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Luís Eustáquio Soares

Professor Titular do Departamento de Letras e da Pós-Graduação PPGL-UFES

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Marxismo, psicanálise, literatura e geopolítica: o cinema total estadunidense

"O semblante se produz a partir do vazio na estrutura, ocupado, em primeira instância, pelo discurso do significante-mestre"

Marxismo, psicanálise, literatura e geopolítica: o cinema total estadunidense (Foto: IA / Brasil 247)
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“O que atropelava a verdadeira a roupa, o impermeável entre o mundo interior e o mundo exterior. A reação contra o homem vestido. O cinema americano informará (Oswald, 1970, p. 14). “Roteiros, roteiros, roteiros, roteiros, roteiros, roteiros, roteiros. (Oswald, 1970, p.15.)

Não vês que estou queimando?!

‘No volume V, de A interpretação dos sonhos, segunda parte (1900-1901), Sigmund Freud apresentou um sonho que lhe fora contado por uma paciente. O cenário onírico é o que segue: um pai realizara uma vigília de seu filho enfermo por dois dias. Após a morte da criança, mudara de quarto para descansar, deixando um senhor mais velho velá-la. Mantivera, entretanto, a porta entreaberta, com objetivo de poder enxergar o quarto contíguo, com o filho morto circundado por velas. Dorme por um momento e sonha dentro do pesadelo que o filho lhe diz em tom de censura: “Pai, não vês que estou queimando? (Freud, 1972, p. 543).

O psicanalista francês, Jacques Lacan, n’O Seminário, livro 18, de um discurso que não fosse o semblante (1970-71), retomou a passagem citada do sonho relatado por Sigmund Freud, para, ao fim e ao cabo, desenvolver o conceito de semblante da estrutura do inconsciente ou do inconsciente como uma espécie de efeito de estrutura do semblante ao mesmo tempo da subjetividade pessoal, da história e da natureza. ricocheteando, sempre, no desejo, a ser interpretado neste ensaio como a realização, não dos sonhos, mas dos pesadelos, nos seguintes termos: “Pai, não vês que estou queimando? (Freud, 1972, p. 543). ”

Considerando que o subtítulo do Seminário, livro 18, é “por um discurso que não fosse o semblante, há fundamentalmente este último, o semblante; e há a possibilidade. que seja, “de um discurso que não fosse o semblante”. Haveria, puxando os fios do Seminário, Livro 11, os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964), o ser, que “se decompõe, de maneira sensacional , entre o seu ser e o seu semblante, entre si mesmo e esse tigre de papel que ele dá a ver (Lacan, 1985, p. 106)”, a partir “de quatro lugares privilegiados (Livro 18), sendo que um ficou sem ser nomeado – justamente aquele que, pela função de seu ocupante, fornece o título de cada um desses discursos” (Lacan, 2009, p. 24), que são: i) o discurso do significante-mestre, que é, por sua vez, encarnado; ii) por certo saber, intitulado como discurso da universidade; iii) fissurado pela emergência do sujeito, com sua divisão fundadora, configurando o discurso da histérica; iv) o discurso do analista, que pressupõe, no horizonte indefinido, a ciência sem ideologias ou sem semblante (Lacan, 2009, p.24).

O semblante se produz a partir do vazio na estrutura, ocupado, em primeira instância, pelo discurso do significante-mestre, razão pela qual este detém a potência do vazio, que é a potência do artifício, do jogo, da dissimulação, da guarda da relação entre a violência e a lei. O discurso da universidade ou do saber é um efeito inconsciente do discurso do mestre, configurando a relação entre poder e saber de tal modo que este se inscreva como a instância do saber refém do poder, isto é, do significante-mestre, sempre como o filho perante o pai, a exclamar: “não vês que estou queimando?”

