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Joaquim de Carvalho

Colunista do 247, foi subeditor de Veja e repórter do Jornal Nacional, entre outros veículos. Ganhou os prêmios Esso (equipe, 1992), Vladimir Herzog e Jornalismo Social (revista Imprensa). E-mail: joaquim@brasil247.com.br

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Heloísa de Carvalho e a luta contra os dragões da maldade: filha do Olavo foi uma grande mulher

Ao contrário do pai, que foi de esquerda e depois se transformou em ideólogo da extrema direita, nunca mudou de lado e enfrentava a perseguição de bolsonaristas

Olavo de Carvalho e Heloisa de Carvalho (Foto: Reprodução)

Desde a manhã de quinta-feira, 8 de janeiro, tenho recebido mensagens sobre a morte de Heloísa de Carvalho. Ela foi minha fonte em diversas reportagens sobre Olavo de Carvalho, seu pai, e sobre eventos ligados à extrema direita, como a prisão de Fabrício Queiroz. Confesso que resisti a escrever sobre sua morte, em razão da provável causa — o suicídio. Mas a imagem de Heloísa não saiu de minha mente. Não como perturbação, e sim como o chamado da consciência e do dever moral de escrever sobre alguém marcada pela integridade, pelo compromisso genuíno com a causa pública e por uma responsabilidade pessoal rara: cuidar do marido, doente e bem mais velho, até sua morte, ocorrida poucos meses atrás. Heloísa, que deixa um filho adulto, era uma grande mulher.

Segundo registro da polícia, na noite de quarta-feira, 7 de dezembro, um amigo, Marco Follmann, foi à casa de Heloísa, em Atibaia, a cerca de 50 quilômetros de São Paulo, onde mora. Ao notar que as cachorras estavam muito agitadas, decidiu entrar. Encontrou a amiga deitada de barriga para baixo (decúbito ventral), com cartelas de remédio ao lado da cama. Na cozinha, havia uma lata de cerveja aberta e garrafas de bebida, também abertas. Ele acionou o Samu, que constatou o óbito. Heloísa foi sepultada no cemitério São Sebastião, em Atibaia, cidade onde viveu por aproximadamente trinta anos. O boletim de ocorrência registra ainda que, no dia anterior, ela havia dado entrada em uma Unidade de Pronto Atendimento do município, por tentativa de suicídio.

Ao tomar conhecimento dos detalhes da tragédia, lembrei-me do primeiro contato que tive com Heloísa, em uma reunião virtual, já durante a pandemia. Na ocasião, ela me apresentou documentos que apontavam a ligação de irmãos — também filhos de Olavo de Carvalho — com uma distribuidora de combustíveis pertencente à família do empreiteiro Cecílio do Rêgo Almeida (já falecido), no estado do Paraná. Desconfiado de suas motivações, questionei por que havia decidido expor a própria família. Foi então que ela falou de sua formação política à esquerda, semelhante à do pai nos anos 1960, quando ele chegou a ser filiado ao PCB e depois militou no movimento da contracultura.

Ao contrário de Olavo, que se tornaria ideólogo da extrema direita, Heloísa nunca mudou de posição e passou a denunciar o que considerava contradições, mentiras e supostos crimes do pai. A ruptura, porém, não se deu apenas por divergência política. Havia mágoas profundas, que remontavam à infância. Olavo, a quem ela sempre se referia pelo primeiro nome, projetava nas redes sociais a imagem de homem corajoso e defensor do armamento. Um episódio ocorrido quando Heloísa tinha cerca de oito anos, no entanto, marcou para ela o oposto.

Na ocasião, Olavo saiu de casa com a esposa, e deixou os filhos sozinhos. Ao retornar, percebeu que a casa havia sido arrombada, mas, em vez de entrar para verificar se as crianças estavam bem, chamou a polícia e permaneceu do lado de fora. Os filhos seguiram trancados em um quarto, depois de os ladrões terem levado tudo. “Aquele dia conheci meu pai. Se fosse responsável, teria entrado imediatamente para ver se os filhos estavam bem”, relatou.

