Multilateralismo ou mandonismo?
Em um mundo cada vez mais multipolar, quantos países ainda estarão dispostos a obedecer quando Washington simplesmente mandar?
A cada nova ameaça de tarifas anunciada por Donald Trump, surge uma curiosa discussão no Brasil. Alguns tentam atribuir a determinados políticos nacionais um protagonismo que simplesmente não possuem, como se as decisões da maior potência do planeta estivessem sendo moldadas por articulações feitas nos corredores de Brasília.
A realidade costuma ser menos dramática e mais interessante.
O novo tarifaço anunciado por Trump não deve ser analisado a partir da influência deste ou daquele personagem da política brasileira. O que está em jogo é algo muito maior: a disputa sobre qual modelo de poder será capaz de exercer maior influência no mundo das próximas décadas.
Durante boa parte do século XX, os Estados Unidos ocuparam uma posição praticamente incontestável na ordem internacional. Sua força econômica, militar e cultural transformou o país no principal centro de poder global. Aliados e adversários organizavam suas estratégias levando em conta os interesses de Washington.
Mas o mundo mudou.
A ascensão da China, o fortalecimento dos BRICS e o crescimento econômico de outras regiões do planeta começaram a redesenhar o mapa do poder internacional. Pela primeira vez em muitas décadas, discute-se seriamente a possibilidade de uma ordem menos concentrada e mais multipolar.
É nesse contexto que as políticas de Trump merecem atenção.
Seu método é conhecido: pressão, ameaças, sanções e tarifas. A lógica é simples. Os Estados Unidos determinam as condições e os demais países devem se adaptar a elas.
No século XX, poder era a capacidade de dar ordens. No século XXI, talvez seja a capacidade de convencer outros países a seguir o mesmo caminho.
A China parece ter compreendido essa mudança. Em vez de se apresentar como chefe, procura apresentar-se como parceira. Investe em comércio, infraestrutura, financiamento e acordos multilaterais. Evidentemente, não faz isso por altruísmo. Como toda potência, busca ampliar sua influência e defender seus interesses. A diferença está no método.
Enquanto Washington frequentemente recorre à pressão, Pequim procura ampliar sua presença por meio da cooperação econômica. Enquanto Trump fala a linguagem da imposição, a diplomacia chinesa procura falar a linguagem das parcerias.
Não se trata de escolher mocinhos e vilões. Trata-se de compreender que diferentes estratégias produzem diferentes resultados.
A história das relações internacionais mostra que nenhuma hegemonia é eterna. Isso não significa que os Estados Unidos estejam prestes a desaparecer como potência. Continuam sendo uma força econômica, militar e tecnológica extraordinária. Mas também é verdade que já não exercem a mesma influência incontestável de décadas atrás.
Talvez estejamos assistindo ao início de uma transição histórica. Não necessariamente à substituição de uma potência por outra, mas ao surgimento de um sistema internacional em que diversos centros de poder convivem, competem e negociam entre si.
Se for esse o caso, existe uma ironia difícil de ignorar.
Na tentativa de reafirmar sua liderança por meio de tarifas e ameaças, Washington pode acabar incentivando outros países a fortalecer justamente as alternativas que desejava enfraquecer.
A História mostra que impérios raramente começam a perder influência por falta de força. Com frequência, o problema surge quando insistem em usar respostas antigas para um mundo que já mudou.
Talvez seja exatamente isso que estamos vendo acontecer.
A questão não é saber se os Estados Unidos continuarão sendo uma potência relevante. Continuarão.
A verdadeira questão é outra: em um mundo cada vez mais multipolar, quantos países ainda estarão dispostos a obedecer quando Washington simplesmente mandar?
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

