Índia e a nova centralidade asiática
Depois da China, o mundo caminha para uma nova inflexão estrutural?
Durante quase dois séculos, a história econômica moderna foi escrita a partir do eixo Atlântico. A ascensão da China, ao final do século XX, deslocou parte decisiva dessa gravidade para o Pacífico e encerrou, na prática, a ilusão de permanência incontestável do Ocidente como centro produtivo do sistema. Mas o movimento pode não ter se esgotado. A questão que começa a ganhar densidade estratégica é se estamos diante de um segundo deslocamento estrutural — desta vez protagonizado pela Índia.
Não se trata de especulação conjuntural. Trata-se de observar vetores de longa duração.
O precedente chinês e a lógica do deslocamento
A ascensão chinesa foi singular porque combinou planejamento estatal, industrialização acelerada e inserção competitiva nas cadeias globais de valor. Desde as reformas conduzidas por Deng Xiaoping, a China articulou Estado, mercado e estratégia externa de forma coordenada, convertendo escala demográfica em densidade produtiva. Em poucas décadas, tornou-se o maior parceiro comercial de mais de uma centena de países, consolidou-se como núcleo manufatureiro global e passou a disputar liderança tecnológica em setores estratégicos.
Esse deslocamento não foi apenas quantitativo; foi organizacional. A China industrializou antes de envelhecer e expandiu sua base produtiva em um momento de globalização intensiva. Hoje, mesmo sob tensões geopolíticas e tentativas de contenção, sua centralidade permanece estrutural. A economia mundial já não pode ser compreendida sem sua engrenagem chinesa.
Mas toda inflexão altera o equilíbrio sistêmico. Ao mesmo tempo em que a China consolida sua posição, empresas e Estados buscam diversificação produtiva. É nesse interstício que a Índia começa a adquirir novo protagonismo.
Índia: demografia, crescimento e o desafio da transformação
Ao ultrapassar a China em população, a Índia passou a deter o maior contingente demográfico do planeta — e, diferentemente da vizinha asiática, ainda vive seu auge de juventude populacional. Esse dado altera expectativas globais. Um país jovem significa força de trabalho abundante, potencial expansão do consumo e capacidade de absorver cadeias produtivas que procuram alternativas ao eixo chinês.
O desempenho recente confirma parte dessa promessa. A economia indiana tem registrado taxas robustas, frequentemente superiores a 6% ao ano. O país consolidou-se como polo global de serviços digitais, com Bangalore simbolizando sua inserção tecnológica. A indústria farmacêutica é competitiva, a infraestrutura vem sendo ampliada e a digitalização financeira expandiu a inclusão bancária.
Sob o governo de Narendra Modi, houve impulso à modernização administrativa e à construção de uma narrativa nacional-desenvolvimentista que combina identidade e crescimento.
Entretanto, o ponto decisivo permanece em aberto. A Índia ainda não realizou uma transformação manufatureira de escala comparável àquela promovida pela China nas últimas quatro décadas. A informalidade é elevada, a desigualdade regional é profunda e a produtividade industrial não atingiu a densidade necessária para redefinir o centro das cadeias globais. Crescimento não é sinônimo automático de transformação estrutural.
A diferença histórica é crucial. A China industrializou antes de envelhecer. A Índia precisa industrializar enquanto ainda é jovem.
A dimensão demográfica ajuda a compreender essa divergência estrutural. A China atravessou, durante décadas, a política do filho único, implementada no final dos anos 1970 como instrumento de controle populacional e aceleração da acumulação per capita. Essa estratégia contribuiu para reduzir a taxa de dependência e favorecer o aumento da renda média, mas produziu efeitos colaterais profundos: envelhecimento acelerado, contração da força de trabalho e pressão crescente sobre o sistema previdenciário.
A Índia percorreu trajetória distinta. Sem política demográfica restritiva de igual magnitude, manteve crescimento populacional mais elevado e chega ao século XXI com uma pirâmide etária significativamente mais jovem. O chamado bônus demográfico indiano — proporção elevada de população em idade ativa — constitui hoje um de seus principais ativos estruturais. Contudo, esse bônus é temporário. Ele se converte em vantagem econômica apenas se acompanhado de educação de qualidade, inserção produtiva e expansão industrial. Caso contrário, pode transformar-se em fonte de instabilidade.
Se converter seu dividendo demográfico em qualificação, tecnologia e expansão industrial, poderá sustentar trajetória ascendente de longo prazo. Caso contrário, o bônus demográfico poderá tornar-se pressão social.
Um sistema em transição: complementaridade, BRICS e novo polo
A emergência indiana não implica substituição automática da China. O cenário mais plausível não é sucessão linear, mas reconfiguração estrutural. A China permanece central na indústria global e avança na liderança tecnológica estratégica. A Índia pode representar outra modalidade de centralidade: mercado interno jovem, serviços digitais sofisticados, manufatura seletiva e diplomacia de equilíbrio.
Nesse contexto, a consolidação do BRICS assume relevância especial. Com China e Índia entre seus maiores participantes demográficos e econômicos, o bloco deixou de ser apenas símbolo do Sul Global para tornar-se espaço efetivo de articulação financeira e diplomática.
A ampliação recente do agrupamento e o fortalecimento de instrumentos como o Novo Banco de Desenvolvimento indicam que a redistribuição da gravidade econômica não ocorre apenas pelo mercado, mas também por meio da construção institucional paralela às estruturas dominadas pelo Atlântico Norte.
A Índia desempenha papel singular nesse arranjo. Diferentemente da China, cuja projeção é frequentemente percebida como estruturalmente transformadora, Nova Délhi construiu reputação de negociadora pragmática. Integra o BRICS, participa do grupo informal Quad (Diálogo Quadrilateral de Segurança) formado por Estados Unidos, Austrália, Índia e Japão; aprofunda relações com Washington e preserva vínculos históricos com Moscou. Essa capacidade de negociar em múltiplas frentes, sem alinhar-se rigidamente a um único polo, tornou-se parte central de seu capital geopolítico.
Em um sistema internacional progressivamente menos hegemônico e mais policêntrico, saber negociar pode ser tão estratégico quanto produzir. A Índia não apenas cresce; ela aprende a operar num ambiente de fragmentação regulada.
Se a ascensão chinesa marcou o momento decisivo em que o centro de gravidade do sistema deixou o Atlântico e se ancorou na Ásia, a possível consolidação indiana não inaugura um novo deslocamento geográfico, mas aprofunda e estabiliza essa transição. O eixo já mudou. O que está em disputa agora é a forma de sua organização interna.
A Ásia não é mais periferia produtiva nem simples fábrica do mundo. Tornou-se núcleo dinâmico de crescimento, tecnologia, demografia e inovação institucional. A China inaugurou essa virada ao transformar escala populacional em densidade industrial. A Índia poderá completá-la ao converter juventude demográfica em expansão produtiva e capacidade negociadora num sistema policêntrico.
Não estamos assistindo à substituição de uma hegemonia por outra, mas à consolidação de uma arquitetura pós-hegemônica cujo centro estrutural já não reside no Atlântico. Se a Índia cumprir seu potencial, o século XXI não apenas confirmará o deslocamento da gravidade econômica para a Ásia — reconhecerá, também, que essa nova centralidade é múltipla, negociada e estruturalmente mais complexa do que qualquer ordem anterior.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



