Mais um retrato do país de Tim Maia: Trump caça 'terroristas' por querer nos ajudar
“O brasileiro apoiador dos planos dos americanos contra o 'terror' é o mesmo que não vê terrorismo em ações da extrema direita", escreve Moisés Mendes
Os brasileiros rejeitam a interferência dos Estados Unidos no combate ao crime organizado aqui dentro do país. Mas acham que o governo americano quer combater as facções criminosas, transformando-as em organizações terroristas, pelo desejo de ajudar a população da nação amiga.
Aqui estão os números mais impactantes da pesquisa do Datafolha com essas revelações: 74% repelem a interferência direta dos EUA, mas 50% enxergam Trump como um sujeito bonzinho disposto a nos salvar. O outro dado, que não ajuda a dar coerência ao que a população pensa, informa que 59% definem como terrorismo o PCC e o Comando Vermelho.
Acionados, os especialistas em leitura de pesquisas dizem mais ou menos o que segue: que a insegurança provocada pelo crime organizado leva ao sentimento que conecta os brasileiros a Trump e determina que a grande bandidagem é 'terrorista'.
Mas os Estados Unidos, que querem o nosso bem, não devem interferir na nossa vida aqui dentro, mesmo que sejam terroristas as facções que traficam armas e drogas, infiltram-se na economia formal e agora lavam dinheiro na Faria Lima.
Trump está certo, para a maioria dos brasileiros, com um detalhe que os especialistas nunca abordam. É uma ponta encoberta que atrapalharia as leituras mais básicas de que a polarização se expressa em todas as manifestações dos eleitores, como nesse caso.
O que os especialistas não levam em conta é uma dúvida simples: quais são as realidades e experiências que habilitam os brasileiros a pensar que enfrentam ações consagradas como terroristas em seu cotidiano?
Que base têm para aceitar que bandidos comuns são terroristas? Que vivências temos de terrorismo no Brasil que possam induzir a essa conclusão? Andando mais um pouco na direção de áreas nebulosas, podemos perguntar também: o que o imenso Brasil de mais de 5 mil municípios, que sabe muito de milícias, pode dizer que sabe de PCC e de Comando Vermelho?
Pesquisas existem para mostrar também que as pessoas se revelam muito mais confusas do que esclarecidas sobre determinados assuntos. E esse parece ser um deles.
Por que avalizar uma tentativa de imposição do pensamento americano sobre o que é terrorismo, se as pessoas não têm vivência e conhecimento capazes de justificar essa compreensão?
Nem seria preciso citar, para não repetir o que muito já foi muito repetido, que os exemplos recentes enquadráveis como terrorismo são atos cometidos por ativistas de extrema-direita.
O principal foi o plano de atentado a bomba no aeroporto de Brasília, em dezembro de 2022. Outro, anterior, foi o ataque à sede da Polícia Federal, em 12 de dezembro daquele ano, quando incendiaram carros e ônibus.
Os dois episódios são essencialmente políticos. E o que mais, deixando de lado até o 8 de janeiro? Os bloqueios de estradas, em muitos casos com o uso de violência, depois da eleição de Lula? Os atentados às torres de energia?
Todos esses fatos não existiriam sem o componente da política e da ideologia, como ações de fascistas derrotados na eleição. Não são terroristas? Mas o PCC e o CV podem ser?
O eleitor que compreende a "ajuda" americana e defende o enquadramento de bandidos como terroristas é, em maioria, como mostra a pesquisa, o engajado ao bolsonarismo. É o mesmo que não percebe os fatos citados acima como ações terroristas. São apoiadores de facções envolvidas com atos terroristas apoiando a caçada americana ao que eles entendem como terrorismo. Esse é o vasto país de Tim Maia.
No fim, o que sobra como informação da pesquisa é a distorção da realidade e a às vezes a falsa desinformação orientadas pela posição política de quem vê Trump como amigo, mas não o suficiente para vir aqui pegar o PCC. Que nos digam o que é um terrorista, mas sem chegar muito perto.
Tanto que a maioria (54%) diz que Flávio Bolsonaro teve influência na decisão de Trump de enquadrar bandidos como terroristas, mas apenas 18% dos eleitores do bolsonarista acham que essa influência é negativa. O que seria defesa da soberania vira coisa relativa.
Outro detalhe. O Datafolha pergunta se Trump é um cara legal, disposto a proteger os brasileiros da ameaça terrorista, mas não indaga se a intenção dele é atingir Lula e tumultuar a eleição.
E assim vão pesquisando quem anda por aí para ser pesquisado, porque é o que mais se faz no Brasil antes de eleições. Pesquisas existem para que os especialistas em decifrar pesquisas tenham trabalho. A bandidagem, cada vez mais esclarecida, o que inclui os milicianos, deve achar divertido.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




