Mitos da integração urbana
Bom começo para a necessária guinada da cidade para o mundo social é a redução da propriedade privada nos marcos da cidade planejada, socialmente orientada e economicamente democratizada
Uma das grandes lástimas das emergências sociais contemporâneas matizadas pela ampla miséria humana que solapa todas as formas do viver pelo pauperismo sempre crescente em áreas urbanas e pelos desmantelamentos espaciais das cidades e que indefectíveis, se projetam com força e estigma nas reentrâncias da vida urbana e nos cotidianos do mundo social é, sobretudo e dramaticamente, a perversa derivação daí surgida e que vira comportamento e sentido social porque, conforme se verifica, educa o olhar, forja sensibilidades e orienta decisivamente as formas do pensar sobre os dilemas que clivam o urbano.
As replicações da feroz suburbanização nos indivíduos respeita o costructo de subjetividades e racionalidades de uma perversão sem limites. O principal legado cultural dessa lógica é a naturalização da miséria, é o nocivo e evidentemente equivocado pensamento que busca justificar o insucesso dos indivíduos a partir de impotências ou incapacidades pessoais, ou seja, o fracasso social ou econômico desta ou daquela pessoa é a resposta ao baixo envolvimento do indivíduo às exigências das dinâmicas de mercado, aos rigores de um mercado "sempre em expansão" e que não prescinde do melhor das qualidades humanas.
Não poderia ser diferente. O caos material gera caos imaterial. As pomposas ruínas da vida urbana edificam formas de alienação sumamente específicas ao posto e reposto cotidianamente pelo trabalho aviltado, alienado e subsumido pela fúria irremovível de um capitalismo integralmente monopolista/oligopolista.
Nesse particular, as possibilidades, bastante remotas de integração da cidade do capital, apropriada e excludente, perpassariam por intervenções estruturais na sua lógica de funcionamento. Em certa medida, a cidade de fato, democrática, não pode se realizar no conceito falacioso de uma democracia liberal, apropriada pelos amplos rodopios do capital e que, pela própria natureza, avança sobre espaços urbanos, reinventando culturas locais, redefinindo territórios e manipulando ecologias sociais e ambientais que marcam a cidade.
Nesta relação, a fluência do capital implica na massificação do urbano, ou seja, as expansivas do capital só acontecem na sua maior e mais pujante expressão na uniformização da vida social no sentido mais estreito e deletério deste termo.
Da trágica combinação da desativação social e dos seus movimentos populares com as incursões plenas do capital especulativo que ocorre na melhor tradição do "laissez faire" com a governança municipal limitada ao simbolismo de atividades eminentemente burocráticas e de pura e cínica legitimação das determinações administrativas e concorrenciais das empresas resulta a atual forma citadina ingovernável, antisocial, gentrificadora e produtora assídua e eficaz de miséria e indigência para a grande maioria das pessoas por um lado e de outro, fonte de opulência e de ostentação para uma muito reduzida fração da gente urbana.
Bom começo para a necessária guinada da cidade para o mundo social é a redução da propriedade privada nos marcos da cidade planejada, socialmente orientada e economicamente democratizada. Eficaz medida nesse sentido, é ampliar os espaços públicos e pô-los no serviço da promoção social e de sua plena e viva autonomia. De fato, uma medida que dá novo sentido e significado às governanças locais.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