O problema edípico desse saber se queimando ( e já morto) pelo pai, em diálogo com o Livro 17: o avesso da psicanálise (1969-70), está relacionado ao fato de se constituir como “saber desnaturado de sua localização primitiva no nível do escravo por ter-se tornado puro saber do senhor, regido por seu mandamento (Lacan, 1992, p.97), que se marca, alienando-se de si mesmo, “como o gozo do Outro (Lacan, 1992, p.12)”; gozo do idiota por se achar pleno, resolvido; por se conceber fora do vazio; fora do movimento, do futuro, da vida, por ser um apêndice fálico insciente do mandato do pai, isto é, do soberano, isto é, da posição de opressor vivenciada, como função, pelo discurso do mestre, sempre considerando que o semblante se realiza como uma deriva fatal das relações sociais de produção entre opressores e oprimidos historicamente situadas, razão pela qual: i) existe uma interface imanente entre psicanálise e materialismo histórico; ii) o inconsciente individual é uma variável do inconsciente social e este é um efeito das relações sociais de produção; iii) há o inconsciente do capitalismo realmente existente, sobretudo considerando a sua fase imperialista contemporânea em que o discurso do mestre se faz semblante com o dólar como parasita-mor dos povos, endividando-os e escravizando-os ao semblante, no contemporâneo, da algoritmização dos seres, transformados cada vez mais em “tigres de papel”; iv) há um inconsciente-histérico que se incursiona, sempre pelo conflito, para um mundo que não fosse o semblante do capitalismo monopólico, dolarizado e em processo adiantado de algoritmização do ultraimperialismo estadunidense.

E o “discurso que não fosse o semblante”, como se cifra?

Há quatro formas de interagir com o vazio, na estrutura; e a primeira, a do discurso do mestre, ironicamente é assim apresentada por Lacan no Livro 17: “desde que ele entra no campo do discurso do mestre, em que estamos tentando nos orientar, o pai, desde a origem, é castrado (Lacan, 1992,p.94)”. O discurso do mestre se expressa necessariamente como o vazio cifrado pelo pai castrado, na origem, porque é o antípoda do discurso do analista; e o é por ser o esteio do semblante, compreendido, o semblante, como a contenção cultural-ideológica e psíquica; a prisão, a limitação dos seres. O discurso da universidade, por sua vez, constitui-se como o gozo plenamente morto, porque funciona como uma deriva sem vazio, sem futuro, sem alteridade, castração de um saber sem lastro na vida real e, assim, saber de sua submissão, ainda que presunçoso, ao pai castrado, invocando-o sempre na própria existência subordinada, humilhada, avassalada: “Não vês que estou queimando!?”

Para o psicanalista francês, retomando o caso Dora, apresentado por Freud em “Fragmento da análise de um caso de histeria” (1905), o discurso que não fosse o semblante cifra-se com a histérica, a que se marca positivamente como aquela que diz não à relação entre poder (discurso do mestre) e saber ( discurso da universidade); a que, como histérica, evidencia que o pai ( o discurso do mestre) é castrado; a que aciona o movimento propiciado pelo vazio que existe em tudo que há; a que demarca o gozo do idiota saber da universidade como o gozo que se concebe como, na prática, realização de um vazio castrado, cifra em gozo fálico e edípico de todas as formas de poder-repressão, poder sobre, poder soberano, unipolar, genocida, escravista, feudal, colonizador, capitalista, imperialista; tigres de papel, que, não obstante, no interior do semblante psíquico e social, queimam-se como zumbis pelo pai; e este, no contemporâneo, tem cada vez mais assumido o perfil de oligarcas do Vale do Silício, serial killers armados até os dentes com semblantes algorítmicos perante bilhões de usuários dotados cada vez mais de um saber algoritmizado.

E o lugar do discurso do analista?

Louis Althusser, em Marx e Freud (1976, p. 33-34), ao analisar a relação possível entre a psicanálise e o marxismo, argumentou: i) que ambos são incompatíveis com certo modelo de razão; ii) que ambos são uma forma de ciência sui generis por se inscreverem na dimensão irracional e conflitiva da vida individual e social; iii) e irracional porque a base psíquica e social de todas as formas de irracionalidade, sob o prisma do inconsciente, é a existência do semblante, configurado na relação castrada entre discurso do mestre e o discurso da universidade e, sob o ponto de vista do marxismo, é a expropriação do trabalho coletivo realizada por uma minoria, por meio de uma multitudinária e imparável guerra de classes; iv) que o objeto da psicanálise é o inconsciente, compreendido dialeticamente como o inconsciente do semblante e o inconsciente de um discurso que não fosse o semblante; v) e, o do marxismo, é a luta de classes como motor da história, tendo como filosofia da práxis o materialismo histórico, saber que não é o discurso da universidade, mas o do inconsciente revolucionário ou conteúdo primário das vidas dos oprimidos de todos os tempos e lugares; vi) que há, no horizonte, o discurso do analista, perspectivado, na psicanálise, como um mundo sem semblante, sem discurso do mestre e sem discurso da universidade; vii) que, para o materialismo histórico, o discurso do analista equivale à sociedade comunista, a dos produtores livremente associados.

