Implosão de Flávio Bolsonaro confirma a estratégia acertada de Galípolo sobre o Master
A liquidação do banco Master deixou a rede de proteção de Daniel Vorcaro descoberta, como mostra o áudio de Flávio Bolsonaro
A revelação de que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) negociou diretamente com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, um financiamento de 24 milhões de dólares supostamente para a produção do filme biográfico sobre Jair Bolsonaro não deixa qualquer sombra de dúvida da ligação íntima de Vorcaro com o clã Bolsonaro. É uma bomba política de grandes proporções para a pré-candidatura presidencial de Flávio.
Fica claro, a partir de que já conhecemos pela operação Compliance Zero, que Daniel Vorcaro financiou os interesses não apenas do clã Bolsonaro e seu entorno, mas dos principais nomes do centrão. A extensão da rede de proteção política do bolsonarismo/centrão financiada por Daniel Vorcaro ainda está sendo dimensionada. Mas grandes líderes da direita como Ciro Nogueira, ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro, Antonio Rueda, presidente União Brasil, Davi Alcolumbre, presidente do Senado, Ibaneis Rocha, ex-governador do Distrito Federal, ex-presidente Michel Temer, ACM Neto e outros mostram a extensão das ligações de Vorcaro.
O desespero de Flávio de Bolsonaro pedindo a Vorcaro o retorno dos pagamentos evidencia também um fato definidor de águas: a atuação do Banco Central sob a gestão de Gabriel Galípolo foi correta. E mais: foi extremamente eficiente para interromper o fluxo desta verdadeira rede multimilionária de financiamentos políticos que foi o banco Master e seu ex-controlador.
Banco Central entrou em ação após a chegada de Galípolo
Senão, vejamos: a primeira mensagem enviada por Flávio Bolsonaro para Daniel Vorcaro que conhecemos é do dia 15 de novembro de 2025. No dia seguinte, ele diz: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”
Àquela altura, o Banco Central já estava na cola de Daniel Vorcaro de maneira progressiva, fato que inexistiu durante a gestão de Roberto Campos Neto. Vamos relembrar a trajetória: ao longo de 2025, o Banco Central escalou gradualmente as medidas de supervisão sobre o Banco Master até a intervenção definitiva no conglomerado. Assim que Galípolo assumiu a presidência, nos primeiros meses do ano, a autoridade monetária intensificou o monitoramento prudencial do Master, fez alertas formais sobre problemas de liquidez e exigências regulatórias, cobrou recomposição de capital e recusou pedidos do banco para flexibilização de compulsórios.
Em abril de 2025, o BC formalizou cobranças por meio de um Termo de Comparecimento, instrumento usado para exigir correções sem decretar ainda regime especial. Em 3 de setembro de 2025, o órgão indeferiu a tentativa de aquisição de participação no Banco Master pelo BRB, alegando problemas prudenciais e societários na operação. Nos meses seguintes, o BC aprofundou a fiscalização sobre o conglomerado e suas controladas, incluindo estruturas ligadas ao Will Bank e outras empresas do grupo. Em 15 de novembro de 2025, às vésperas da liquidação extrajudicial decretada dias depois, o Banco Central já avaliava que as medidas corretivas adotadas pela instituição eram insuficientes diante da deterioração financeira, das dificuldades de captação e das suspeitas envolvendo carteiras de crédito e operações internas do grupo.
Colapso do Master desmontou a engrenagem política de Vorcaro
Ou seja, a atuação do Banco Central foi gradual: começou com supervisão reforçada e medidas prudenciais preventivas, evoluiu para restrições e negativas regulatórias, e só depois culminou no bloqueio da operação com o BRB e, posteriormente, na liquidação extrajudicial do conglomerado.
A situação estava de fato desesperadora. E Flávio Bolsonaro, que é bem informado, acompanhou o enfraquecimento do Master. Ele suspeitava que algo pudesse acontecer. E de fato aconteceu: Três dias depois de cobrar retorno dos pagamentos a Daniel Vorcaro, no dia 18 de novembro de 2025, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Master.
E não parou por aí. Em 21 de janeiro de 2026, o BC decretou a liquidação Will Bank, que integrava o conglomerado Master, e no dia 27 de março, a autoridade monetária decretou a liquidação do Entrepay SA. A ligação entre Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, e a Entrepay passou a ser investigada de suspeitas de que a empresa de pagamentos integraria o ecossistema operacional e financeiro ligado ao grupo Master, tendo Vorcaro como “dono oculto” da instituição, utilizando estruturas da empresa para operações financeiras associadas ao conglomerado Master.
Ofensiva financeira do governo Lula contra o crime de colarinho branco
A sequência de decisões adotadas pelo Banco Central ao longo da gestão de Gabriel Galípolo no caso Banco Master pode ser interpretada como parte de uma estratégia do governo Lula de asfixia financeira de estruturas sob suspeita de conexão com redes de lavagem de dinheiro e crimes econômicos. Ao intensificar a supervisão prudencial, negar flexibilizações regulatórias, barrar a operação com o BRB e, posteriormente, avançar para regimes especiais e liquidações do Master e instituições ligadas a ele, o BC atuou para impedir que instituições fragilizadas continuassem operando e movimentando recursos no sistema financeiro. A postura converge com a linha defendida pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de reforço ao combate aos crimes de colarinho branco e ao crime organizado pela via patrimonial e financeira, ampliando o foco sobre mecanismos de lavagem, ocultação de patrimônio e uso de estruturas bancárias e de pagamentos para circulação de recursos suspeitos.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



