Meio/Ideia confirma: é a economia, estúpido
Pesquisa reforça que o peso do custo de vida e do endividamento doméstico limita a melhora da avaliação do governo e impulsiona a oposição
A frase do marqueteiro de Bill Clinton, James Carville, segundo a qual é a situação econômica do eleitor que determina seu comportamento na hora do voto, parece, mais uma vez, retratar a realidade brasileira. É o que indica a última pesquisa Meio/Ideia, divulgada hoje.
Contudo, como já temos destacado neste espaço há bastante tempo, não são os grandes números da macroeconomia que estão influenciando o humor do eleitorado. Não se trata da inflação sob controle, dos menores níveis de desemprego da história, do aumento da renda média, da ampliação do número de carteiras assinadas, nem do crescimento do PIB ou do comércio externo.
O que pesa é a microeconomia doméstica — o endividamento, o dinheiro que não chega até o fim do mês e, também, os desejos de consumo não realizados. São essas realidades e sentimentos que hoje moldam o humor dos eleitores e que, ao mesmo tempo, criam um limite para a melhora da avaliação do governo Lula, abrindo espaço para o crescimento da oposição bolsonarista.
Como sintetiza Cila Schumann, CEO do IDEIA, em seu relatório: “Endividamento e custo de vida são temas fundamentais para a decisão do voto”.
Segundo a pesquisa Meio/Ideia — e aqui não cabe entrar nos números de intenção de voto, pouco relevantes neste momento —, 70% dos entrevistados afirmam que o custo de vida aumentou em relação ao ano anterior, ainda que em diferentes intensidades. Além disso, 40% dizem estar mais endividados do que há um ano.
Há, porém, um dado que merece atenção redobrada de qualquer estrategista: para 38% dos entrevistados — ou seja, quase 4 em cada 10 eleitores —, o custo de vida e o endividamento são fatores determinantes na definição do voto. Trata-se, na prática, da confirmação empírica da tese de Carville aplicada à realidade da economia familiar brasileira.
Estamos falando da economia vivida dentro de casa. É a realidade — e o sentimento — da porta para dentro que hoje influencia de forma decisiva o comportamento eleitoral. Isso ajuda a explicar, por exemplo, outro dado da mesma pesquisa: 51% dos entrevistados avaliam que Lula não deveria ter um novo mandato.
É claro que, olhando o copo meio cheio, após tantos anos de protagonismo político e exercício de governo, é natural haver desgaste. Nesse sentido, os 45% que defendem um novo mandato são, por si só, um percentual significativo. Ainda assim, considerando o desempenho econômico e, sobretudo, a comparação com o que representa um eventual novo governo Bolsonaro, desta vez representado pelo filho do anterior, seria razoável esperar indicadores mais favoráveis ao atual presidente.
O grande desafio, portanto, está em fazer o discurso e a prática dialogarem dentro da casa das pessoas. O diagnóstico, ao que tudo indica, já foi feito pelo governo — o debate sobre iniciativas de renegociação de dívidas é um exemplo. Mas é fundamental que a campanha, ou melhor, a pré-campanha, também incorpore esse eixo.
Não se trata de confrontar a percepção da população, mas de disputar o seu significado. Mostrar que, sem medidas como a isenção de Imposto de Renda, o Gás do Povo ou o ganho real do salário-mínimo, a situação poderia ser ainda mais difícil. E que a caminhada com Lula levará à mudança da realidade vivida.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



