países. A pesquisa incluiu 15 países europeus e seis fora da Europa, entre eles Brasil, China, Estados Unidos, Índia, África do Sul e Coreia do Sul.
De acordo com os dados, em todos os países analisados há a expectativa de aumento da influência internacional da China. Mesmo no Reino Unido, onde o ceticismo seria maior, ao menos metade dos entrevistados acredita nesse avanço. Apenas na Ucrânia e na Coreia do Sul a maioria da população enxerga a China como rival ou adversária.
Visão positiva nos países do BRICS
Entre os países do BRICS, a percepção positiva em relação a Pequim é majoritária. No Brasil, 73% veem a China como aliada ou parceira necessária. Na África do Sul, esse índice chega a 85%, e na Rússia, a 86%. Na Índia, 47% compartilham dessa avaliação.
O estudo também indica que, em quase todos os países pesquisados, a maioria acredita que as relações nacionais com a China devem se fortalecer ou permanecer estáveis. A exceção é a Ucrânia, onde há frustração com a posição chinesa diante da guerra com a Rússia e com a manutenção de relações comerciais entre Pequim e Moscou.
Declínio da influência dos EUA
Em relação aos Estados Unidos, apenas uma minoria dos entrevistados acredita que o país aumentará sua influência global. Na China, Rússia, Ucrânia e nos próprios EUA, cerca de um quarto dos participantes avalia que o poder estadunidense tende a diminuir nos próximos anos.
Segundo Pawel Zerka, analista sênior do ECFR, essa percepção entre os estadunidenses está associada tanto a eleitores democratas quanto a setores republicanos. Para ele, parte da população entende que a influência global dos EUA depende da manutenção de alianças e do fortalecimento de instituições internacionais. Zerka afirmou que Trump estaria promovendo a marginalização desses espaços multilaterais, o que contribui para a percepção de enfraquecimento do país.
Ainda assim, muitos entrevistados consideram que os Estados Unidos seguirão como uma potência relevante, embora inseridos em uma nova configuração global, descrita pelos autores da pesquisa como um mundo pós-ocidental, com múltiplos centros de poder.
Redução da afinidade europeia com os EUA
O levantamento aponta também uma redução da afinidade com os EUA, especialmente na Europa. Apenas 16% dos europeus veem atualmente os Estados Unidos como aliados, índice inferior ao registrado no fim de 2024. Além disso, 23% avaliam que as relações de seus países com Washington devem enfraquecer nos próximos cinco anos.
A pesquisa indica que a opinião pública global já não percebe a ordem internacional como uma disputa bipolar. O cenário predominante é o de múltiplas potências, com Estados Unidos e China ocupando posições centrais, mas com maior margem de manobra para outros países.
Opção pela China
No Brasil, África do Sul, Turquia e Rússia, a maioria considera possível manter boas relações simultaneamente com Washington e Pequim. Quando questionados sobre uma eventual escolha forçada entre os dois, muitos entrevistados afirmaram que optariam pela China.
O estudo também registra queda nas avaliações positivas sobre Trump. Em diversos países, menos pessoas acreditam que o presidente estadunidense seja benéfico para os próprios EUA, para outras nações ou para a paz mundial, consolidando um cenário de maior rejeição internacional.
Em relação à Europa, os dados mostram mudanças significativas na percepção externa. Países como China e Brasil passaram a enxergar mais diferenças entre as políticas europeia e estadunidense. Já na Ucrânia, cresceu a confiança na União Europeia como parceira de segurança, enquanto diminuiu a expectativa em relação aos Estados Unidos.


