O baobá do Passeio Público e a Rede de Pesquisadores Negres do Ceará
Ao completar 115 anos, o baobá do Passeio Público simboliza memória, resistência negra e o surgimento da Repence no Ceará
Na canção “Ploft”, de 1984, Belchior diz no primeiro verso: “O Nordeste sentado na esquina do mapa/... Se mira no Atlântico: América, áfricas, índios, pobres e jovens, tudo um negro blues...”. E por muito tempo o Nordeste foi mantido ali, “no cantinho da disciplina”, com seu povo sendo dizimado pelas recorrentes secas que sempre se abateram sobre a região e que serviram para eleger e enriquecer gerações e gerações de políticos inúteis. As mesmas secas também serviram de matéria-prima para muitas das narrativas dos romances da geração de 30. Mas eis que um dia surge alguém e diz que o problema do Nordeste não era a seca, mas a cerca. Pois é!
Voltando no tempo, lembramos que o Ceará, sentado na esquina do mapa do Nordeste, foi o primeiro Estado a libertar “seus” escravizados, tendo Chico da Matilde, o Dragão do Mar, como principal nome a impedir que se embarcassem escravizados em seus portos, tendo sido o Ceará a primeira província do Brasil a abolir a escravidão. Foi no Ceará também, que se fundou a primeira Academia de Letras do Brasil, a Academia Cearense de Letras (ACL), no ano de 1894, muito antes da Academia Brasileira de Letras (ABL), que só viria a ser fundada no ano de 1897.
A Padaria Espiritual, por sua vez, foi um movimento literário e cultural surgido em Fortaleza no ano de 1892, cujas ideias contestadoras, comportamentos progressistas e produções culturais e literárias de vanguarda postas em prática pelos seus membros, os “padeiros”, viriam antecipar em muitos anos aquilo que seria visto posteriormente na Semana de Arte Moderna, de 1922. É ainda no Ceará que o cineasta Orson Welles (1915 – 1985) aportou em 1942, na tentativa de filmar a história dos jangadeiros cearenses que percorreram 2.700 km, de jangada, de Fortaleza até o Rio de Janeiro, em 1941, com a intenção de reivindicar direitos trabalhistas ao então presidente Getúlio Vargas. O registro, chamado de “Quatro homens numa jangada”, seria parte do filme inacabado de Welles intitulado de It’s all true (É tudo verdade).
Atenta à boa parte desses acontecimentos, uma testemunha permanece como símbolo de memória, bem no coração da nossa cidade de sol e mar. Trata-se do baobá, plantado em 1910, no meio do Passeio Público, e que em 2026 faz aniversário de 115 anos. Diante do avanço descontrolado de farmácias, igrejas e estacionamentos que engolem a cidade, o baobá a tudo observa, tudo vê. E assim, ele sabe muito bem que em sociedades marcadas pela discriminação e pelo preconceito nada é dado às minorias. E muitas vezes, aqueles que lutam por equidade e liberdade acabam sendo perseguidos, “desaparecidos” e mortos, como aqueles que foram fuzilados no Passeio Público, bem antes da chegada do hoje centenário baobá àquele mesmo espaço.
Como quase tudo é negado ao menos favorecidos, é necessário ir à luta para alcançar seus objetivos e ocupar os espaços que nos têm sido negados desde sempre. Assim, para o povo preto, por exemplo, a luta é cotidiana e desigual. O baobá do Passeio Público, que hoje se deleita com a presença de crianças e adultos que se deixam ficar por instantes à sua sombra, não conheceu Ana Triste. O velho baobá também não ouviu os “ganidos de morte vindos daquela janela” vizinha, como nos diz o cantor Ednardo (já disse hoje que amo Ednardo?) na canção “Passeio Público”, de 1976.
Ao completar 115 anos de idade, minha árvore favorita na cidade de Fortaleza (faz algum tempo que não nos vemos, inclusive), vê refletida na soberana beleza dos seus verdes galhos o surgimento da Rede de Pesquisadores Negres do Ceará – Repence, cujo lançamento oficial ocorreu não muito longe dali, no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, no dia 13 de junho do corrente ano. A Repence, conforme divulgado na mídia local, reúne mais de 400 estudiosos dos mais diversos campos do conhecimento e tem como objetivo, como publicado pelo jornal O povo em 13/06/26: “fortalecer a produção intelectual e a articulação entre pesquisadores negros, de modo a ampliar a participação nos espaços acadêmicos e de formação de políticas públicas”. A Repence nasce forte, como um baobá, e necessária, da mesma forma como foram necessários e fortes em outros tempos, Ana Triste, os “padeiros”, Dragão do Mar, Tristão de Alencar, Padre Mororó e dona Bárbara, por exemplo. Vida longa à Rede de Pesquisadores Negres do Ceará – Repence!
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