O inconsciente edípico do semblante da dominação estadunidense

Há o inconsciente estruturado como um semblante e há o inconsciente estruturado como um discurso que não fosse o semblante. No primeiro caso, domina a relação existencial e subjetiva poder-saber – discurso do mestre e discurso da universidade; é fundamentalmente uma relação exterior à vida, que se impõe à vida, tanto a do discurso do mestre quanto a do discurso da universidade, razão por que o discurso do mestre é castrado e o discurso da universidade é o gozo morto do idiota; relação que se estende à interação metabólica sociedade e natureza, a partir da qual a sociedade ( estruturada em termos de polaridade entre classes) se torna o discurso do mestre em face à natureza, poder-saber sobre, acumulando, de modo contraecológico, tanto a violência do ser castrado, o discurso do mestre, quanto a do ser que deseja, ao nível do inconsciente submetido, que os ecossistemas também sejam como si: “pai-sociedade, não vês que a natureza moribunda está queimando?”

O inconsciente como semblante da relação discurso do mestre e discurso da universidade é um inconsciente edípico, nos seguintes termos: i) o do Édipo freudiano-familiar, representado pelo enredo melodramático do triângulo edípico, pai, mãe, filha, filho, como unidade mínima do semblante, podendo assumir formas distintas em diferentes perfis familiares, como os homoafetivos, com a tendência de reproduzir a relação entre o discurso do mestre e o discurso da universidade no âmbito do imediato-vivido das relações amorosas e do cuidado reprodutivo; ii) o do Édipo do capital-discurso-do-mestre euro-norte-americano e do trabalho alienado, como, no sentido mais amplo, instância mundial do discurso da universidade, unidade máxima, embora dinâmica, de uma estrutura mundial edípica, hoje, sionista-estadunidense, que impõe (ou tenta, por todos os meios) um sistema planetário de edipianização sionista dos povos ideologicamente estruturado pela metáfora literal, empirista e cinematograficamente editada e reeditada pelo retorno ao Antigo Testamento e pela travessia do Mar Vermelho.

PanAmerica, e a antropofagia da contracultura do Édipo sionista estadunidense

No Brasil, o escritor e cineasta que compreendeu a edipianização sionista e cinematográfica, base do semblante do ultraimperialismo estadunidense, foi o tropicalista nascido em São Paulo, José Agrippino de Paula. Figuras como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, Rita Lee, Nara Leão, Torquato Neto, Gal Costa, em maior ou menor medida, protagonizaram, nas artes, o movimento da contracultura, à brasileira, a saber, o Tropicalismo.

Antecipo, desde já, que interpreto a contracultura, entre as décadas de 60 a 90 do passado século, com epicentro na de sessenta, como a estrutura fetichizada do semblante do hegemon norte-americano do período da primeira guerra fria, assim perspectivado: i ) discurso do mestre, proprietário da indústria cultural estadunidense, a produzir narrativas (fílmicas, literárias, radiofônicas, musicais, “teóricas”) que publicizavam a sua condição de líder absoluto do capitalismo ocidental, tendo como como principal objetivo derrotar o eixo socialista e sobretudo a URSS, usando, como artifício, a guerra cultural e, no interior desta, a invenção da juventude - Hollywood, nesse contexto, tornou-se a principal indústria do hegemon-mestre EUA; ii) discurso da universidade ou da servidão voluntária realizado em tempo real pelo “não vês que estou queimando?” da juventude transviada, porra-louca, anarquista, irracional, drogada – Maio de 1968 na França foi, sob esse aspecto, a primeira revolução colorida estadunidense usando a juventude como arma de guerra, no caso, contra a tentativa de Charles de Gaulle de sair do eixo de dominação do dólar, estocando ouro.

