Luis Cosme Pinto avatar

Luis Cosme Pinto

Luis Cosme Pinto é carioca de Vila Isabel e vive em São Paulo. Tem 63 anos de idade e 37 de jornalismo. As crônicas que assina nascem em botecos e esquinas onde perambula em busca de histórias do dia a dia.

134 artigos

HOME > blog

Infiltrado

O celular podia ser apenas distração, parceiro para horas vagas, mas virou vício

Infiltrado (Foto: Luis Cosme Pinto)

Já estamos no segundo trimestre de 2026 e até agora Jordélio não leu nenhum livro. Logo ele, que montou minibiblioteca e tirou nota máxima na redação do Enem.

Jordélio tem e-mail, WhatsApp, Instagram, TikTok, Face, X… Ele vê um de cada vez e promete ao pé do ouvido de seus botões: “É rapidinho. Vou só ver os posts e mensagens”. Jordélio abre o celular, responde à primeira, segunda, terceira mensagem. Então, assiste a um vídeo, curte, comenta, compartilha, manda áudio. Vai ao banheiro e leva o celular, claro. Sentado, descobre que, enquanto respondia às mensagens, chegavam outras. Começa tudo de novo.

Uns mais, outros menos, somos todos Jordélio.

Dez e dez da manhã, estou no metrô. Treze passageiros no vagão, treze passageiros mergulhados em seus celulares. O adolescente, de braço imobilizado, usa a mão livre não para se segurar, mas para digitar. Quando o trem para, quase cai, esbarra em uma moça e segue digitando, sem pedir desculpas. Ela, com fones grandes e olhos a centímetros da tela, ignora o trompaço.

O celular podia ser apenas um companheiro nas horas vagas. Mas não, o celular é usado o tempo todo, o tempo todo. Não descansa. O recado do chefe, o Pix, o áudio do marceneiro, a foto da filha tão distante. Uma parte da vida está ali.

Alguns engolem o almoço ou tomam banho ouvindo uma série ou podcast. Muitos dirigem enquanto falam. Motoboys e ciclistas também voam enquanto digitam.

Ninguém me contou, eu vi. O motorista do ônibus em que viajei semana passada dirigia e digitava.

E os pilotos de avião, será que desligam seus telefones? Os cirurgiões? Os salva-vidas?

No cinema perdeu-se a vergonha. A pessoa digita, depois fecha, aí abre, escreve mais uma vez. Como se fosse normal. Não é normal. Incomoda. Ou será que é o filme que atrapalha? Semana passada, em uma sala cheia, um homem abriu seu celular e mandou uma mensagem. Outro homem ao lado dele fez o mesmo. “Ora, se ele pode, eu também posso”, deve ter pensado.

Eu, duas filas atrás, matutei: se o sujeito tem algo tão importante a decidir, por que vai ao cinema?

Porém, surgem movimentos sobre a importância de se conectar a outras fontes. Um grupo de leitura, chamado Páginas que Conectam, convida pessoas a se reunir em livrarias.

Depois de café e bolo, por conta da casa, os convidados se apresentam, conversam, se conhecem. Trocam livros, contam casos, riem. Em uma segunda etapa, as pessoas leem em silêncio. Durante vinte minutos, cada um se entrega à sua história. Concentração absoluta e nenhum celular ligado. Quem quiser, depois da leitura, comenta. A conversa ganha fôlego.

É gente com gente. É olho no olho.

Em alguns dos encontros, escritores e escritoras são convidados e apresentam suas obras aos leitores.

Na despedida, a deliciosa sensação de saber que não se perde nada ao deixar as redes sociais por algumas horas. E a pergunta: “Quando vai ser o próximo encontro?”.

Nem todos conseguem se afastar do celular. Nesse mesmo dia, um ator, vamos chamá-lo de Antônio, sobe ao palco de um teatro lotado em São Paulo. A peça é um monólogo, ou seja, o elenco inteiro é ele. Sobre aqueles ombros largos está a responsabilidade de toda a equipe, meses de trabalho, ensaios.

Antônio não pode errar. E ele não erra. Seguro, bem ensaiado, voz límpida, Antônio nos envolve em uma densa e tensa trama sobre a banalização da violência.

De repente, Antônio para de falar. É como se o personagem saísse de cena e o homem – a pessoa do ator – protestasse: “Ei, assim você me atrapalha. Por que você está falando no meio da peça? Aliás, acho que você não está escutando nada. Não está vendo nada!”. O alvo da reclamação é alguém com um celular ligado. O ator prossegue: “Acho que você devia falar lá fora”. A pessoa não sai, mas desliga o telefone.

O ator, o homem bonito, seguro e bem ensaiado, engole em seco e percebe que caiu em uma armadilha.

Ele passa as mãos nas coxas cobertas pela calça verde-oliva, o rosto brilha, a camisa marrom está molhada. Silêncio. É possível ouvir uma perna que balança na última fila.

Antônio abre o jogo: “Pô, como eu vou pedir para desligar o telefone e ainda lembrar do texto? Desculpem. Esqueci. E agora?”. Ele alcança um copo de água e, no segundo gole, ouvimos a miscelânea de vozes: “Você parou na hora em que a Rita se ajoelhou…”. “Você falou da unha roída…”. “A bandeja tinha caído”. Espectadores solidários e atentos salvam o espetáculo.

O ator agradece, bebe mais água e reassume o comando da história. Uma hora depois, se despede. É aplaudido de pé. Dezenas de celulares começam a ser novamente ligados.

Viva o teatro!

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.