Megalópole x Rússia: Guerra Total

A Operação Z é a primeira salva de tiros de uma luta titânica

www.brasil247.com -
(Foto: REUTERS/Alexander Ermochenko)


Por Pepe Escobar 

(Publicado no site The Saker, traduzido por Rubens Turkienicz com exclusividade para o Brasil 247)


CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Após uma cuidadosa avaliação, o Kremlin está rearranjando o tabuleiro de xadrez geopolítico para acabar com a hegemonia unipolar da “nação indispensável”

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Mas é o nosso destino / Não ter lugar algum para descansar, / Enquanto mortais que sofrem / Caem cegamente e desaparecem / De uma hora / 

Para a outra, / Como água caindo / De penhasco em penhasco / Durante anos, para a incerteza.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Holderlin, A Canção do Destino de Hyperion 


A Operação Z é a primeira salva de tiros de uma luta titânica: três décadas após a queda da URSS e 77 anos depois do final da Segunda Guerra Mundial, após uma cuidadosa avaliação, o Kremlin está rearranjando o tabuleiro de xadrez geopolítico para acabar com a hegemonia unipolar da “nação indispensável”. Não espanta que o Império das Mentiras tenha pirado completamente, obcecado em expelir completamente a Rússia do sistema Ocidento-cêntrico.

Os EUA e os seus filhotes da OTAN não podem possivelmente assumir a sua perplexidade quando se veem frente a uma perda assombrosa: não existe mais o direito de permitir o uso geopolítico exclusivo da força para perpetuar os “nossos valores”. Não existe mais a Dominação de Amplo Espectro.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

O micro-quadro também está claro. O Estado Profundo (Deep State) dos EUA está ordenhando até os Quintos dos Infernos (Kingdom Come) a sua jogada planejada para a Ucrânia de disfarçar o seu ataque à Rússia. O “segredo” foi forçar Moscou a entrar numa guerra intra-eslávica na Ucrânia a fim de quebrar [o gasoduto] Nord Stream 2 – rompendo assim a dependência alemã dos recursos naturais russos. Isto acaba – pelo menos para o futuro previsível – com a perspectiva de uma conexão Bismarkiana russo-alemã que, em última análise, causaria a perda para os EUA do controle do continente eurasiano que se estende do Canal Inglês ao Pacífico para um pacto China-Rússia-Alemanha.

Até agora, a jogada estratégica dos EUA tem funcionado maravilhas. Mas a batalha está longe de acabar. Os silos psico-neocon  dentro do Estado Profundo (Deep State) consideram tanto a Rússia como uma ameaça séria à “ordem internacional baseada em regras”  que estão dispostos a arriscar, senão a incorrer, numa guerra nuclear “limitada” fora da sua jogada. O que está em jogo é nada menos que a perda do [esquema de] ‘Mandar no Mundo’ pelos Anglo-Saxões.

Dominando os Cinco Mares

Baseada na paridade do poder de compra (PPP – Purchasing Power Parity), a Rússia é a sexta economia do mundo – logo após a Alemanha e à frente tanto to Reino Unido quanto da França. A sua economia “dura” é similar à produção da U.S. Steel – pode até ser a mesma -, porém a sua capacidade intelectual é vastamente superior. A Rússia tem aproximadamente o mesmo número de engenheiros que os EUA, mas estes são muito mais bem educados.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

O Mossad (serviço de espionagem israelense) atribui o milagre econômico de Israel em criar um equivalente ao Vale do Silício na de um milhão de imigrantes russos. Este Vale do Silício israelense foi um ativo-chave do MICIMATT (Military-Industrial-Congressional-Intelligence-Media-Academia-Think-Tank complex) [complexo militar-industrial-congressional-inteligência-mídias-academia-centros-de-estudo) – como foi indelevelmente cognominado por Ray McGovern.

As mídias do OTANistão dizendo que o PIB da Rússia é do tamanho daquele do Texas é bobagem. PPP é o que realmente conta; isso e o fato de que os engenheiros superiores da Rússia são a razão pela qual as suas armas hipersônicas estão pelo menos duas ou três gerações à frente dos EUA. Basta perguntar ao indispensável Andrei Martyanov.

O Império das Mentiras não tem mísseis defensivos que mereçam este nome e nenhum equivalente ao Mr. Zircon e o Mr. Sarmat. A esfera da OTANostão simplesmente não consegue vencer uma guerra, ou qualquer guerra, contra a Rússia por esta razão apenas.

A ensurdecedora “narrativa” do OTANistão de que a Ucrânia está derrotando a Rússia sequer se qualifica como uma piada inócua (compare isso com a estratégia russa de “Entrar em Contato e Tocar Alguém”). O sistema corrupto dos fanáticos do SBU, misturado com as facções UcroNazistas está acabado. O Pentágono o sabe. A CIA não consegue admiti-lo como possível. O que o Império das Mentiras meio que venceu, até agora, é uma “vitória” nas mídias para os UcroNazistas e não uma vitória militar.