José Agrippino de Paula foi um escritor que, não obstante encarnasse o semblante do discurso da universidade do seu período histórico, exerceu, como criador, momentos de histerismo rumo a um discurso que não fosse o semblante, por meio da técnica estético-antropofágica de um realismo alegórico assentado na crítica ficcional ao discurso do mestre castrado estadunidense. De modo antropofágico, conseguiu, nos limites anarquistas que lhe diziam respeito, ruminar a contracultura estadunidense, colocando-a contra si mesma. No seu romance PanAmérica (1967), o enredo da narrativa é o seguinte: começa com um cineasta, que se supõe ser brasileiro, designado marcialmente como Eu, dirigindo um filme epopeico da travessia do Mar Vermelho. Os personagens da narrativa são, Burt Lancaster, Anjo do Senhor, Che Guevara, Marilyn Monroe, Cary Grant, representando o Moisés, Yul Brynner, representando Deus, John Wayne, Marlon Brando, Andy Warhol, Joe Di Maggio, Carlo Ponti, papa Paulo VI, Luther King, Dom Quixote, De Gaulle, Hitler, Kennedy, Churchill muito gordo, Marx, Napoleão, Gandhi.

O capítulo inicial é o Estúdio F, o da travessia do Mar Vermelho, terminou abruptamente com um acidente em certo sentido previsível porque o filme (o romance) se propõe a ser realista, posição assumida pelos próprios atores hollywoodianos, motivo do seguinte fragmento da narrativa: “Eu gritei irritado com Burt dizendo que eu pretendia colocar o seu double na cena da fuga dos judeus, mas que ele é que havia insistido para ser ele mesmo o Anjo do Senhor”( De Paula, 1988, p. 10). Burt, como Anjo do Senhor, deveria mediar o encontro de Deus, Yul Brynner, com Moisés. Atento ao desafio, o diretor perguntou a respeito aos assistentes que “responderam que Yul Brynner e Gary Grant e já tinham ensaiado os diálogos entre Deus e Moisés” (DE Paula, 1988, p.11).

Leio, a propósito, a passagem do romance de Agrippino de Paula, “já tinham ensaiado o diálogo entre Deus e Moisés”, apresentada no parágrafo anterior, reforçando a instância “entre”, entre Deus e Moisés; o entre como o vazio castrado do discurso do mestre (Deus) e o discurso da universidade, Moisés, semblante da edipianização sionista da dominação cultural de EUA, tendo em vista: i) que a expressão “já tinham ensaiado”, remetendo ao passado, replica a sentença, no contexto bíblico, “está escrito!”, isto é, determinado, preestabelecido, predestinado como Antigo Testamento; ii) se o vazio castrado do semblante da dominação edípica estadunidense implica um “já está escrito”, um diálogo entre Deus e Moisés realizado antes do antes, isso significa que o durante e o depois, ou o presente e o futuro funcionarão como a reescrita das origens supostamente sagradas ( não esqueçamos, com Lacan, o pai, na origem, é castrado); iii) no livro O ultraimperialismo americano e a antropofagia matriarcal da literatura brasileira (2018), analisei PanAmérica como romance em que o Mar Vermelho se tornou, na encruzilhada ideológica do sistema imperialista anglo-saxônico e sionista, a própria história da humanidade, de modo que esta tende a ser concebida como travessia do Povo Escolhido ( os sionistas anglo-americanos, associados à elite judaica revisionista) rumo ao mesmo tempo às origens míticas da Terra Prometida (Plymouth para os EUA e Greater Israel, para os judeus sionistas) e ao Juízo Final.

Para entender como funciona a edipianização do semblante do hegemon estadunidense-sionista, recorro ao conceito de alegoria desenvolvido por Fredric Jameson no livro O inconsciente político: a narrativa como ato socialmente simbólico (1992, p. 28). É descrito a partir de quatro níveis: i) o literal ou o referente histórico, que é, no caso em tela, a travessia do Mar Vermelho pelos judeus, como povo escolhido por Deus, para, em linhas gerais, realizar o êxodo liderado por Moisés em fuga do faraó egípcio; ii) o alegórico, que se faz como a chave alegórica ou código interpretativo e paralelo do referente histórico, razão pela qual o mito da fundação dos EUA pelos Pais Peregrinos, em 1620, pode ser analisado como uma narrativa alegórica do êxodo judaico, bastando substituir o Mar Vermelho pelo Oceano Atlântico e o Egito pela Inglaterra e, por extensão, pela Europa; iii) o moral que diz respeito à leitura psicológica do sujeito individual nos níveis i e ii; iv) o anagógico, que aponta para o significado coletivo da história.

