“Trump está tirando os Estados Unidos da condição de democracia liberal”, afirma Fernando Horta
Historiador analisa avanço de práticas antiliberais, critica seletividade da mídia e alerta para riscos globais associados ao governo dos EUA
247 - O historiador Fernando Horta afirmou que “Donald Trump está tirando os Estados Unidos da condição de democracia liberal”, ao analisar mudanças profundas na política interna e externa norte-americana e seus impactos globais. A avaliação foi feita durante entrevista ao programa Brasil Agora, da TV 247, em um debate que abordou crise do liberalismo, desigualdade social, política econômica e tensões internacionais.
A participação de Horta no programa Brasil Agora teve como ponto de partida a análise histórica do esgotamento do liberalismo econômico, especialmente após as crises financeiras de 2008 e 2010. Segundo ele, esses episódios deixaram evidente a incapacidade do modelo liberal de responder a problemas centrais do mundo contemporâneo, como a desigualdade social, a exclusão das populações mais jovens e a crise climática.
Ao longo da conversa, o historiador afirmou que o mercado falhou em oferecer soluções estruturais para essas questões. “O liberalismo não consegue resolver os grandes problemas do mundo”, disse, acrescentando que a pandemia de covid-19 expôs de forma ainda mais clara os limites do modelo econômico dominante. Para Horta, a reação das elites liberais tem sido rotular como “ditadura” qualquer regime ou política que não se encaixe nesse padrão.
Nesse contexto, ele avaliou que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, simboliza uma virada histórica. “Donald Trump significa a transformação dos Estados Unidos num país não liberal”, afirmou. Segundo Horta, essa mudança não se expressa apenas na política externa, mas também em decisões internas que rompem com dogmas tradicionais do liberalismo econômico.
Como exemplo, o historiador cita uma proposta recente do presidente dos Estados Unidos de limitar os juros dos cartões de crédito a 10%. “Se o Lula diz um troço desse aqui no Brasil, amanhã o Jornal Nacional estaria gritando ‘ditador’”, comparou. Para Horta, a reação seria completamente diferente porque, no caso norte-americano, a medida foi anunciada por Trump, sem provocar o mesmo tipo de alarme midiático.
O historiador também mencionou a política tarifária do presidente dos Estados Unidos, destacando que ações semelhantes, quando adotadas no Brasil para proteger a indústria nacional, costumam ser duramente criticadas. “Algumas coisas a gente tem que colocar em perspectiva”, observou, ao afirmar que Trump promove internamente transformações antiliberais enquanto é tratado de forma distinta por setores da imprensa internacional.
Na avaliação de Horta, há uma disputa interna nos Estados Unidos sobre os limites desse processo. “As elites norte-americanas até aceitam que o país seja uma autocracia, que o Trump mande e desmande”, afirmou. Segundo ele, o ponto de resistência ocorre quando medidas ameaçam o sistema financeiro e o controle sobre a distribuição de riquezas, especialmente qualquer tentativa de interferência no Federal Reserve.
O historiador afirmou ainda que Trump busca um acordo tácito com essas elites. “Eu vou reorganizar as coisas, mas vou abrir oportunidades para vocês seguirem ganhando dinheiro”, resumiu, ao descrever a lógica que, segundo ele, orienta a política externa norte-americana, incluindo pressões sobre países como Venezuela e Irã, sempre associadas a interesses econômicos e energéticos.
Ao traçar paralelos históricos, Horta fez um alerta contundente. “Isso já aconteceu antes, no período entre guerras, com o nazismo e o fascismo italiano”, afirmou, ao sustentar que o presidente dos Estados Unidos reproduz passos já vistos em processos autoritários do século 20, marcados por reorganização econômica, fortalecimento do poder central e avanço militar.
O historiador também comentou uma entrevista recente da professora Mariana Cali, da Escola Superior de Guerra, para ilustrar o cenário internacional. “O mundo é uma jaula e nós estamos presos com um tigre, que são os Estados Unidos com armas nucleares”, disse, citando a metáfora usada por ela para descrever a assimetria de poder global. Segundo Horta, diante desse quadro, a capacidade de reação dos demais países é extremamente limitada.
Na parte final da entrevista, Horta alertou para o risco de uma escalada ainda maior das tensões, especialmente envolvendo a China. Ele afirmou que ações do presidente dos Estados Unidos contra Venezuela, Irã e até a Groenlândia fazem parte de um cerco estratégico mais amplo. “O Trump está pedindo uma guerra há bastante tempo e está quase conseguindo”, concluiu, ao afirmar que um conflito dessa magnitude seria devastador para o planeta.


