Mercado de trabalho nos EUA: 172 mil vagas criadas surpreendem e complicam cenário global de juros
A combinação de emprego forte com salários mais moderados é exatamente o cenário que o banco central americano precisa para manter sua cautela
O relatório de emprego americano divulgado nesta sexta-feira trouxe um número bombástico: 172 mil vagas criadas em maio, quase o dobro do consenso de mercado, que girava entre 90 mil e 100 mil postos. A surpresa estatística — classificada como um evento de quatro desvios padrão — reforça a resiliência da economia americana e sinaliza que a desaceleração do mercado de trabalho segue acontecendo de forma muito mais gradual do que o esperado. As revisões dos meses anteriores também surpreenderam positivamente, revertendo uma sequência de ajustes negativos: março foi revisado de 185 mil para 214 mil vagas, e abril, de 115 mil para 179 mil, um acréscimo combinado de 93 mil empregos adicionais. A taxa de desemprego permaneceu em 4,3%, em linha com as expectativas, mantendo o mercado próximo do pleno emprego.
Os salários trouxeram a melhor notícia para o Federal Reserve. O ganho médio por hora avançou 0,3% no mês, e os salários crescem 3,4% em doze meses — o menor ritmo desde o pós-pandemia e um patamar compatível com a inflação próxima da meta. A combinação de emprego forte com salários mais moderados é exatamente o cenário que o banco central americano precisa para manter sua cautela sem apertar ainda mais a política monetária, reduzindo o risco de uma espiral de preços.
O número agregado do payroll, porém, esconde uma composição menos robusta. Em maio, os empregos em tempo integral caíram 79 mil, enquanto os de tempo parcial cresceram 266 mil, indicando que parte relevante da criação de vagas veio de postos mais precários. Há também uma divergência crescente entre as duas pesquisas do Bureau of Labor Statistics: enquanto a pesquisa com empresas aponta 163 milhões de empregados, a pesquisa domiciliar registra 159 milhões — uma diferença que, quando se amplia por vários trimestres seguidos, historicamente antecipa desaceleração. Outro sinal de alerta vem do desemprego de longo prazo: 2 milhões de pessoas estão sem trabalho há mais de 27 semanas, alta de 524 mil em relação ao ano anterior, representando 27,5% do total de desempregados.
A criação de vagas em maio foi concentrada em dois segmentos. O setor de lazer e hospitalidade liderou com 70 mil novas vagas em restaurantes, hotéis e turismo, enquanto o governo local contribuiu com 55 mil postos, com destaque para educação. O indicador de vagas abertas por desempregado chegou a 1,03, ainda acima do patamar pré-pandemia de 0,9, mas muito abaixo do pico acima de 2 registrado no auge do superaquecimento — sinal de que o mercado migra para um equilíbrio mais sustentável.
Para o Fed, o relatório é ambíguo: payroll forte pede cautela, salários desacelerando abrem espaço para cortes futuros, empregos parciais crescendo sugerem enfraquecimento gradual. O resultado mais provável é a manutenção da postura de espera. No Brasil, o impacto foi imediato: o dólar avançou para próximo de R$ 5,15, somando-se à deterioração já observada na quarta-feira, quando houve desmonte de posições em ativos brasileiros com os juros longos disparando para 14,30%. Com a inflação já acima de 3% em apenas quatro meses e expectativas para o ano contaminadas acima de 5%, o Banco Central brasileiro vê seu espaço para cortar a Selic encolher ainda mais diante de um dólar pressionado e de uma economia americana que, apesar dos sinais mistos, continua de pé. O mercado de trabalho americano já não corre como em 2022 e 2023 — mas ainda caminha com passos firmes o suficiente para complicar a vida de quem torce por juros mais baixos dos dois lados do Atlântico.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



