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Paulo Gala

Paulo Gala é economista e professor da FGV

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JOLTS sinaliza forte arrefecimento do mercado de trabalho nos EUA e reforça cenário de corte de juros

A conclusão do relatório JOLTS é clara: vivemos hoje o maior arrefecimento do mercado de trabalho desde a pandemia

Federal Reserve em Washington, D.C. (Foto: Ken Cedeno)

Foi divulgado nos EUA o relatório JOLTS, que traz um dos indicadores que o Federal Reserve mais acompanha para avaliar a temperatura do mercado de trabalho americano: a relação entre vagas abertas e número de desempregados.

Atualmente, os Estados Unidos têm cerca de 7,5 milhões de pessoas desempregadas e 6,5 milhões de vagas abertas. Isso resulta numa relação de 0,9 vaga por desempregado. Nas leituras anteriores, essa relação era próxima de 1 para 1 — ou seja, havia aproximadamente uma vaga aberta para cada trabalhador desempregado. Agora, esse número caiu abaixo de 1, o que significa que passamos a ter menos vagas disponíveis do que pessoas procurando emprego.

A última vez que esse indicador esteve nesse patamar foi em 2020, no auge da pandemia. Portanto, não é exagero dizer que, segundo essa métrica, estamos vivendo o pior momento do mercado de trabalho americano desde a crise da Covid-19. Para se ter uma ideia, no olho do furacão da pandemia essa relação chegou a 0,3, um nível historicamente muito baixo, indicando pouquíssimas vagas disponíveis. Antes disso, algo semelhante só havia ocorrido em 2008–2009, durante a crise financeira global.

Quando olhamos a série histórica — que remonta a pelo menos 2003, e em estudos mais longos chega aos anos 1960 — vemos claramente como esse indicador captura bem os ciclos econômicos. No pós-pandemia, por exemplo, o mercado de trabalho esteve extremamente aquecido: a relação chegou a 2 vagas abertas para cada desempregado. Em alguns momentos, havia algo como 8 milhões de desempregados para 16 milhões de vagas, ou 10 milhões de desempregados para 15 milhões de vagas abertas — um superaquecimento impressionante.

Esse nível em torno de 2 é raríssimo na história americana. Ele só apareceu em dois ou três momentos ao longo de 60 ou 70 anos de dados: no período da Guerra do Vietnã, no fim dos anos 1960 e início dos 1970, quando a economia estava fortemente aquecida, e novamente nos anos 1990. Fora esses episódios, nunca foi algo comum.

No período pré-pandemia, o indicador já mostrava um mercado relativamente apertado, com cerca de 1,5 vaga por desempregado. É exatamente por isso que o Fed gosta tanto dessa medida: há uma vasta literatura acadêmica mostrando que ela é um excelente termômetro da pressão no mercado de trabalho, e trata-se de uma série longa e bem comportada estatisticamente.

A conclusão é clara: vivemos hoje o maior arrefecimento do mercado de trabalho desde a pandemia. Saímos de um dos períodos mais aquecidos dos últimos 50 anos, em 2022 e 2023, para um nível próximo — ou até ligeiramente abaixo — da média histórica. Estudos de longo prazo indicam que essa média gira em torno de 0,6 a 0,7, caracterizando um mercado de trabalho mais equilibrado ou moderado. Estamos caminhando nessa direção.

Esse dado é extremamente relevante para a política monetária. Ele é amplamente acompanhado dentro do Fed e ajuda a balizar os próximos passos. Nesse contexto, aumenta significativamente a probabilidade de cortes de juros nos próximos meses. Com o debate recente — inclusive com declarações de Kevin Warsh sobre a possibilidade de levar os juros de curto prazo para algo próximo de 3% — um ciclo de afrouxamento monetário nos Estados Unidos parece cada vez mais plausível.

Na próxima semana, teremos outros dados importantes, como o payroll e novos números de inflação, que vão ajudar a confirmar esse diagnóstico. Mas esses gráficos do JOLTS já oferecem uma referência muito clara e bastante elucidativa sobre a inflexão em curso no mercado de trabalho americano.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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