Nesse caso, o discurso do mestre representa-se na narrativa pelo Livro do Êxodo, com o retorno à Terra Prometida. Deus, no céu, e Moisés, na Terra, são os pais primevos da família edípica sionista. O discurso da universidade, sobredeterminado pela Tábua da Lei, logo sagrado, encarna-se nos escolhidos, os filhos edípicos de Moisés ( de Deus), a saber, os norte-americanos e, por extensão, os anglo-saxônicos. Delineia-se, assim, o Édipo sionista no plano familiar, dos escolhidos e excepcionais, plano que remete ao significado coletivo da história, a saber: o inconsciente político de um povo escolhido para realizar o êxodo e este se compreende como fuga da história, da realidade, em um contexto em que a própria Terra, com seus povos e ecossistemas, torna-se o Mar Vermelho, só restando, como alternativa um: “Pai, não vez que estou queimando?!’

Bomba, bomba, bomba; eis a palavra de ordem da travessia alegórica dos Pais Peregrinos ( todos os presidentes de EUA, independentemente quais sejam) pelo planeta Terra, tendo como Tábua da Lei o Vale do Silício, no contemporâneo, como nova instância da Indústria Cultural, produzindo antes de tudo contraculturas; o Pentágono, a Casa Branca, o dólar, o combustível fóssil, as oligarquias rentistas e aliadas, os Estados submetidos, com seus burocratas políticos, empresariais, jurídicos, educacionais; os escolhidos para serem os indivíduos ( a psiquê ) do semblante edípico do eterno Êxodo do ultraimperialismo estadunidense-sionista, que, de 1950 a 1991, foram os filhos da contracultura da primeira guerra fria do Estado de bem-estar social estadunidense, como, no contexto brasileiro, os Tropicalistas, os roqueiros, os poetas marginais, os porra-loucos, os anarquistas; e, a partir deste século, no contexto do Estado neoliberal da segunda guerra fria, os identitários, representantes da exquerda puritana, sempre fora da realidade concreta, etéreos como Ariel, personagem da peça A tempestade de William Shakespeare, assim como os identitários de direita, dispostos a morrer pelo discurso do Mestre, e existem para queimar a realidade e são como Calibã, personagem também de A tempestade.

Ambos, Ariel e Calibã, odeiam-se e suas pugnas sem fim são o inconsciente edípico do semblante sionista, “Pai, não vês que estou queimando!?”, é o que gritam, sem cessar, produzindo como efeito fatal o cancelamento da realidade e da soberania nacional, existindo sobretudo para cancelar os histéricos de um discurso que não fosse o semblante de um país submetido, avassalado, humilhado, sem dignidade, sem mercado próprio, sem soberania cultural, tecnológica, econômica, militar.

Os “Arieis e Calibãs” do discurso do saber da universidade, enfim, existem para cancelar Alyssons Mascaros, Sílvios Almeidas; os materialistas históricos que recusam a ocupar o lugar do discurso da universidade que, aliás, sob o nome de USP, demitiu covardemente o seu jurista mais revolucionário, o jurista e pensador de um discurso que não fosse o semblante da servidão voluntária das instituições universitárias brasileiras, que têm sido, não obstante seus histéricos, de repetidoras do poder-saber das metrópoles ocidentais.