Foi já perto dos cinquenta anos que Heloísa expôs publicamente Olavo pela primeira vez, em uma carta aberta publicada no Facebook, em 2017, antes da eleição de Jair Bolsonaro, quando ele já era um influenciador consolidado da extrema direita.

“Onde estava o pai da ‘família margarina’ que, quando soube que eu tinha sido abusada sexualmente, não fez absolutamente nada e que, há uns quatro meses, ainda me culpou pelo abuso? Acho que você esqueceu de que eu só tinha 9 anos”, escreveu.

Em outro trecho, acrescentou: “Tudo o que escrevi é um recado para você: muda enquanto dá tempo para você se transformar em um ser humano decente. E não diga que eu me uni ao diabo. Isso sempre foi um direito só seu. Eu não preciso me unir a ninguém para falar sobre você. E pode ter certeza de que lembro de muito mais coisas”.

Olavo não mudou. Com Bolsonaro na Presidência, chegou a indicar ministros e acompanhá-lo em visita à Casa Branca, no primeiro mandato de Donald Trump. Sua trajetória foi interrompida pela morte, que Heloísa atribuía a complicações da Covid — doença cuja gravidade ele negava, o que, segundo ela, contribuiu para dificultar o enfrentamento da pandemia no Brasil.

Após a carta aberta, Heloísa intensificou as denúncias contra o pai. Foi processada e passou a receber ameaças de seguidores de Olavo e, posteriormente, de Bolsonaro. Não recuou. Foi ela quem indicou o local onde Fabrício Queiroz, apontado como operador do esquema de rachadinha envolvendo Flávio e Jair Bolsonaro, estava escondido: o escritório do advogado Frederico Wassef, em Atibaia.

Quando a polícia prendeu Queiroz, Heloísa esteve em frente ao escritório com um amigo, espremendo laranjas e bebendo diante das câmeras. “Eu faço um monte de investigação paralela. Passo para os jornalistas, e um ou outro segue as dicas e acaba descobrindo um monte de coisa”, afirmou, com a taça na mão.

Heloísa de Carvalho foi quem localizou o esconderijo de Fabrício Queiroz
Heloísa de Carvalho foi quem localizou o esconderijo de Fabrício Queiroz(Photo: Reprodução)Reprodução


A última vez que falei com Heloísa foi em Brasília, em maio de 2024, no café de um shopping, depois de ela sair da Polícia Federal acompanhada da advogada Talitha Camargo. Na ocasião, havia denunciado um irmão por manter uma seita que teria sido criada por Olavo de Carvalho, responsável por aliciar mulheres e divulgar pornografia infantil.

Vivendo em dificuldades financeiras, Heloísa havia perdido dentes e, por isso, usava máscara, mesmo após o fim da pandemia, para esconder as falhas na dentição. Estava animada, porém, com a promessa de um dentista amigo de realizar implantes gratuitos.

É difícil compreender o gesto extremo do dia 7.

Um amigo relata que uma vizinha, aparentemente alinhada à extrema direita, costumava provocá-la com músicas em volume alto e xingamentos. Heloísa chegou a procurar um escritório de advocacia com a intenção de processá-la. Não houve tempo.

Para a advogada Talitha Camargo, que esteve em seu sepultamento, Heloísa pode ter ingerido medicamentos em excesso na tentativa de dormir, de descansar das lutas constantes. Tenha sido essa ou não a motivação, o fato é que Heloísa fará falta.

O escritório de advocacia a homenageou em uma postagem nas redes sociais. “Reconhecemos e respeitamos a trajetória de Heloísa, uma mulher que, à sua maneira, viveu em um contexto de intensos debates e que, como muitas brasileiras, esteve inserida nas complexas lutas pelos direitos das mulheres e pela democracia em nosso país”, afirmou.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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