Diplomacia brasileira vê no BRICS freio à agenda expansionista de Trump
Avaliação é que bloco pode funcionar como contrapeso político e econômico às pressões do governo Donald Trump sobre países emergentes
247 - Diante da possibilidade de intensificação da política externa expansionista dos Estados Unidos, o governo brasileiro tem concentrado esforços no fortalecimento do BRICS como um dos principais eixos de sua estratégia internacional. A avaliação interna é que o bloco de grandes economias emergentes pode atuar como fator de equilíbrio diante de pressões unilaterais e de um ambiente global cada vez mais instável. Segundo o jornal O Globo, diplomatas brasileiros avaliam que o BRICS reúne condições políticas e econômicas para funcionar como contrapeso à agenda do presidente dos EUA, Donald Trump, sobretudo em um cenário de maior pressão sobre países emergentes.
BRICS como instrumento de equilíbrio geopolítico
O governo brasileiro reconhece que a aposta no BRICS envolve riscos. Donald Trump já demonstrou reiteradamente contrariedade em relação ao bloco, visto por ele como um agrupamento que desafia a primazia dos Estados Unidos no sistema internacional, inclusive no campo financeiro. Um dos pontos de maior atrito é a defesa, feita pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e por outros líderes do grupo, de mecanismos que reduzam a dependência do dólar no comércio internacional.
Apesar das diferenças regionais e estratégicas entre os países-membros, a diplomacia brasileira sustenta que o principal elo do BRICS é o esforço para preservar algum grau de estabilidade no sistema internacional. Atualmente, o grupo é composto por Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã.
Riscos calculados diante da reação americana
No entendimento do Itamaraty, o fortalecimento do BRICS não deve ser interpretado como um movimento de confronto direto com Washington, mas como uma tentativa de recompor espaços de coordenação internacional em um cenário marcado pela fragmentação da governança global. Ainda assim, há o reconhecimento de que a estratégia pode gerar custos, especialmente se a hostilidade de Trump ao bloco se traduzir em medidas concretas de pressão política ou comercial.
O governo avalia que a diversificação de parcerias e o adensamento de coalizões entre países do Sul Global reduzem a vulnerabilidade a choques externos e ampliam a margem de manobra diplomática do Brasil.
Governança global e defesa do multilateralismo
Com o agravamento das tensões geopolíticas e o enfraquecimento de fóruns multilaterais tradicionais, auxiliares do presidente Lula avaliam que o BRICS passou a exercer o papel de fiador mínimo da previsibilidade internacional. A leitura é que o grupo se tornou um dos poucos espaços capazes de sustentar algum nível de coordenação em meio à reedição de rivalidades ideológicas.
Segundo integrantes do governo, a agenda recente do BRICS tem sido construída em torno da defesa de organismos como a ONU, a Organização Mundial do Comércio e a Organização Mundial da Saúde, além da manutenção de compromissos ambientais, em contraste com a lógica de áreas de influência adotada pela política externa americana.
Tensões no G20 e impacto sobre países emergentes
A percepção no Palácio do Planalto é que a atual política do governo Donald Trump não se dirige de forma homogênea ao conjunto do BRICS. A China é tratada como o principal desafio geopolítico de Washington, enquanto a Rússia teria reagido de forma moderada à nova Estratégia de Segurança Nacional da Casa Branca.
A África do Sul, por sua vez, é vista como um caso específico. A ausência dos Estados Unidos na última reunião do G20 realizada no país africano, no fim do ano passado, e a tentativa de excluir Pretória do grupo geraram preocupação entre os demais membros, por abrir precedente para vetos políticos que podem comprometer o funcionamento do fórum.
Limites e possibilidades da coordenação entre membros
Nesse ambiente, o Brasil avalia que qualquer iniciativa do BRICS diante de crises internacionais depende da presidência rotativa do grupo, atualmente exercida pela Índia e, posteriormente, pela África do Sul. Após a última cúpula realizada no Brasil, em 2025, foi possível convocar reuniões extraordinárias diante de eventos como a guerra em Gaza, sempre com o aval da presidência de turno.


