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Carlos Carvalho

Doutor em Linguística Aplicada e professor na Universidade Estadual do Ceará - UECE.

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Intimidar professores ainda dá likes

Intimidação em escola de Fortaleza expõe ataques à educação antirracista e ao trabalho de professores da rede pública

Intimidar professores ainda dá likes (Foto: Reuters)
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Era uma segunda-feira. Às segundas-feiras, a maioria do povo brasileiro trabalha, e trabalha duro, pois nem todos recebem salários que beiram 26 mil reais. Há quem diga que seja esse o salário de um vereador em Fortaleza. O valor em questão, nem de longe, é imaginado pelos professores da rede pública, seja municipal ou estadual. Mesmo assim, os professores trabalham de sol a sol na tentativa de contribuir para melhorias da sociedade brasileira. Mas há um velho ditado que diz que “quando uns trabalham, outros atrapalham”.

Isso nos lembra que a mídia cearense noticiou que uma escola na periferia de Fortaleza, vizinha ao bairro onde nasceu o escritor José de Alencar, realizava uma atividade pedagógica afro-brasileira, a qual precisou ser interrompida devido a uma intervenção policial. Tudo aconteceu porque um famoso desconhecido, suplente de vereador (um doce para quem adivinhar o partido dele), achou que seria uma boa ideia “lacrar” em cima do trabalho dos professores e professoras, defendendo sua ida à escola para impedir uma suposta “doutrinação religiosa”. O abismo continua nos olhando.

É curioso, mas o parlamentar em questão demonstrou desconhecer que o ensino da História, da Cultura Afro-Brasileira e Indígena se constitui como parte integrante da política educacional brasileira, conforme estabelecido pelas leis 10.639/2003 e 11.645/2008. Contudo, saber as leis e fiscalizar para que elas sejam cumpridas não dá “likes” e não contribui para ninguém sair do anonimato ao qual está condenado. Ao contrário, ligar uma câmera, abusar de suas poderosas credenciais, chorar pitangas e destilar preconceito rende votos e seguidores zumbis.

Não é preciso dizer que a atividade interrompida tem como objetivo combater a intolerância, os estereótipos, os preconceitos e desconstruir as histórias únicas que insistem em minar a democracia brasileira. E, aqui, cabe uma pergunta: quanto tempo as professoras e professores da escola em questão se dedicaram à elaboração dessa atividade para vê-la estragada e inviabilizada pela ação irresponsável de um suplente de vereador que não sabe (e, se sabe, não dá a mínima) que trabalhos como esse encontram abrigo nas ações de implementação do selo Fortaleza Antirracista?

Ao tentar “lacrar”, desrespeitosamente, em cima do trabalho dos profissionais da educação municipal de Fortaleza, o suplente de vereador demonstra, ainda, ignorar os projetos da Prefeitura da sua própria cidade, que encampam iniciativas em prol da valorização da diversidade étnico-racial e de uma educação antirracista. E perguntamos: por qual razão propostas educativas de afirmação e inclusão incomodam tanto a um determinado tipo de político?

Não sei quantos “likes” o suplente de vereador ganhou. Sei, contudo, que a Secretaria Municipal de Educação repudiou o acontecido, classificando-o como “racismo e intolerância religiosa”, e afirmou que tomará as medidas jurídicas e institucionais cabíveis. A ação intimidatória que aterrorizou crianças, professoras e professores fez com que vereadoras de Fortaleza e o sindicato dos trabalhadores em educação acionassem o Ministério Público do Ceará. Quando a educação não é libertadora, sabemos, o sonho do oprimido é se tornar o opressor. Contudo, não há mais tempo ou espaço para opressores, mas para educações que sejam afirmativas, inclusivas e libertadoras. Que os professores e professoras atacados jamais se deixem intimidar e continuem na luta antirracista!

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.