O amor entre comunistas
É certo, reconheço: em matéria de amor, nem sempre os sentimentos mais íntimos acompanham a ética
Copio do meu romance “O que mantém um homem vivo”, ainda inédito:
“É certo, reconheço: em matéria de amor, nem sempre os sentimentos mais íntimos acompanham a ética. Um impulso, um passo em falso, uma embriaguez num dia pode nos pôr fora do círculo moral. Em mais de uma oportunidade, temos visto semelhantes declínios. Assim, pude ver um companheiro tentar algo mais da esposa de outro companheiro inválido. Senti aquilo, fiquei indignado, mas como a ação não se mostrou às claras, guardei minha desconfiança até hoje. Eu sei, à luz da viva experiência, que os comunistas não são novos santos. Em muitas ocasiões alcançam o heroísmo. Mas no amor, nem sempre seguem os mais retos caminhos. O coração é mais rebelde. Procura depois interpretar os retilíneos caminhos por curvas e atalhos. Se não seguir outros, completamente à margem.
Lembro do grande escultor Abelardo da Hora, comunista histórico do Recife, quando traiu a confiança do seu mecenas. Ele me falou como foi expulso da casa do pai de seu aluno Francisco Brennand. Abelardo vivia, trabalhava, dormia e comia na casa do patriarca Ricardo:
“— Toda manhã, quando eu me acordava, acordavam também aquelas filhas dele, do velho Ricardo, irmãs de Francisco, viu? E quando elas saíam para a escola, eu via aquela carinha de anjo… veja bem, isso todo dia, na cara do rapaz, de um adolescente, não tem quem aguente, não é? Veja bem. Então eu fiz uma escultura — a torre dos meus sonhos — veja bem, fiz uma escultura com uma mulher, em pé, entendeu? Dois cupidos brincando com a cabeleira dela, com uma placa que vinha atrás das costas dela, brincando com a cabeleira e um freguês abraçado com as pernas dela com a minha cara! Então veja bem. Todo o mundo notou isso… Quando eu levei a estátua pra sala, ficou aquele silêncio, um clima meio esquisito. Pesado.
— Mas ela estava vestida, não é?
— Vestida, mas com aquelas formas perfeitas, com aqueles seios lindos, dois cupidos brincando com a cabeleira dela, e o freguês abraçado com a saia dela era eu, com a minha cara, todo o mundo reconheceu. Quando foi na hora de dormir, Francisco me disse, ‘Da Hora, eu já vou subir’. Aí seu Ricardo tinha feito um gesto com a mão. Ele me disse: ‘Abelardo, como é que você faz uma coisa dessas comigo? Eu tratando você aqui como um filho, você vê que eu sou seu amigo, muitas vezes eu chamo você pra ouvir música, eu toco pra você, entendeu? E você fez um trabalho que é o mesmo que você estar querendo fazer amor com a sua irmã’. Eu respondi: ‘Seu Ricardo, não diga mais nada, que amanhã mesmo vou-me embora.’
E Abelardo completou, quando eu lhe fiz ver o quanto ele fora ingrato com um mecenas:
-Mas não tinha cristão que aguentasse aquela beleza!”.
Lembro do célebre dirigente Diógenes de Arruda Câmara ao conquistar uma senhora casada e com ela fugir por todo o mundo. “Era o amor”, ele dizia com justiça. O que significava: então havia de respeitar um contrato burguês? Lembro do grande Marighella, que atraía com o seu perfil guerreiro mais de uma mulher. “Eu não as buscava, elas chegavam”, ele falava. O que nem sempre era verdade. Mas quando elas chegavam, o que ele havia de fazer? Ele iria fugir?, perguntava o guerrilheiro a sorrir.
