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Michel Zaidan

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Marx, os marxistas e o método

Marxismo não é um mero discurso do método das ciências sociais; nem Marx, um metodólogo, como querem os estruturalistas - incluindo aí Althusser- franceses

Karl Marx (Foto: Reprodução)

Hoje me deparei com uma exposição acadêmica sobre Marx e o método, feita pelo meu amigo e colega José Paulo Netto, professor do departamento de serviço da UFRJ.

E o que mais me chamou a atenção é a separação entre método e objeto em sua exposição. O marxismo não é um mero discurso do método das ciências sociais; nem Marx, um metodólogo, como querem os estruturalistas — incluindo aí Althusser — franceses. O que há de dialético no método é sua íntima relação entre método e objeto, como está demonstrado no seu texto sobre "O método da economia política".

Marx não se aplicou a desenvolver um método universal aplicável a todos os modos de produção, mas a fazer uma crítica à economia política capitalista, por meio da dialética materialista. Mas isso não autoriza ninguém a extrair dessa obra uma receita infalível que possa ser usada para analisar todas as sociedades e períodos históricos. As categorias de análise do capitalismo resultam de uma análise interna do objeto e sua reconstrução a partir dessas múltiplas determinações. Elas não pré-existem ao objeto de análise, como uma camisa de força para vestir o objeto. Em Marx, método e ontologia se entrelaçam. Um depende do outro. Separar método e ontologia é esterilizar o método e preconceber a essência do objeto. Por mais fascinante que seja a tentação de construir uma metodologia marxista, isso não passa de um grave equívoco cometido pelos estruturalistas. Não se pode apreender dialeticamente as coisas sem decompô-las em suas determinações e reconstruí-las a partir dessa operação. É assim que Marx faz com a mercadoria. Entender a obra de Marx não como método, mas sobretudo como ontologia é o caminho para desvendar a essência da realidade.

P.S.

Há, na vasta cultura marxista, uma divisão entre os metodologistas e os ontologistas. Na verdade, um implica o outro. Não existe método que não implique objeto, e objeto que não suscite um método para desvendá-lo. No Brasil, predominou o discurso do método por influência do estruturalismo. Um pequeno grupo de autores que liam a obra de Lukács introduziu a importância da ontologia e da dialética.

O marxismo não é um facilitário para explicar a história e a sociedade, como quis divulgar Stalin com seus manuais introdutórios, mas uma ontologia do ser social produzido pelo capitalismo.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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