Retomando PanAmérica em Hollywood: o cinema total sionista estadunidense

Em PanAmérica, como romance do Mar Vermelho do hegemon sionista-estadunidense, Agrippino de Paula conseguiu um estranho estatuto realista porque é uma narrativa em que tudo, a vida, a história, o mundo, é estúdio de estúdio, indefinidamente editável e reeditável para ser cancelado, de modo que o semblante edípico de EUA funciona, na narrativa, como um cinema total – tudo é cinema, narrativa, artifício. Pouco importa, assim, que o filme epopeico sobre a travessia do Mar Vermelho, narrado no primeiro capítulo da obra, não tenha dado certo, pois é só um estúdio, o Estúdio F, não sendo casual que o narrador, no capítulo seguinte, viaje para Los Angeles, isto é, para Hollywood, porque tudo é Hollywood e Hollywood é Moisés na era do cinema total norte-americano; é o Moisés que aprendeu a jogar com o Bezerro de Ouro, transformando-o na história dos povos não escolhidos, destruindo-os, os povos, fazendo cinema com estes, e sempre editando-os como “não vês que estou queimando?!”. Faroeste!

É preciso, no entanto, fixar a atenção ao título do romance, com sua ambiguidade estratégica, PanAmerica, remetendo à Doutrina Monroe, toda a América, incluindo a Central e a Sul-Americana, é de Estados Unidos; e também a de uma única América, a histérica, a de um discurso que não fosse o semblante do mestre ultraimperialismo sionista estadunidense. É essa outra América que registra a contranarrativa da obra, como romance que não fosse o semblante e, no seu capítulo final, plasmou o colapso do mundo das Tábuas da Lei do discurso do saber da universidade sionista estadunidense, expressando-se, assim, antropofagicamente: “O peixe cósmico estava em decomposição e a carcaça imóvel desapareceu atacada por micróbios” (De Paula, 1988, p. 255).

Enredado em duas guerras sucessivas, a da Coreia (1950-1953) e a do Vietnã (1965 a 1975), os EUA entraram em crise, transformando-se em imperialismo do superávit orçamentário para se tornar o país do déficit; de credor a devedor, de produtivo a improdutivo. Nesse contexto, à época da escrita de PanAmerica, “o peixe cósmico EUA estava em decomposição”. José Agrippino de Paula escreveu o romance procurando retratar, alegoricamente, o país em que tudo é cinema, inclusive a realidade, evidenciando que esta se desmoronava, cinematograficamente, como ocorreu no desfecho do capítulo 18 em que Carlos Ponti, representando o cinema europeu (Cinecittà), e Di Maggio, o norte-americano (Hollywood), disputaram entre eles quem mais devorava bois; “e qualquer um dois que vomitasse seria desclassificado. Todo o alimento ingerido deveria sair pelo cu, acrescentou o juiz da disputa entre os dois (De Paula, 1988, p. 227).

Di Maggio perde a batalha antropofágica. “Instantes depois, os últimos estúdios de Hollywood desapareceram no grande orifício negro e eram sorvidos pelo vento. Aparecia na imensa tela de televisão o grande rombo escuro aberto na terra e que era há poucos instantes o lugar ocupado por Hollywood” (De Paula, 1988, p. 200). Carlos Ponti, o vitorioso, decretou: “Il gineceu degli adolescenti è di mia proprietà e tutti seramo trasportati a Cinecittà” (De Paula, 1988, p. 232).

Sem Hollywood, o vazio ocupado pelo significante mestre do ultraimperialismo sionista estadunidense, a partir do qual todas as guerras (está escrito), mesmo perdidas, são vencidas, em estúdios de estúdios, cinematograficamente, sem Hollywood, repito, no romance de Agrippino de Paula, ocorreria o seguinte: “O gigante Lyndon Johnson soltou um estrondoso espirro e um grande número de homens e mulheres foi lançado para fora da raiz” (De Paula, 1988, p. 254).

Trata-se de um semblante, o dos Pais Peregrinos, que é, ele mesmo, um cinema, ainda que seja de um adolescente, “Il gineceu degli adolescenti”. E porque aonde se vá, tudo é Mar Vermelho, tudo pode virar um novo estúdio. Restava aos EUA, assim, produzir um novo estúdio; o estúdio não mais da primeira guerra fria estadunidense da juventude transviada contra o eixo socialista, mas o estúdio da segunda guerra fria, a era do ultraimperialismo do cartão de crédito, deficitário, e que teve como um de seus arquitetos geopolíticos ( um diretor do cinema total estadunidense) ninguém menos que Brzezinski, assim perspectivado por Luiz Alberto Moniz Bandeira, no livro A segunda guerra fria (2013): “Brzezinski, porém, cria que a guerra santa (Jihad) contra os soviéticos no Afeganistão, a revolução fundamentalista no Irã, o forte apoio aos mujahidin e a instituição da lei islâmica (Shari’ah), no Paquistão, pelo presidente Muhammad Zia-ul-Haq – todos esses fenômenos similares refletiam um despertar generalizado de uma de uma orientação mais autoassertiva, baseada na etnicidade e na fé islâmica.(Bandeira, 2013, p. 34).

