Janeleiros
Por isso eu vou na casa dela aí/ Falar do meu amor pra ela, vai/ Tá me esperando na janela aí, aí/ Não sei se vou me segurar (Gilberto Gil)
A frase é tão estimulante que já repeti muitas vezes, sempre informando o autor, é claro. Anunciou, mais ou menos assim, o cronista e jornalista Humberto Werneck: “Quem inventou o futebol foram os ingleses, mas o país do futebol é o Brasil; quem inventou a crônica foram os franceses, mas o país da crônica é o Brasil”.
Gol de letra marcou o Humberto. Foram mesmo duas gerações de ouro. Ali pela metade do século passado, o mundo reverenciava o futebol arte e as irresistíveis histórias dos nossos e das nossas cronistas.
Citar os nomes dos boleiros ou escribas é até injusto, porque podiam se formar seleções às dúzias.
Um dos titulares era Paulo Mendes Campos. O mineiro, morto em 1991, passou dia desses aqui por casa. Passou e ficou. Veio de presente. Embrulhado em papel cintilante, com laço de fita e dedicatória. O livro de crônicas se chama “Minhas Janelas”.
Foram muitas as janelas do Paulo. Nosso cronista, conhecido pela elegância dos textos, tratava a janela como parceira de trabalho. Abria e já pressentia assunto. Paulo conta no livro que enxergava ponta de mar, pedaço de montanha, um menino no telhado, um bêbado matinal. Viu briga, viu namoro, viu de tudo, só não viu a linda mulher nua, que tantos juraram ver. Acho eu que homem também não.
Na crônica das janelas, publicada originalmente na revista Manchete, Paulo se despede do apartamento em que viveu em Ipanema. Nunca mais veria a vida por aquela moldura.
Grandes ou pequenas, deslizantes ou emperradas, janelas todos temos e tivemos. Minha primeira, a única do quarto apertado, em Vila Isabel, não abria. Ordem de minha mãe. Ela temia que eu e meus irmãos, Pedro e Roberto, caíssemos do quarto andar. Sempre por trás do vidro, admirávamos, à direita, o progresso da Tijuca. Na rua ao lado, observávamos o povo a subir o morro dos Macacos e, mais pra frente, o Maracanã, iluminado e festeiro, espocando os fogos da vitória.
Pipas, aviões e balão de São João flutuavam diante da tal janela, sempre aberta às fantasias da infância.
Em Barra do Piraí, já adulto, só enxergava a monotonia do Fórum e a burocracia do trem de minério de ferro. Em uma noite sem estrela, contei 104 vagões. Curei a insônia.
Outras janelas se abriram, muitas se trancaram. Hoje, na Vila Buarque, minha janela não mostra sequer copa de paineira ou pé de jambo, tampouco lua ou nuvem de chuva. No centro de São Paulo, também não enxergo carros ou gente apressada. O que afinal revela minha janela sempre aberta? Ora, ora, outras janelas.
Por elas surgem frestas de vida. A cantora de ópera que ensaia depois do almoço, dois rapazes inquietos que já pintaram a sala de verde-limão e agora experimentam o roxo batata.
As duas moças podiam navegar pelo Caribe e abrir a escotilha, mas estão a poucos metros do Minhocão. Debruçadas na janela, fumam, cortam unhas, digitam. Chamo de janeleiras.
Tem janeleiro também, no andar de baixo. O homem atarracado acorda cedo para dar alpiste e limpar as gaiolas de seus passarinhos. Um cidadão que escancara o seu dia, enquanto engraxa sapatos e toma café.
Na folga dos janeleiros, me distraio com o colorido dos varais. Lá, bailam com o vento saias, meias, lençóis, toalhas. Reconheço: o que tenho é quase nada diante das janelas líricas de mestre Paulo.
Mas deixo pro final minha moldura preferida. A melhor janela da minha vida, a mais iluminada, nunca foi minha. Uma janela pintada de branco. A do apartamento 302 do edifício Andraus, em Copacabana. A janela da minha avó. A vovó Lili.
Primeiro ela ajeitava uma cadeira perto da janela. Aí me pegava no colo e me botava em cima da cadeira. Dali, esmiuçava a viela repleta de pequenas lojas. Eu via o tintureiro em sua bicicleta a equilibrar cabides. Diante dele, cruzavam a viúva enlutada e o agiota. Num banco de fórmica, o bicheiro de chapéu de palha e caneta atrás da orelha.
Na outra calçada, Demóstenes, que dava jeito em velhas geladeiras. Domingos, que consertava malas e sapatos. Dirce, que fazia bolos pra fora.
De cada um desses personagens cotidianos surgiam histórias. Divertidas, humanas, surpreendentes. As crônicas da Lili.
*Um beijo pra Paula, que me deu o livro do Paulo.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
