Governo Lula monitora tensão na Venezuela após sequestro de Nicolás Maduro
Interferência dos EUA mantém cenário instável, mas autoridades venezuelanas seguem no comando, dizem interlocutores em Brasília
247 - Interlocutores do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva avaliam que a Venezuela permanece em um ambiente de forte tensão após o sequestro de Nicolás Maduro e a interferência dos Estados Unidos na soberania do país. As informações foram relatadas por fontes do Palácio do Planalto, que acompanham de perto a situação política e institucional venezuelana desde os últimos desdobramentos. O relato foi publicado nesta terça-feira (13) pelo jornal O Globo.
Segundo uma autoridade de Brasília, Lula manteve contato direto com a presidenta interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, em duas ocasiões recentes. A primeira conversa ocorreu no sábado (2), data do ataque realizado pelos Estados Unidos, e a segunda na segunda-feira seguinte (4), em um intervalo de poucos dias, com o objetivo de acompanhar o cenário e a condução das decisões no país vizinho.
De acordo com essa avaliação, o governo venezuelano vive um momento de divisão interna. De um lado, há uma ala considerada mais pragmática, associada à presidenta interina Delcy Rodríguez e composta também por quadros técnicos da administração pública. De outro, permanece um setor visto como mais rígido, ligado a figuras históricas do chavismo, como o ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, e o dirigente político Diosdado Cabello.
Apesar de declarações do atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no sentido de que a Venezuela ficaria sob controle norte-americano por um período indefinido, interlocutores do governo brasileiro afirmam que as decisões do cotidiano seguem sendo tomadas por autoridades venezuelanas. Segundo essa leitura, a estrutura administrativa do país continua operando, mesmo sob forte pressão externa.
Entenda
No contexto mais amplo, o governo Trump justifica suas ações na América do Sul com o argumento de combate ao narcotráfico. Mas o sequestro de Nicolás Maduro se insere em uma estratégia de interferência mais ampla dos Estados Unidos na Venezuela, associada ao interesse nas reservas de petróleo do país. A Venezuela ocupa a primeira posição no ranking global de reservas, com cerca de 303 bilhões de barris, o equivalente a aproximadamente 17% do total mundial.
Sob o pretexto de conter o tráfico de drogas com destino aos Estados Unidos, forças norte-americanas realizaram 35 ataques a embarcações no Caribe e no Pacífico, em áreas próximas ao continente sul-americano, resultando na morte de 123 pessoas. Esses episódios são citados por analistas como parte de uma escalada militar na região.
Outro fator apontado como motivador da atuação do governo Trump na América do Sul é o aprofundamento das relações do continente com a China, segunda maior potência global. Além disso, a cooperação entre países sul-americanos e o BRICS também é vista como elemento de preocupação para Washington.
O BRICS, grupo sediado em Xangai, é descrito como uma das principais frentes de contestação à hegemonia dos Estados Unidos na política internacional. De acordo com dados divulgados no site oficial do bloco, o BRICS responde por 39% do Produto Interno Bruto global, com base em números de 2023, reúne 48,5% da população mundial e abrange 36% do território do planeta.


