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Emir Sader

Colunista do 247, Emir Sader é um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros

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Lula é a única possibilidade de sobrevivência da democracia no Brasil

A reeleição de Lula surge como eixo central para a continuidade democrática diante de uma oposição associada ao bolsonarismo e sem projeto claro para o país

31.03.2026 - Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante cerimônia de comemoração dos 21 anos do PROUNI e dos 14 anos da Lei de Cotas, na Arena Anhembi – Santana, São Paulo - SP. Foto: Ricardo Stuckert / PR (Foto: Ricardo Stuckert / PR)

O retorno de Lula ao governo representou a derrota de Bolsonaro e do bolsonarismo, o maior risco para a democracia no Brasil. Faltasse algo, veio a nova tentativa de golpe, em que o ex-presidente esteve completamente comprometido, a ponto de ser condenado e estar preso, acusado justamente pelo compromisso com a tentativa de um novo golpe contra a democracia.

Desde então, o governo Lula consolidou a democracia, enquanto a oposição está comprometida com o bolsonarismo, a ponto de apoiar o filho de Bolsonaro, indicado por ele mesmo como seu sucessor. As penosas tentativas de lançar um candidato que poderia representar uma terceira via encontram enormes dificuldades, porque os espaços da polarização estão ocupados. Mesmo se o candidato dessa via anuncia que viria para pacificar o país, começando com a anistia para o próprio Bolsonaro, termina sendo uma variante, mesmo que branda na forma, da direita.

Dessa forma, o presente e o futuro do Brasil se jogam na reeleição de Lula, que pode representar o fortalecimento e a continuidade da democracia ou um novo risco. Todos os setores, da grande mídia e das forças políticas, que se opõem a Lula, estão se opondo, na verdade, à continuidade da democracia.

Esse é o dilema: Lula e a democracia, ou a direita e uma nova ruptura da democracia. A esses dilemas está restrito o futuro do Brasil e de sua democracia.

Não se trata, portanto, de uma simples disputa eleitoral entre Lula e alguns adversários. Trata-se do destino da democracia no Brasil.

Uma democracia ainda precária, porque convive com as extremas desigualdades que ainda caracterizam o país, assim como com o papel do capital especulativo na economia, pelas altas taxas de juros ainda existentes.

São desafios para o provável quarto mandato de Lula. Como ele pretende enfrentá-los? O PT teve sempre como uma de suas lutas o enfrentamento das taxas de juros altas, que favorecem e alimentam a especulação financeira e o capital especulativo.

A necessidade de enfrentar os riscos – reais e imaginários – da inflação levou o governo a manter taxas de juros entre as mais altas do mundo, que bloqueiam a possibilidade não somente de que a economia volte a crescer de maneira sustentável, mas também de que possa entrar em um novo ciclo longo e expansivo.

Esse é o maior desafio de um provável novo governo Lula, para o qual o governo não parece estar preparado. Teria que romper com uma presidência do Banco Central que manteve e segue fazendo a apologia das taxas de juros altas. Os governos do PT sempre mantiveram essa dualidade, com presidentes do Banco Central conservadores.

De qualquer maneira, resta ainda a disputa mais importante. Lula faz um bom governo, mas está perdendo a disputa das comunicações. De que maneira Lula e seu governo enfrentarão essa questão?

Lula está confiante de que a campanha eleitoral apresente suas propostas concretas, ancoradas em resultados efetivamente muito reais na economia e no plano social, frente à ausência praticamente total de propostas da oposição, que concentra suas ações, como se viu na manifestação na Avenida Paulista, no “Fora Lula”, sem propor o que colocaria no lugar, caso conseguisse esse objetivo.

Por isso, estamos circunscritos ao dilema entre Lula e a democracia ou a oposição e o fim da democracia no Brasil.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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