Esse é o estúdio do cinema total estadunidense-sionista, o da segunda guerra fria ou da guerra santa contra as histéricas, o materialismo histórico, a soberania nacional, a laicidade do Estado-nação. Os puritanos pequeno-burgueses da exquerda ( Ariel de eu sou mulher negro, homoafetivo, índio...) sem lastro na realidade concreta, assim como o fenômeno do bolsonarismo no Brasil, com lastro na contracultura popular neopentecostal, são a versão brasileira do saber da universidade. No primeiro caso, militam (não vês que estou queimando?!) fanaticamente seguindo teorias dos estúdios acadêmicos de EUA como ancestralidade e decolonialismo; no segundo, o Antigo Testamento revisionado, isto e, reeditado como cristianismo que não é cristianismo e judaísmo que não é judaísmo, amalgamando a ambos, como partes do cinema total sionista-estadunidense.

Na era da juventude transviada da primeira guerra fria, o que se cancelava, pelo fetichismo da juventude liberada, era o adulto, índice da condição adulta, da lucidez, da memória histórica, da ponderação e da racionalidade. Na era da exquerda pequeno-burguesa e do neopentecostalismo popular, à direita, o que se cancela, no primeiro caso, a pretexto de empoderar-se, não é apenas hétero e o branco, mas sobretudo todos os perfis que pertencem às classes populares, entregando-as de graça à extrema direita; e sobretudo o homem de esquerda (o gênero e a etnia é o conteúdo manifesto). No segundo caso, por sua vez, o que se cancela não é a exquerda, mas o país soberano, sendo que o papel da exquerda, como discurso da universidade, em face do discurso do mestre puritano, é: empoderar os antinacionais, com a vanguarda da retaguarda do próprio povo se queimando como tigre de papel.

Quase conclusão

Contra o cinema total norte-americano, que é guerra total contra os povos, a realidade histórica material, concreta de um discurso que não fosse o semblante, com nomes como China, Rússia e, sobretudo, Irã, país que efetivamente evidenciou que Tio Sam, com seu Antigo Testamento sionista, é, de fato, um castrado tigre de papel, na origem e no Destino Manifesto.

Referência

ANDRADE, Oswald. "Manifesto antropófago". In: Do Pau-Brasil à antropofagia às utopias. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1970, p. 14-15. BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. A segunda guerra fria: geopolítica e dimensão estratégica de Estados Unidos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013. DE PAULA, José Agrippino de. PanAmérica. 2. ed. São Paulo: Editora Max Limonad, 1988. FREUD, Sigmund. A interpretação de sonhos. 2ª parte. V. 5. Trad. Waldefredo Ismael de Oliveira. Rio de Janeiro: Imago, 1972. FREUD, Sigmund. "Fragmento da análise de um caso de histeria". In: Obras Completas. Um caso de histeria, três ensaios sobre sexualidade e outros trabalhos (1901/1905), vol. VII. Trad. Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996. ALTHUSSER, Louis. Freud e Lacan – Marx e Freud. Trad. Walter José Evangelista. Rio de Janeiro: Graal, 1991. JAMESON, Fredric. O inconsciente político: a narrativa como ato socialmente simbólico. Trad. Valter Lellis Siqueira. São Paulo: Editora Ática, 1992. LACAN, Jacques. O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Trad. M. D. Magno. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985. LACAN, Jacques. O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Versão brasileira de Ary Roitman. Consultor: Antonio Quinet. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992. LACAN, Jacques. O seminário, livro 18: de um discurso que não fosse semblante (1971). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009. SHAKESPEARE, William. A tempestade. Trad. Rafael Raffaelli. Florianópolis: Ed. UFSC, 2014. SOARES, Luis Eustáquio. O ultraimperialismo americano e a antropofagia matriarcal da literatura brasileira. Vitória: Editora DLL, 2018.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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