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Gustavo Tapioca

Jornalista formado pela Universidade Federal da Bahia e MA pela Universidade de Wisconsin-Madison. Ex-diretor de redação do Jornal da Bahia, foi assessor de Comunicação Social da Telebrás, consultor em Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do (IICA/OEA). Autor de "Meninos do Rio Vermelho", publicado pela Fundação Casa de Jorge Amado.

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Lava Jato ressurge com o mesmo método que destruiu a democracia em 2018

O Brasil já percorreu esse caminho. E pagou caro

Luiz Inácio Lula da Silva e Daniel Vorcaro (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil | Divulgação/Banco Master)

Um banco quebra. Deixa para trás mais de R$ 40 bilhões em prejuízos. O jornalismo, que deveria fazer o básico — explicar para onde foi o dinheiro, quem se beneficiou, quais agentes econômicos e políticos estão envolvidos e como o sistema permitiu o colapso — escolhe outro caminho. Em vez de investigar o núcleo do crime financeiro, passa a mirar o presidente Lula com o mesmo método que marcou a Lava Jato: acusação sem prova, narrativa sem lastro, condenação antecipada pela manchete. Tudo indica que a Lava Jato II já começou. E o alvo é o mesmo: Lula. 

Um banco quebra. A democracia entra em risco.

O colapso do Banco Master não é um evento trivial. Um rombo bilionário dessa magnitude não surge do nada, nem pode ser explicado por erros administrativos pontuais. Trata-se, por definição, de um escândalo financeiro de grande escala, que exige investigação rigorosa sobre responsabilidades empresariais, falhas regulatórias, circuitos de dinheiro e eventuais crimes contra o sistema financeiro. Mas nada disso ocupa o centro do noticiário.

O que se vê é um movimento conhecido. O deslocamento deliberado do foco. Em vez de examinar quem controlava o banco, quem lucrou antes da quebra, quais operações levaram ao colapso e onde estavam os órgãos de fiscalização, parte expressiva da mídia escolhe politizar o escândalo. E politizar, aqui, não significa discutir políticas públicas ou regulação bancária. Significa introduzir Lula no enredo, ainda que sem qualquer prova direta, por associação, insinuação ou ruído narrativo. Esse deslocamento não é erro. É método.

Projeto travestido de cruzada moral

A Lava Jato não foi apenas uma operação judicial. Foi um projeto político com método próprio, sustentado por uma aliança estrutural entre setores do Judiciário, do Ministério Público e da mídia corporativa.

Seu funcionamento pode ser resumido em cinco pilares:

  1. Criminalização seletiva da política, concentrada no campo progressista.
  2. Substituição da prova pela narrativa, com delações premiadas e vazamentos seletivos.
  3. Uso sistemático da mídia como instância de julgamento, onde manchetes funcionavam como sentenças.
  4. Interferência direta no processo eleitoral, ao retirar Lula da disputa de 2018.
  5. Blindagem do sistema financeiro e das elites econômicas, que jamais estiveram no centro real da operação.

O resultado é conhecido. Lula foi preso por 580 dias, afastado das eleições “sem provas, mas com convicções”. O golpe funcionou. Jair Bolsonaro foi eleito. O mesmo Bolsonaro que hoje cumpre pena de 27 anos de prisão por tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito.

O colapso jurídico posterior da Lava Jato — com anulações no STF e revelações da Vaza Jato — não produziu uma autocrítica proporcional. Produziu silêncio, amnésia seletiva e uma falsa sensação de encerramento. A Lava Jato acabou como operação formal. Não acabou como método.

Lava Jato sem toga, com manchete

O que se observa agora é a reativação desse método em versão adaptada. Menos procuradores-celebridade. Menos espetáculo judicial. Mais insinuação. Mais ambiguidade calculada. Mais manchetes que sugerem sem afirmar, acusam sem provar, desgastam sem responsabilizar.

O roteiro se repete:

– surge um escândalo real;
– o foco sai do sistema e vai para a política;
– o nome de Lula é introduzido;
– a repetição substitui a evidência;
– a suspeição se consolida antes da apuração.

