Josué de Castro: o geógrafo da fome e a anatomia do subdesenvolvimento
Falar de Josué de Castro no século XXI não é apenas um exercício de memória histórica, mas uma necessidade política urgente.
Falar de Josué de Castro no século XXI não é apenas um exercício de memória histórica, mas uma necessidade política urgente. Em um Brasil que viu o retorno do mapa da fome e a precarização das condições de vida das classes populares, a voz do cientista pernambucano ecoa com uma atualidade desconcertante. Castro não foi apenas um observador; ele foi o homem que retirou o véu de "fenômeno natural" da fome para revelá-la como um subproduto deliberado do sistema econômico.
Antes de Castro, a fome era tratada ou como um castigo divino, ou como uma consequência inevitável do crescimento populacional (tese de Thomas Malthus). Castro inverteu essa lógica, provando que a produção de alimentos é suficiente; o que falta é o acesso e a distribuição justa.
Nascido em Recife, em 1908, Josué de Castro cresceu observando o "ciclo do caranguejo" nos manguezais, onde a lama, o bicho e o homem se confundiam em uma luta mútua pela sobrevivência. Essa experiência moldou sua visão de mundo. Castro utilizou a metáfora do "homem-caranguejo" para descrever a simbiose trágica nos manguezais recifenses. Onde a lama do rio alimentava o caranguejo, que por sua vez alimentava o homem, que morria e voltava a ser lama. Essa visão sistêmica deu origem à sua "Ecologia Humana", onde o meio ambiente e a estrutura social são indissociáveis.
Castro desafiou as teorias malthusianas que culpavam o excesso populacional pela escassez de alimentos. Ele demonstrou que a fome no Brasil não era fruto da falta de solo fértil ou do clima, mas de uma estrutura agrária latifundiária e monocultora que privilegiava a exportação em detrimento do mercado interno.
Em sua obra de 1946, Geografia da Fome, Castro dividiu o Brasil em áreas de "fome endêmica" e "fome epidêmica". Uma de suas maiores contribuições foi o conceito de fome parcial ou fome oculta: aquela que não mata de imediato, mas que, devido à carência de vitaminas e proteínas específicas (fruto de uma dieta baseada apenas em carboidratos, como a mandioca ou o açúcar), condena populações inteiras ao raquitismo, à apatia e a uma morte lenta em vida.Em Geopolítica da Fome (1951), Castro elevou o debate ao nível internacional. Ele denunciou que o colonialismo transformou vastas regiões do hemisfério sul em monoculturas de exportação, destruindo a diversidade agrícola que garantia a subsistência dos povos locais.Castro argumentava que a paz mundial seria impossível enquanto um terço da humanidade vivesse na abundância e dois terços na carência absoluta. Por sua atuação na denúncia dessas desigualdades, foi indicado três vezes ao Prêmio Nobel da Paz e eleito Presidente do Conselho da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura).A defesa de Josué de Castro pela Reforma Agrária e sua postura nacionalista-progressista o tornaram um inimigo natural das elites agrárias e do capital estrangeiro. Com o golpe militar de 1964, ele foi um dos primeiros intelectuais a ter seus direitos políticos cassados pelo AI-1.
No exílio em Paris, Castro transformou sua dor em produção acadêmica, fundando o Centro Internacional para o Desenvolvimento. No entanto, o afastamento forçado do Brasil o consumia. Em suas cartas, descrevia o exílio como uma "morte em vida". Sua morte em 1973, na França, simbolizou o silenciamento de uma geração que ousou pensar um Brasil soberano e sem fome.
O legado de Josué de Castro é o alicerce de programas contemporâneos de combate à fome, como o Fome Zero e o Bolsa Família. Ele nos ensinou que a fome não é um destino, mas uma escolha política. Ler Castro é entender que a soberania alimentar é o primeiro passo para a soberania nacional. Enquanto houver fome, a democracia brasileira será um projeto inacabado.
REFERÊNCIAS
CASTRO, Josué de. Geografia da fome: o dilema brasileiro: pão ou aço. Rio de Janeiro: Antares, 1984.CASTRO, Josué de. Geopolítica da fome: ensaio sobre os problemas de alimentação e de população do mundo. São Paulo: Brasiliense, 2001.COSTA, A. M. L. Josué de Castro e o Brasil 247: a fome como ferramenta de análise política contemporânea. São Paulo: Contexto, 2022.SILVA, José Graziano da. O pensamento de Josué de Castro e a segurança alimentar. Brasília: IPEA, 2010.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
