Nós, tristes personagens de Beckett



O território outrora reconhecido como paradisíaco, agora exala cheiro de morte. Do abrigo, observamos a terra devastada. As mortes não causam mais espanto. Naturalizou-se o absurdo. O importante, para os predadores, é salvar a economia. Mas, como disse Franco Berardi em entrevista recente: “se não conseguirmos imaginar um amanhã em que nos abraçaremos de novo, de que adianta todo o resto?”. E seguimos, como se a cada novo dia, rodeados por uma parede de concreto, fôssemos sendo emparedados debaixo do sol causticante que nos torra os miolos.

Nosso sepultamento é progressivo. Somos, como povo brasileiro, a reprodução da personagem Winnie, da peça Dias felizes (1961), de Samuel Beckett, que é lentamente enterrada, enquanto seu marido, Willie, mostra-se completamente indiferente. Assim, tal qual Winnie, tentamos nos agarrar às pequenas coisas que ainda nos restam. No caso da personagem, são alguns objetos que mantém na bolsa: um espelho, um revólver, uma lixa, um batom. No nosso caso, são algumas palavras de apoio, um mísero punhado de indignação e um pouco, quase nada, de esperança. Na tentativa de nos mantermos lúcidos, estabelecemos, como Winnie, uma rotina que, se por um lado nos anestesia, por outro prolonga e aumenta nossa dor. Samuel Beckett (1906-1989) é um dos principais dramaturgos do chamado Teatro do absurdo, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura no ano de 1969. Sua peça mais conhecida é Esperando Godot (1952) que, juntamente com Fim de partida (1957) e Dias felizes (1961) constituem uma trilogia que disseca a condição humana de maneira, no mínimo, perturbadora. A literatura de Beckett não busca atuar sobre o intelecto do público, mas sobre seus nervos. Para tanto, o autor constrói personagens solitários postos em alguma forma de isolamento e imobilidade, aparentemente desconectados da realidade. Mas apenas aparentemente. No drama beckettiano, os espaços são reduzidos, as ações são limitadas, e o texto é todo ele preenchido pela acídia, a ironia e pela elipse dos diálogos cortantes, bem como pela falta de horizontes possíveis.Incapazes de reagir ao atual estado das coisas, guardamos enormes aproximações com as personagens de Beckett, como se estivéssemos presos em uma das peças que compõe a referida trilogia. Em certo sentido, vagamos sem destino, como o fazem Vladimir e Estragon, os dois clowns que insistem em esperar Godot (E nós, o que esperamos?). Ou seríamos Lucky, personagem da mesma peça, conduzido por seu dono, Pozzo, por uma corda passada ao redor do pescoço, mas devidamente conformado com sua situação de oprimido? Também nos cabe muito bem as máscaras dos personagens de Fim de partida, como Clov, por exemplo, humilhado e ofendido por Hamm, um ditador autoritário, cego e insensível a tudo o que lhe circunda. Ou seríamos Nagg e Nell, também da mesma peça, “vivendo” em latas de lixo e sobrevivendo das sobras de comida que lhes são atiradas?  Como muitos dos personagens do dramaturgo irlandês, nós, brasileiros, nos apresentamos atualmente como sobreviventes de algum tipo de caos, de um “fim que está no começo e no entanto continua-se”. Assim, no ano em que completa sessenta anos, Dias felizes nos provoca reflexões acerca do que somos e daquilo que fazemos aqui, no presente eterno. A atualidade da referida peça, assim como de toda a trilogia em questão, cava fundo em nosso ser e nos empareda frente à realidade da qual não conseguimos fugir, por simplesmente não haver para onde. É imperativo lutarmos para que não percamos “os restos derradeiros da razão”. Por enquanto, estamos enterrados somente até a cintura. Por enquanto. E não custa advertir: Godot não virá!

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