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Paulo Gala

Paulo Gala é economista e professor da FGV

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IPCA-15 vem forte e reabre debate sobre o ritmo de corte de juros

A inflação de serviços no Brasil segue resiliente, refletindo mercado de trabalho ainda aquecido e dinâmica de custos mais inercial

Consumidores em supermercado no Rio de Janeiro - 06/05/2016 (Foto: REUTERS/Nacho Doce)

O IPCA-15 divulgado agora há pouco veio acima das expectativas do mercado. A mediana das projeções apontava algo entre 0,50% e 0,55%, mas o índice registrou alta de 0,84%, um número salgado. No acumulado do ano, o IPCA-15 já soma 1,04%, e em 12 meses está rodando em 4,10%. Em relação a janeiro, houve aceleração relevante — o índice havia sido 0,64%. Isso naturalmente complica um pouco o cenário inflacionário de curto prazo.

Fevereiro é, historicamente, um mês sazonalmente pressionado para a inflação. No ano passado, por exemplo, o IPCA-15 de fevereiro foi ainda mais alto, 1,23%. Há fatores típicos dessa época do ano: reajustes de mensalidades escolares, pressão em alimentos (especialmente hortifruti e granjeiros em função das chuvas), além de aumentos em transportes. Portanto, parte do movimento já era esperada.

O grupo Transportes teve alta de 0,72%, com destaque para passagens aéreas (+11,64%), além de pressões em etanol e gasolina. Educação subiu cerca de 5%, refletindo os reajustes sazonais das mensalidades escolares e cursos em geral. No caso dos alimentos, apesar das pressões típicas do período, o resultado não foi tão negativo quanto poderia ser: o tomate segue pressionado, com alta próxima de 10%, mas o arroz, por exemplo, apresentou queda. A bandeira verde na energia elétrica também ajudou a conter uma pressão maior.

O ponto mais estrutural continua sendo o núcleo de serviços, que permanece pressionado. A inflação de serviços no Brasil segue resiliente, refletindo mercado de trabalho ainda aquecido e dinâmica de custos mais inercial. Esse componente continua sendo um desafio importante para a convergência mais rápida da inflação.

Por outro lado, o IGP-M divulgado ontem trouxe um sinal diferente. Houve deflação de 0,73% em fevereiro, acumulando queda de 0,32% no ano e alta de 2,67% em 12 meses — uma desaceleração expressiva frente ao IPCA. O movimento foi puxado principalmente pelo IPA (atacado), dentro da estrutura do IGP (60% IPA, 30% IPC, 10% INCC). Commodities como minério de ferro (-7%), soja (-6%) e café (-9%) recuaram com força, muito em função do câmbio mais apreciado — dólar ao redor de R$ 5,10. Esse movimento no atacado tende a aliviar pressões futuras no consumidor.

Em síntese, temos um quadro misto: inflação de serviços ainda pressionada e IPCA-15 forte no curto prazo, mas atacado mais comportado e commodities em queda. Isso nos leva ao debate central: o tamanho do corte de juros em março.

Até recentemente, com dados de atividade mais fracos — especialmente em dezembro — o cenário parecia apontar para um corte de 0,50 p.p. Agora, com a surpresa altista do IPCA-15, volta a ganhar peso a possibilidade de um corte mais parcimonioso, de 0,25 p.p. Além disso, temos o componente eleitoral no horizonte, que pode gerar volatilidade cambial e influenciar as expectativas.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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