Moro e Bolsonaro na sala dos espelhos

O chumbo trocado entre os dois, afinal, é tal como um xifópago que se dispusesse a meter uma bala na cabeça do outro, sem ao menos desconfiar que ele também será adormecido. Tanto Moro quanto Bolsonaro andam na mesma corda: a mesma.

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Em entrevista dada em fevereiro ao jornal Estado de São Paulo, Rosângela Moro disse ver Jair Bolsonaro e Sergio Moro como “uma coisa só” (aqui). Será? Ou ela acerta, ou ela erra. Vamos ver. 

Sergio Moro, como bem sabemos, ao abrir a boca tem consolidado seu papel destrutivo contra o presidente Jair Bolsonaro. 

É claro que nunca fez sentido confiar em Moro. Que ele quer o poder parece óbvio. Há muito atua em nome desse projeto, sob o disfarce de um ex-juiz imparcial e guardião da moralidade da nação. Tenta a todo custo enfeitiçar as pessoas para não ser visto como um homem que tomava atitudes claramente inconstitucionais.

O ponto central aqui é que Moro é cofundador do governo Bolsonaro, e até onde vai a sua obstinação não se sabe. Claro que o universo de Moro centra-se no individualismo, enquanto muitos ainda acham que ele está prestando um serviço à nação. 

No plano pregresso, não penso que haja muito espaço para dúvida. Sergio Moro, o ex-ministro da Justiça de ontem, que fez o que fez, ao entregar um dossiê contra Bolsonaro, não é nada diferente do ex-juiz inquisidor que foi. Moro se tornou então uma versão pessoal e pungente do beijo da morte.

Afinal, Moro, enquanto juiz, foi o arrimo do golpe de Estado contra Dilma Rousseff e decisivo na perseguição a Lula, causando-lhe um dano irreparável. Não só. Na padronização que pautou o agir de Moro na condução da Lava-Jato, nos anos que vão de 2015 a 2018, está o conluio com o Ministério Público Federal, um “faz de conta” processual, farra que foi denunciada pelo The Intercept Brasil, talvez a reportagem mais impactante que já ocorreu no jornalismo investigativo brasileiro.

E na passagem de um polo a outro, na pura troca de lugar, do Judiciário ao cargo de ministro, vê-se que Moro é o mesmo de sempre. Como ministro da Justiça apenas clonou a sua violência de ex-juiz. Ele próprio, Moro, quando juiz na Lava Jato, grampeou advogados e vazou a delação de Palocci, fato que até beneficiou Bolsonaro. Mais ainda: vazou grampo ilegal da conversa entre Dilma e Lula. 

Agora, chamado de Judas por Bolsonaro, Moro prestou um depoimento de mais de 8 horas à Polícia Federal no último sábado (2), deixando o sujeito que ocupa a cadeira presidencial nas cordas. Apresentou um combo de possíveis crimes de responsabilidade e de infrações penais comuns. Entregou áudios e mensagens de WhatsApp para incriminar o presidente da República. Todavia, como é que Moro vai fazer para provar que Bolsonaro tenha cometido crimes, sem que ele (Moro) incorra em autoincriminação, é um salto duplo twist carpado.  

E agora? Bem, os dois personagens estão condenados a se odiarem por toda a eternidade, ao ponto de “moristas” e “bolsonaristas” irem ao cemitério cuspir na sepultura de um e de outro, haja vista o que aconteceu do lado de fora do prédio da Polícia Federal em Curitiba. (assista aqui)E assim segue a história, que, na ponta do lápis, soma esses dois personagens feitos em estufa especial. Um deles, o ex-juiz Moro, ungido midiaticamente por aclamação da Lava Jato, foi transformado em superministro da Justiça pelo próprio Bolsonaro. Lado outro, Jair Bolsonaro, um ultradireitista de codinome “mito”, é um centauro a cavalo que bateu à porta do Alvorada e ela se abriu. Pensa num golpe de Estado todo fim de semana e nunca mediu as palavras para atacar gays, negros, mulheres, artistas, cientistas e professores. Saudosista de torturadores, é a truculência em pessoa. Chegou até a homenagear personagens ligados à milícia, e disso sabe muito bem a alma perturbada do miliciano Adriano da Nóbrega (assista aqui). E de mitificação em mitificação, o Brasil chegou onde chegou. O país galopa à beira do precipício e parece não perceber que já está em curso alguns ensaios para um novo golpe de Estado. Enfraquecido pelas malsinações de Moro, Bolsonaro poderá tentar uma jogada de alto risco. Daí a necessidade de pôr fim ao fanatismo de Bolsonaro e de lhe dar o impeachment, já.Nessas horas, a verdade é que Luiz Antonio Simas foi preciso e no ponto: “a única coisa útil que Moro pode fazer na vida é destruir Bolsonaro. E “a única coisa útil que Bolsonaro pode fazer na vida é destruir Moro”. (aqui) Vamos falar claro: fica decretado que eles se merecem. Sabem por quê? Ora, porque um é o prolongamento do outro. Têm sede de poder e fome de autoritarismo. O chumbo trocado entre os dois, afinal, é tal como um xifópago que se dispusesse a meter uma bala na cabeça do outro, sem ao menos desconfiar que ele também será adormecido. Tanto Moro quanto Bolsonaro andam na mesma corda: a mesma.
 

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