O General Aleksandr Dvornikov, famoso desde a Síria, tem um mandato claro: conquistar todo o Donbass, libertar totalmente a Crimeia e preparar a ofensiva na direção de Odessa e da Transnístria, enquanto reduz a traseira da Ucrânia ao status de estado falido, sem acesso ao mar.

O Mar de Azov – ligado ao Mar Cáspio pelo canal do Don-Volga – já é um lago russo. E o Mar Negro é o próximo, a conexão-chave entre o continente e o Mediterrâneo. O sistema dos Cinco Mares – Negro, Azov, Cáspio, Báltico e Branco – consagra a Rússia como uma potência naval continental de facto. Quem precisa de águas mornas?

Movendo-se “à velocidade da guerra”

De agora em diante, o mostrador da dor subirá sem parar. A realidade – como fatos no terreno – logo ficará aparente, mesmo para a LugenPresse [Mídia de Mentiras (Lügen)] abrangente do OTANistão.

O chefe “woke” do Estado Maior das Forças Armadas dos EUA, Gen. Mark Milley, espera que a Operação Z dure anos. Isso é bobagem. As forças armadas russas podem se dar ao luxo de serem bastante metódicas e tomarem o tempo necessário para desmilitarizar adequadamente a Ucrânia. O Ocidente coletivo, da sua parte, está pressionado pelo tempo – porque o contragolpe da economia real já está operando e é obrigado a se tornar vicioso.

O Ministro da Defesa [russo] Shoigu deixou bastante claro: quaisquer veículos da OTAN que tragam armas para Kiev serão destruídos como “alvos militares legítimos”.

Um relatório feito pelo serviço científico do Bundestag [parlamento federal alemão] comprovou que o treinamento de soldados ucranianos em solo alemão pode ser considerado como participação na guerra, segundo as leis internacionais. E isso se torna ainda mais complicado quando é acoplado às entregas de armas da OTAN: “Somente se, em adição ao suprimento de armas, a instrução de participantes do conflito ou o seu treinamento para o uso de tais armas também for uma questão, isso deixa a área segura do “não-guerra”.

Agora fica pelo menos irreparavelmente claro que o Império das Mentiras “se move à velocidade da guerra” - como foi descrito publicamente por um vendedor de armas transformado em chefe do Pentágono – Lloyd “Raytheon” Austin [ministro da defesa dos EUA]. Em Pentagonês [a língua do Pentágono], isso foi explicado pela proverbial “autoridade” como “uma combinação de call-center, um centro de observação, salas de reuniões. Eles executam um ritmo de batalha para apoiar os tomadores de decisões.”

O “ritmo de batalha” pentagonês oferecido a uma suposta “força militar crível, resiliente e capaz de combater” é alimentado por um sistema EUCom que, essencialmente, passa as ordens de armas dos armazéns do Pentágono nos EUA para subsidiárias do Império de Bases na Europa e, dali, para o front leste da OTAN na Polônia – de onde são enviados por caminhão para a Ucrânia, bem a tempo de serem devidamente incinerados por ataques de precisão russos: a pletora de opções [russas] inclui mísseis supersônicos P-800 Onyx, dois tipos de [mísseis] Iskander e o Mr. Khinzal lançado de [aviões] Mig-31Ks.

O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, salientou que Moscou está perfeitamente ciente que os EUA, a OTAN e o Reino Unido estão transferindo não só armas, mas também montes de informações de inteligência. Em paralelo, o Ocidente coletivo vira tudo de cabeça para baixo 24/7, moldando um novo ambiente totalmente voltado contra a Rússia, sem se importar com sequer alguma aparência de parceria em qualquer área. O Ocidente coletivo sequer considera a possibilidade de diálogo com a Rússia.

Consequentemente, falar com Putin é “uma perda de tempo”, a não ser que uma “derrota russa” na Ucrânia (fazendo eco ao estridente relações públicas de Kiev) o tornasse “mais realista”. Apesar de todas as suas falhas, O Pequeno Rei (Le Petit Roi) Macron/McKinsey tem sido uma exceção, quando falou com Putin ao telefone mais cedo nesta semana.

A Hitlerização Orwelliana de Putin o reduz, mesmo entre a chamada Euro-intelligentsia, ao status de ditador de uma nação cloroformizada no seu nacionalismo do século XIX. Esqueça-se de qualquer semelhança com uma análise histórica/política/cultual. Putin é um Augustus tardio, travestindo o seu Império como uma República.

Na melhor das hipóteses, os europeus pregam e rezam – como chihuahuas obedecendo à Voz do Seu mestre – por uma estratégia híbrida de “contenção e enfrentamento” a ser desencadeada pelos EUA, papagueando desajeitadamente os rabiscos dos habitantes daquela 'no-fly zone' intelectual, o Think Tankland [a terra dos centros de estudo].

Na verdade, os europeus gostariam de “isolar” a Rússia – como se 12% da população mundial estivesse “isolando” 88% da população do mundo (obviamente, a sua “visão” Ocidentofixada ignora completamente o Sul Global). A “ajuda” para a Rússia só virá quando as sanções forem eficazes (leia-se: nunca; o contragolpe será a norma), ou – o sonho molhado último – quando houver uma troca de regime em Moscou.

