Christian Dunker : “A doença do Trump se chama capitalismo”
Christian Dunker analisa como a lógica do capitalismo molda a liderança de Donald Trump e mobiliza massas a partir da individualização extrema do poder
247 - A atuação de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, não pode ser compreendida a partir de diagnósticos psiquiátricos individuais, mas como expressão de uma patologia social ligada ao funcionamento do capitalismo contemporâneo. Essa é a linha central da análise do psicanalista Christian Dunker ao examinar o modo como lideranças autoritárias operam simbolicamente, transformando figuras individuais em encarnações de fantasias coletivas de poder, redenção e excepcionalidade.
Em entrevista ao programa Boa Noite 247, Dunker destacou que esses líderes ganham força ao produzir um processo de hiperindividualização do poder. Segundo ele, “esses líderes atraem bastante atenção justamente porque individualizam o poder, porque produzem esse efeito mágico, carismático, de dar corpo e carne para essa fantasia de que uma pessoa excepcional seria capaz de produzir transformações que as formas institucionais não conseguem produzir”. Para o psicanalista, trata-se de um mecanismo recorrente em contextos autoritários, que desloca o debate político das instituições para a figura do líder.
Ao analisar o caso específico de Trump, Dunker chamou atenção para o caráter aparentemente contraditório de sua liderança. “Um traço muito interessante dessas lideranças é a sua absoluta banalidade”, afirmou, ao observar que elas dão voz a formas comuns de exercício do “pequeno poder”, presentes no cotidiano social. Essa banalidade, segundo ele, é justamente o que permite a identificação de amplos setores que se sentem distantes das instituições e passam a projetar no líder a realização de seus próprios desejos de potência.
Dunker alertou para os riscos de tratar o presidente dos Estados Unidos como alguém clinicamente doente. “Patologizar o Trump é muito perigoso, porque é uma forma de desresponsabilizá-lo”, afirmou. Para o psicanalista, a pergunta recorrente sobre se Trump seria “louco ou cruel” já faz parte do efeito do próprio discurso político que ele produz. “Essa alternativa já é parte do problema, porque no fundo ele vai jogar com essas duas condições no seu próprio funcionamento”, explicou.
Na perspectiva da psicanálise, a questão central não é o diagnóstico individual, mas a responsabilidade subjetiva e coletiva. Dunker ressaltou que “não é porque você tem um sintoma neurótico ou psicótico que você está livre disso”. Segundo ele, há responsabilidade inclusive sobre aquilo que escapa à vontade consciente. É nesse ponto que se conecta o funcionamento psíquico individual àquilo que ele chamou de “patologia social”.
Trump, nesse sentido, seria um exemplo de como essa patologia se manifesta de forma personalizada. “Ele corresponde ao que o Freud chamava de psicologia das massas”, afirmou Dunker. O líder deixa de funcionar como indivíduo e passa a operar como ponto de condensação de identificações coletivas, permitindo que pessoas abram mão de sua própria responsabilidade ao se diluírem na lógica do grupo. “No meio da torcida a gente faz coisas que sozinho não faz”, observou.
Para Dunker, a eficácia política de Trump reside justamente nessa capacidade de mobilizar massas narcísicas. “A patologia deles é essa capacidade de puxar identificações, de trazer você para fora de si mesmo, de fazer a gente funcionar como uma massa”, disse. Esse processo pode ocorrer em diferentes formatos, de agrupamentos digitais a movimentos de caráter autoritário, sempre organizados em torno da promessa de restauração de uma potência perdida.
O psicanalista destacou ainda que esse tipo de liderança exige certos atributos específicos. “A gente não vê o Trump se pôr em dúvida, não vê voltar atrás, não vê fragilidade, equívoco ou reconsideração”, afirmou. Essa certeza excessiva, segundo Dunker, é o que sustenta o vínculo com massas que buscam no líder a confirmação de suas próprias fantasias de grandeza.
Ao situar Trump como expressão de uma patologia do social, Dunker desloca o foco da análise do indivíduo para o sistema que o produz e sustenta. Nesse enquadramento, o capitalismo aparece não apenas como pano de fundo econômico, mas como lógica simbólica que organiza desejos, identificações e formas de poder, tornando possível que líderes como o presidente dos Estados Unidos se afirmem como figuras centrais de mobilização política.