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Washington Araújo

Mestre em Cinema, psicanalista, jornalista e conferencista, é autor de 19 livros publicados em diversos países. Professor de Comunicação, Sociologia, Geopolítica e Ética, tem mais de duas décadas de experiência na Secretaria-Geral da Mesa do Senado Federal. Especialista em IA, redes sociais e cultura global, atua na reflexão crítica sobre políticas públicas e direitos humanos. Produz o Podcast 1844 no Spotify e edita o site palavrafilmada.com.

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Jovem bahá’í no Irã enfrenta simulações de enforcamento, tortura e corre risco de vida

Peyvand Naimi permanece preso no Irã, submetido a tortura, simulações de execução e pressão psicológica, enquanto autoridades tentam forçar uma confissão

Bandeira do Irã (Foto: REUTERS/Leonhard Foeger)

O rosto jovem, capturado em uma fotografia aparentemente banal, carrega uma dissonância brutal com os fatos que emergem de dentro das estruturas opacas do sistema prisional iraniano. Peyvand Naimi, 28, não é apenas mais um nome em relatórios de direitos humanos — é hoje o centro de uma denúncia grave que expõe, com nitidez desconfortável, práticas que desafiam qualquer noção contemporânea de legalidade.

Detido na cidade de Kerman, no Irã, Peyvand enfrenta o que organizações internacionais classificam como risco iminente à sua integridade física e psicológica. O jovem seguidor da Fé Bahá’í foi submetido a duas simulações de execução — práticas conhecidas como “mock hangings” — além de sessões prolongadas de tortura e interrogatório. O objetivo, segundo os relatos, é inequívoco: forçar uma confissão por crimes que ele afirma não ter cometido.

A linha entre investigação e coerção desaparece por completo quando o próprio aparato estatal passa a operar na lógica da fabricação de culpa. No caso de Peyvand, essa linha não apenas foi cruzada — ela foi deliberadamente apagada.

Preso em 8 de janeiro, sob acusações de incitar desordem durante os protestos daquele mês, ele foi encaminhado a um centro de detenção ligado ao Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), uma estrutura frequentemente associada a denúncias sistemáticas de maus-tratos. Não houve, até o momento, julgamento. Não houve sentença. Não houve sequer apresentação de evidências que sustentem as acusações formais.

O que há, em seu lugar, é um conjunto consistente de relatos que descrevem um ambiente de violência contínua. Peyvand teria sido mantido com mãos e pés amarrados por até 48 horas, privado de alimentos e água, submetido a espancamentos repetidos e amarrado a uma parede como forma de intimidação física e psicológica.

Mais do que a dor física, emerge o uso deliberado da humilhação como instrumento de pressão. Sua religião, a Fé Bahá’í — historicamente perseguida no Irã — foi alvo direto de insultos e deslegitimação durante os interrogatórios. A tentativa não é apenas arrancar uma confissão, mas corroer a identidade do indivíduo até que reste apenas o que o sistema deseja ouvir.

As simulações de execução, nesse contexto, não são um excesso isolado. São parte de um método. Especialistas em direitos humanos são categóricos ao afirmar que tais práticas configuram uma forma extrema de tortura psicológica, proibida sob o direito internacional. A encenação da morte iminente não deixa marcas visíveis, mas reorganiza, de forma devastadora, a percepção de realidade da vítima.

Enquanto isso, o tempo jurídico — esse que deveria proteger — permanece suspenso. Nenhuma audiência foi realizada. Nenhum processo formal avançou. Peyvand continua detido em um limbo onde a ausência de prova não resulta em liberdade, mas em mais violência.

O contraste se torna ainda mais agudo quando se observa que outros prisioneiros foram recentemente libertados em meio à crise interna que atravessa o país. Peyvand, no entanto, permanece sob custódia, ao lado de outros bahá’ís que, segundo denúncias recorrentes, são alvo preferencial de perseguição por suas crenças.

Há, nesse caso, um padrão que se repete com precisão inquietante: acusação vaga, detenção prolongada, tortura para obtenção de confissão e ausência de devido processo legal. Não se trata de um desvio ocasional, mas de um modelo operacional que transforma o sistema de justiça em instrumento de coerção.

E talvez seja justamente esse o ponto mais perturbador: quando a confissão deixa de ser um relato voluntário e passa a ser um produto extraído sob dor, o próprio conceito de verdade entra em colapso. O que se obtém não é justiça — é apenas um documento que legitima, a posteriori, aquilo que já foi decidido de antemão.

No centro de tudo isso permanece um jovem com um sorriso registrado em fotografia — um detalhe quase cruel diante da engrenagem que hoje o envolve. Porque, no fim, a imagem que o mundo vê não é apenas a de Peyvand Naimi. É o retrato de um sistema que, ao tentar fabricar culpados, revela muito mais sobre si do que sobre aqueles que mantém sob custódia.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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