Mas nesse particular, o nosso amigo M. contava a sua tenebrosa luta, que lhe acontecera quando se achava clandestino em uma favela de Fortaleza. Ali, deitado em uma rede na casa de um companheiro, a esposa do dono da casa vinha procurá-lo, acariciando-o pela madrugada. Na época, M. possuía 23 anos de idade. Ele dizia que se esquivava, a se esconder do terror da atração que a mulher exercia sobre todos os sentidos. E não podia sair da casa, porque não tinha para onde ir. Nisso havia um conflito moral, que o cinismo dos espertos chamaria de conflito moral de seguidor de Cristo. Mas ainda que se misturasse à formação religiosa, a sua repulsa era também manifestação de inteligência. Como fazer sexo com a mulher do companheiro que dormia no quarto ao lado? Então ele, em silêncio, lutava, lutava. Seria como se ele acabasse de rezar, e depois de uma prece a mulher lhe passasse a mão pelo sexo, via-o endurecer, e continuasse mais sôfrega para descobri-lo liberto. M. se virava para o outro lado, pedindo a Deus que acabasse logo com aquela tentação. Mais tarde, iria até o banheiro masturbar-se. Pelo menos nesse ponto ele concedia.
Há mais, sem trocadilho. Era sintomático que para os comunistas, sob a ditadura brasileira, não houvesse homossexualidade feminina. O que era uma dupla ignorância: na primeira delas, homossexual só podia ser defeito de homem. Homo = homem, que não compreendíamos como espécie humana, mas como o macho. E nem sabíamos, nem queríamos saber, que a raiz grega Homos significaria “igual” ou “mesmo”. Sexo entre iguais de gênero nos escapava. Mas o segundo erro de conhecimento era mais grave que a ignorância etimológica. A ausência do conhecimento de mulheres homossexuais, entre nós, se dava porque nos preocupava o que mais nos atemorizava. Ou seja, entre homens pernambucanos, entre machos ‘totais’, o pecado da pederastia era execrado, quando não oculto. Se uma possível dúvida sobre a nossa macheza absoluta seria uma desonra, como podíamos trazer para a mesa semelhante coisa?
É nessa paisagem ferida de destruição, que vagava um homem de gênio, o nosso Balzac do Recife. Um Balzac sem A Comédia Humana, mas genial nas palavras, nas frases, no espírito, que explodia de si como se fosse uma erupção. A gente escreve isso e tem um sentimento de tristeza e mágoa. Um gênero de mágoa causado por nossos próprios atrasos. Por que éramos tão limitados? Por que condenávamos um homem de gênio para que usasse uma máscara? Na ditadura, com camaradas sendo presos e mortos, loucos ainda havíamos de aumentar o terror sofrido por um dos nossos. E de tal modo, que na fala sobre um militante, que havia ‘entregado’ toda a direção do movimento no Rio, acrescentávamos um motivo para a sua delação: ‘era gay’. Ah, então havia sido isso. Ele não era um homem, ou um guerreiro de lança em riste. A sua lança era na bunda. E temos que escrever isso! Expressar tal preconceito desperta vômitos. Mas eu tenho que vomitar nossas grandezas e baixezas. Não vou escrever amputado sobre pessoas amputadas. O Gordo era um dos nossos, talvez o mais brilhante dos nossos, e vivia reprimido entre os seus camaradas. Ia escrever ‘companheiros’, mas o véu da palavra conteve a mão para evitar uma irônica ambiguidade. Pois o Gordo não podia nem devia ter companheiro, namorado, de amar. Diferente do ‘amor livre’, apenas para rapazes e moças. Livre boceta livre. Mas livre, pau contra pau, não. E me penitencio pela crueza. Que vá ao inferno a elegância de boas maneiras, das frases educadas. Ora, o Gordo não podia ter companheiro, porque sustentava a mãe e irmãos com o trabalho que o matava como pessoa, funcionário de banco estatal, e o salário que ganhava se distribuía entre os parentes juntos em uma só casa. A dele. Enquanto os outros funcionários eram de classe média, donos de carros e melhores habitações, o Gordo era o popular, estranho por viver entre a negrada que o gerou. Somente esse viver entre os seus negros já mostra a direção do seu caráter e brilho. Mas desse modo o Gordo não conseguia se exilar para viver com algum namorado, ou possuir um quarto para os encontros em segredo, porque o dinheiro ia todo para a mãe, irmãos e sobrinhos. Entre o sexo e a mãe, o seu amor ia todo para a família. E que o seu íntimo chorasse em vão. Sozinho, até a próxima e mais profunda farra”.
A gente não escreve por prazer esses pecados cometidos contra a pessoa. É “só” um dever de consciência. A gente escreve e sai para a rua, conversa, ri, mas o peito mantém uma ferida que arde em silêncio.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



