Alexandre Machado Rosa avatar

Alexandre Machado Rosa

Alexandre Machado Rosa é professor do Instituto Federal de São Paulo (IFSP) e doutor em Saúde Coletiva.

15 artigos

HOME > blog

Guerra permanente: a engrenagem militar da hegemonia norte-americana no século XXI

A violência não surge como exceção, mas como mecanismo de reorganização do poder global

Militares dos Estados Unidos (Foto: Reuters/Bryan Woolston)

Ao recuperar o encontro realizado em Stuttgart, Alemanha, no 7º Congresso da Internacional Socialista, em 1907, não estamos fazendo arqueologia política. Naquele encontro, foi aprovada uma resolução que afirmava que as guerras modernas eram inseparáveis da dinâmica expansiva do capitalismo. Não se tratava de um conflito moral entre nações, mas de uma disputa estrutural por mercados, matérias-primas, rotas estratégicas e zonas de influência. Mais de um século depois, a questão permanece incômoda e atual, a guerra é um desvio do capitalismo ou parte constitutiva de sua engrenagem?

Se observarmos a militarização crescente do sistema internacional, o fortalecimento do complexo industrial-militar, a naturalização das guerras preventivas e o uso recorrente de sanções como instrumentos de coerção econômica, a resposta parece cada vez menos abstrata. A violência não surge como exceção, mas como mecanismo de reorganização do poder global. A retórica da segurança pública, do combate ao narcotráfico; da defesa da democracia ou do combate ao terror opera como moldura ideológica de disputas que, em sua base, envolvem hegemonia, recursos estratégicos e controle tecnológico.

A aliança entre Estados Unidos e Israel precisa ser lida dentro dessa arquitetura. Israel ocupa posição geopolítica central no Oriente Médio e consolidou-se como polo de desenvolvimento de tecnologias de segurança, vigilância e defesa. A retórica da segurança nacional legitima experimentações tecnológicas que depois se expandem para o mercado global. A militarização não é apenas resposta a ameaças; ela se converte em setor econômico estratégico.

Quando Washington invoca a “guerra preventiva”, seja contra o Iraque, sob a alegação de armas inexistentes, seja nas ameaças e sanções contra o Irã, o discurso da defesa antecipa e normaliza a intervenção. A mesma lógica foi utilizada historicamente na América Latina sob o pretexto de combater o comunismo ou proteger a democracia. Documentos já desclassificados revelam o papel desempenhado pelos EUA em golpes e desestabilizações ao longo do século XX, inclusive no Brasil.

Mais de um século depois de Stuttgart, o capitalismo mudou de forma, digitalizou-se, financeirizou-se, globalizou cadeias produtivas. Mas não abandonou sua necessidade de expansão. E enquanto a expansão seguir sendo imperativo estrutural, a sombra da guerra continuará projetada sobre a ordem internacional.

A crítica marxista clássica à “defesa nacional” em guerras imperialistas não era uma negação abstrata da soberania, mas uma denúncia da instrumentalização do nacionalismo para justificar disputas entre potências. Como apontavam os internacionalistas do início do século XX, os direitos das nações pequenas frequentemente servem de argumento retórico para conflitos que, na prática, atendem à lógica de expansão de grandes interesses econômicos.

Eduardo Galeano sintetizou essa dinâmica ao afirmar que, por trás das guerras comandadas pelo capital, está a pilhagem. A palavra é dura, mas remete a um fenômeno concreto: o controle de petróleo, minerais estratégicos, rotas comerciais, territórios e hoje também dados e infraestrutura digital. A disputa já não é apenas por terra e energia, mas por chips, inteligência artificial e hegemonia tecnológica.

A pergunta que se impõe ao Sul Global, e particularmente à América Latina, não é apenas como reagir às pressões externas, mas como construir alternativas reais de soberania econômica, integração regional e autonomia tecnológica. Sem isso, continuaremos orbitando uma arquitetura internacional na qual a força segue sendo linguagem legítima do poder.

Stuttgart não é passado distante. É alerta histórico. Se as guerras fazem parte da natureza de um sistema, como afirmavam os socialistas em 1907, então a paz duradoura não será fruto de discursos, mas de transformações estruturais profundas. Essa é a encruzilhada do nosso tempo.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

Artigos Relacionados