É a Lava Jato sem toga, mas com a mesma função política.

Banco Master: o escândalo é financeiro, o alvo é político eleitoreiro 

No caso do Banco Master, a lógica é cristalina. O prejuízo é concreto. O dinheiro desapareceu. As perguntas centrais são conhecidas. Mas o noticiário escolhe outro caminho. Ao personalizar o escândalo e deslocá-lo para o terreno da disputa política, cumpre-se uma função dupla: protege-se o sistema financeiro de um escrutínio profundo e reativa-se o desgaste moral do presidente. O banco vira pretexto. Lula vira alvo. A investigação vira narrativa.

O mesmo método, outro formato

2018
– Escândalos reais convertidos em narrativa moral.
– Provas substituídas por convicções.
– Vazamentos seletivos alimentando manchetes.
– Judiciário sob pressão midiática constante.
– Lula retirado da disputa eleitoral.
– Bolsonaro eleito.

2026
– Escândalo financeiro real e bilionário.
– Investigação deslocada para a insinuação política.
– Ausência de acusação formal, mas suspeição contínua.
– Mídia como gatilho narrativo.
– Lula colocado no centro sem prova direta.
– Objetivo: desgaste acumulativo.

O que muda é a forma. O que permanece é o objetivo. A Lava Jato ensinou que não é preciso ganhar a eleição. Basta definir o enquadramento antes que o eleitor vote.

O calendário invisível de 2026

Nada disso ocorre por acaso. O pano de fundo é eleitoral. As pesquisas indicam que Lula segue como candidato competitivo, com chances reais de vitória. Isso reorganiza comportamentos, alianças e narrativas.

Em 2018, a solução foi brutal: prisão e exclusão.
Em 2026, a estratégia é mais sofisticada: corrosão lenta, suspeição permanente, desgaste contínuo.

Não se busca necessariamente uma condenação judicial. Busca-se criar um ambiente de instabilidade, dúvida e fadiga moral.

Lava Jato II: não é metáfora, é diagnóstico

Chamar esse processo de Lava Jato II não é exagero retórico. É descrição funcional.

Estão presentes todos os elementos essenciais:
– seletividade política;
– blindagem econômica;
– mídia como ator central;
– substituição da prova pela narrativa;
– interferência indireta no processo eleitoral.

A diferença é que agora o método opera com a experiência do passado. Aprende com seus erros. Age com mais cinismo e menos barulho.

O Brasil já viveu essa história

 O Brasil já percorreu esse caminho. E pagou caro. Pagou com a prisão ilegal de um ex-presidente. Pagou com a eleição de um governo autoritário.
Pagou com a corrosão institucional. Pagou com a normalização do golpe travestido de combate à corrupção.

Hoje, quando setores do jornalismo voltam a operar “sem provas, mas com convicções”, não estão apenas errando. Estão reeditando conscientemente um método que destruiu a democracia brasileira. Não se trata de blindar Lula de críticas legítimas. Trata-se de impedir que o país volte a uma eleição sob estado de exceção informal, onde manchetes substituem processos e suspeitas substituem provas.

Em 2018, disseram que era um mal necessário. O resultado foi Bolsonaro.
Hoje, ninguém pode alegar ignorância. Se esse método voltar a vencer, não será por falta de aviso. Será porque parte do sistema político, jurídico e midiático aceitou repetir o erro — desta vez, sabendo exatamente o que estava fazendo. A democracia brasileira não sobrevive a um novo 2018. Nem a uma Lava Jato II.

Na apresentação do livro de Luís Nassif “A conspiração Lava Jato”, publicado em 2024, Lenio Strek faz uma comparação instigante: 

“Assim como a ditadura militar foi a noite que durou 21 anos, a Lava Jato pode ser a Operação que (já) durou 10 anos. Resta saber se acabou.”

Ao que parece, a resposta é não, Lenio, não acabou. Ressurgiu com outra máscara, mas com o mesmo método e outro formato, no início de 2026. E precisa ser contida antes que faça os estragos prolongados e gigantescos que a Lava Jato I fez à democracia, a economia brasileira e a milhões de brasileiros.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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