Lava Jato ressurge com o mesmo método que destruiu a democracia em 2018
O Brasil já percorreu esse caminho. E pagou caro
Um banco quebra. Deixa para trás mais de R$ 40 bilhões em prejuízos. O jornalismo, que deveria fazer o básico — explicar para onde foi o dinheiro, quem se beneficiou, quais agentes econômicos e políticos estão envolvidos e como o sistema permitiu o colapso — escolhe outro caminho. Em vez de investigar o núcleo do crime financeiro, passa a mirar o presidente Lula com o mesmo método que marcou a Lava Jato: acusação sem prova, narrativa sem lastro, condenação antecipada pela manchete. Tudo indica que a Lava Jato II já começou. E o alvo é o mesmo: Lula.
Um banco quebra. A democracia entra em risco.
O colapso do Banco Master não é um evento trivial. Um rombo bilionário dessa magnitude não surge do nada, nem pode ser explicado por erros administrativos pontuais. Trata-se, por definição, de um escândalo financeiro de grande escala, que exige investigação rigorosa sobre responsabilidades empresariais, falhas regulatórias, circuitos de dinheiro e eventuais crimes contra o sistema financeiro. Mas nada disso ocupa o centro do noticiário.
O que se vê é um movimento conhecido. O deslocamento deliberado do foco. Em vez de examinar quem controlava o banco, quem lucrou antes da quebra, quais operações levaram ao colapso e onde estavam os órgãos de fiscalização, parte expressiva da mídia escolhe politizar o escândalo. E politizar, aqui, não significa discutir políticas públicas ou regulação bancária. Significa introduzir Lula no enredo, ainda que sem qualquer prova direta, por associação, insinuação ou ruído narrativo. Esse deslocamento não é erro. É método.
Projeto travestido de cruzada moral
A Lava Jato não foi apenas uma operação judicial. Foi um projeto político com método próprio, sustentado por uma aliança estrutural entre setores do Judiciário, do Ministério Público e da mídia corporativa.
Seu funcionamento pode ser resumido em cinco pilares:
- Criminalização seletiva da política, concentrada no campo progressista.
- Substituição da prova pela narrativa, com delações premiadas e vazamentos seletivos.
- Uso sistemático da mídia como instância de julgamento, onde manchetes funcionavam como sentenças.
- Interferência direta no processo eleitoral, ao retirar Lula da disputa de 2018.
- Blindagem do sistema financeiro e das elites econômicas, que jamais estiveram no centro real da operação.
O resultado é conhecido. Lula foi preso por 580 dias, afastado das eleições “sem provas, mas com convicções”. O golpe funcionou. Jair Bolsonaro foi eleito. O mesmo Bolsonaro que hoje cumpre pena de 27 anos de prisão por tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito.
O colapso jurídico posterior da Lava Jato — com anulações no STF e revelações da Vaza Jato — não produziu uma autocrítica proporcional. Produziu silêncio, amnésia seletiva e uma falsa sensação de encerramento. A Lava Jato acabou como operação formal. Não acabou como método.
Lava Jato sem toga, com manchete
O que se observa agora é a reativação desse método em versão adaptada. Menos procuradores-celebridade. Menos espetáculo judicial. Mais insinuação. Mais ambiguidade calculada. Mais manchetes que sugerem sem afirmar, acusam sem provar, desgastam sem responsabilizar.
O roteiro se repete:
– surge um escândalo real;
– o foco sai do sistema e vai para a política;
– o nome de Lula é introduzido;
– a repetição substitui a evidência;
– a suspeição se consolida antes da apuração.
É a Lava Jato sem toga, mas com a mesma função política.
Banco Master: o escândalo é financeiro, o alvo é político eleitoreiro
No caso do Banco Master, a lógica é cristalina. O prejuízo é concreto. O dinheiro desapareceu. As perguntas centrais são conhecidas. Mas o noticiário escolhe outro caminho. Ao personalizar o escândalo e deslocá-lo para o terreno da disputa política, cumpre-se uma função dupla: protege-se o sistema financeiro de um escrutínio profundo e reativa-se o desgaste moral do presidente. O banco vira pretexto. Lula vira alvo. A investigação vira narrativa.
O mesmo método, outro formato
2018
– Escândalos reais convertidos em narrativa moral.
– Provas substituídas por convicções.
– Vazamentos seletivos alimentando manchetes.
– Judiciário sob pressão midiática constante.
– Lula retirado da disputa eleitoral.
– Bolsonaro eleito.
2026
– Escândalo financeiro real e bilionário.
– Investigação deslocada para a insinuação política.
– Ausência de acusação formal, mas suspeição contínua.
– Mídia como gatilho narrativo.
– Lula colocado no centro sem prova direta.
– Objetivo: desgaste acumulativo.
O que muda é a forma. O que permanece é o objetivo. A Lava Jato ensinou que não é preciso ganhar a eleição. Basta definir o enquadramento antes que o eleitor vote.
O calendário invisível de 2026
Nada disso ocorre por acaso. O pano de fundo é eleitoral. As pesquisas indicam que Lula segue como candidato competitivo, com chances reais de vitória. Isso reorganiza comportamentos, alianças e narrativas.
Em 2018, a solução foi brutal: prisão e exclusão.
Em 2026, a estratégia é mais sofisticada: corrosão lenta, suspeição permanente, desgaste contínuo.
Não se busca necessariamente uma condenação judicial. Busca-se criar um ambiente de instabilidade, dúvida e fadiga moral.
Lava Jato II: não é metáfora, é diagnóstico
Chamar esse processo de Lava Jato II não é exagero retórico. É descrição funcional.
Estão presentes todos os elementos essenciais:
– seletividade política;
– blindagem econômica;
– mídia como ator central;
– substituição da prova pela narrativa;
– interferência indireta no processo eleitoral.
A diferença é que agora o método opera com a experiência do passado. Aprende com seus erros. Age com mais cinismo e menos barulho.
O Brasil já viveu essa história
O Brasil já percorreu esse caminho. E pagou caro. Pagou com a prisão ilegal de um ex-presidente. Pagou com a eleição de um governo autoritário.
Pagou com a corrosão institucional. Pagou com a normalização do golpe travestido de combate à corrupção.
Hoje, quando setores do jornalismo voltam a operar “sem provas, mas com convicções”, não estão apenas errando. Estão reeditando conscientemente um método que destruiu a democracia brasileira. Não se trata de blindar Lula de críticas legítimas. Trata-se de impedir que o país volte a uma eleição sob estado de exceção informal, onde manchetes substituem processos e suspeitas substituem provas.
Em 2018, disseram que era um mal necessário. O resultado foi Bolsonaro.
Hoje, ninguém pode alegar ignorância. Se esse método voltar a vencer, não será por falta de aviso. Será porque parte do sistema político, jurídico e midiático aceitou repetir o erro — desta vez, sabendo exatamente o que estava fazendo. A democracia brasileira não sobrevive a um novo 2018. Nem a uma Lava Jato II.
Na apresentação do livro de Luís Nassif “A conspiração Lava Jato”, publicado em 2024, Lenio Strek faz uma comparação instigante:
“Assim como a ditadura militar foi a noite que durou 21 anos, a Lava Jato pode ser a Operação que (já) durou 10 anos. Resta saber se acabou.”
Ao que parece, a resposta é não, Lenio, não acabou. Ressurgiu com outra máscara, mas com o mesmo método e outro formato, no início de 2026. E precisa ser contida antes que faça os estragos prolongados e gigantescos que a Lava Jato I fez à democracia, a economia brasileira e a milhões de brasileiros.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