A Queda

A agente de relações públicas UcroNazista Ursula von der Lugen apresentou o sexto pacote de sanções da (Des)União Europoodle. 

O topo da relação é excluir mais três bancos russos do SWIFT, incluindo o Sberbank. Já foram excluídos sete bancos. Isso fará cumprir o “isolamento total” da Rússia. É inútil comentar sobre algo que só engana a LügenPress [imprensa de mentira, em alemão].

Depois, vem o embargo “progressivo” nas importações de petróleo. Não haverá mais petróleo cru importado para a União Europeia dentro de seis meses, e não mais produtos refinados até o fim de 2022. Ficando como está, o IEA mostra que 45% das exportações de petróleo da Rússia vão para a União Europeia (sendo 22% para a China e 10% para os EUA). A Voz do Seu Mestre continua e continuará a importar petróleo russo.

E, obviamente, outras 58 sanções “pessoais” também são apresentadas, visando personagens muito perigosos como o Patriarca Kirill da Igreja Ortodoxa [Russa] e a esposa, o filho e a filha do porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov.

Esta assombrosa exibição de estupidez terá que ser aprovada por todos os membros da União Europeia. É garantida a revolta interior, especialmente da Hungria, ainda que tantos sigam dispostos a cometer um suicídio de energia e de bagunçar enormemente as vidas dos seus cidadãos para defender um regime neonazista.

Alastair Crooke chamou a minha atenção para uma interpretação surpreendente e original sobre o que está ocorrendo, oferecida em russo por um analista sérvio, o Prof. Slobodan Vladusic. A tese principal dele, resumidamente, é: “A Megalópole odeia a Rússia porque esta não é Megalópole – ela não entrou na esfera do anti-humanismo e é por isso que ela permanece sendo uma civilização alternativa. Consequentemente, aí está a Russofobia”.

Vladusic afirma que a guerra intra-eslava na Ucrânia é “uma grande catástrofe para a civilização Ortodoxa” - espelhando a minha recente tentativa de abrir um debate sério sobre o Choque de Cristianismos.

No entanto, o cisma maior não é sobre a religião, mas sobre a cultura: “A diferença-chave entre o antigo Ocidente e a atual Megalópole é que a Megalópole renuncia programaticamente à herança humanista do Ocidente.”'

Agora, então, “é possível apagar não só o cânone musical, mas também a herança humanística europeia inteira: toda a literatura, as artes finas, a filosofia” por causa de uma “trivialização do conhecimento”. O que sobra é um espaço vazio, na verdade é um buraco negro cultural, “preenchido por termos promocionais como 'pós-humanismo' e 'trans-humanismo'.”

E aqui, Vladusic chega ao cerne da questão: a Rússia se opõe ferozmente ao 'Great Reset' forjado pelas “hackeáveis” autodenominadas “elites” da Megalópole.

Sergey Glazyev, que agora coordena o rascunho de um novo sistema financeiro/monetário para a União Econômica da Eurásia (EAEU – Eurasia Economic Union) em parceria com os chineses, adota Vladusic para os fatos no terreno - aqui em russo e aqui numa tradução  imperfeita ao inglês [nota do tradutor: ver a tradução deste mesmo ensaio de Glazyev ao português, preparada para o Brasil 247].

Glazyev é muito mais brusco aqui do que nas suas meticulosas análises econômicas. Enquanto assinala os objetivos do 'Deep State' de destruir o mundo russo, o Irã e bloquear a China, ele salienta que os EUA “não serão capazes de vencer a guerra híbrida global”. Uma razão-chave para isso é que o Ocidente coletivo “colocou todos os países independentes frente à necessidade de encontrar novos instrumentos monetários globais, mecanismos de segurança de riscos, restaurar as normas da lei internacional e criar os seus próprios sistemas de segurança econômica.”

Sim, então, isto é 'Totalen Krieg' [guerra total, em alemão] – como Glazyev decifra sem atenuação, e como a Rússia denunciou esta semana na ONU: “A Rússia precisa se opor aos EUA e à OTAN na sua confrontação, levando-a à sua conclusão lógica, de modo a não ser despedaçada entre eles e a China, que está irrevogavelmente tornando-se a líder da economia mundial.”

A História poderá, 77 anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, registrar que os psicóticos neocons/neoliberalcons nos silos de Washington que instigaram a guerra inter-eslava ao ordenar que Kiev lançasse uma guerra-relâmpago contra o Donbass foi o que levou à Queda do Império dos EUA.

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

O conhecimento liberta. Saiba mais. Siga-nos no Telegram.

A você que chegou até aqui, agradecemos muito por valorizar nosso conteúdo. Ao contrário da mídia corporativa, o Brasil 247 e a TV 247 se financiam por meio da sua própria comunidade de leitores e telespectadores. Você pode apoiar a TV 247 e o site Brasil 247 de diversas formas. Veja como em brasil247.com/apoio

Apoie o 247

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Cortes 247

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
WhatsApp Facebook Twitter Email