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Emir Sader

Colunista do 247, Emir Sader é um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros

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Guerra é guerra?

Confronto político se intensifica e estratégia de Lula aposta na mobilização popular e no embate direto com a direita

Jorge Messias e Presidente Lula (Foto: Ton Molina/Agência SenadoFabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil)

Prenunciando que os enfrentamentos políticos iam se aguçar, Lula anunciou que o “Lulinha, paz e amor” tinha terminado e que agora seria “guerra”.

O que significa isso? Que guerra é essa? A política já é “a continuidade da política em outros termos”, segundo Clausewitz.

A política nunca é a guerra. Só o é em outros termos. Em que termos?

A guerra é a arte da força. A política nunca se confunde com ela. Ela se faz com convencimento, com alianças, com manobras políticas, com isolamento do adversário.

Em que termos se encontra o enfrentamento político no Brasil, depois da derrota de hoje de Lula?

A direita se aproveitou do que resta da correlação de forças do Congresso. Sabe que Lula é favorito para se reeleger e trata de manter suas posições dentro do Congresso, buscando diminuir a capacidade de governar de Lula.

A força maior de Lula é seu apoio popular, seu discurso, que se tornará mais decisivo conforme comece a campanha eleitoral. Lula confia, com toda razão, no confronto entre não apenas seu discurso, mas as propostas que tem a fazer e as realizações do seu governo.

O seu adversário, por sua vez, não tem nenhuma herança a apresentar. Quando ele diz que vai dar continuidade à política econômica do seu pai, está dando um tiro no pé, porque seus resultados foram desastrosos para o país.

Lula tem a faca e o queijo na mão. Não será fácil, mas vai depender da sua habilidade e de uma política de comunicações adequada a essas circunstâncias. Além do uso da política de renegociação das dívidas, que pode ter um efeito concreto muito positivo, dado que, tendo visto elevado seu nível de vida, as pessoas se puseram a gastar e a se endividar. E a dívida termina, até pela manipulação da mídia, em um problema e não em uma forma de parcelar as compras.

A renegociação das dívidas pode ter, junto com uma boa política de comunicações, um papel decisivo em desarmar a armadilha que a mídia montou em torno do endividamento – desconhecendo como o poder aquisitivo das pessoas melhorou tanto.

Em suma, não é simples transformar uma derrota em vitória. O que é preciso é deslocar o centro do enfrentamento do Congresso para as eleições, para a luta de massas, para a criação de novos consensos democráticos e populares, dispondo do melhor comunicador do Brasil.

A guerra significa agudizar o discurso, desmascarar sistematicamente a imagem do filho de Bolsonaro, que não tem currículo, mas ficha corrente, dossiê policial, tal o envolvimento com corrupção que ele possui.

Entre a difusão das realizações do governo e o desmonte sistemático da imagem do candidato bolsonarista, aliado a uma política de massas, em que um PT renovado e dinâmico tem que ter um papel fundamental, essa guerra pode ser ganha.

Hoje, o seu objetivo é a reeleição de Lula, que é um fim resultante das propostas políticas do governo e da esquerda e da revelação do que a direita tem significado e poderia significar se voltasse a governar.

Essa é a guerra da política hoje.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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