O Brasil se tornou a nação do quase cresce, quase inova, quase decola
Selic em 15% mantém país no topo global dos juros reais, favorece o rentismo, pressiona o investimento produtivo e impõe custo direto às empresas e às famílias
A Selic em 15% ao ano não é apenas um número técnico decidido a cada 45 dias pelo Comitê de Política Monetária do Banco Central do Brasil. Ela se transformou em símbolo de um modelo. Em janeiro de 2026, o Copom manteve a taxa nesse patamar, consolidando o nível mais alto desde 2006. A justificativa formal permanece a mesma: assegurar a convergência da inflação à meta. No entanto, quando a inflação projetada para os próximos 12 meses orbita em torno de 4% e a taxa nominal é 15%, o que se estabelece é um juro real ex-ante próximo de dois dígitos — um dos mais elevados do planeta.
Convém explicar com precisão técnica o que significa essa expressão. “Juro real ex-ante” é a taxa nominal descontada da inflação esperada para os próximos 12 meses. Não se trata de inflação passada, mas de expectativa futura. É esse indicador que investidores globais utilizam para comparar retorno efetivo entre países. Sob esse critério, o Brasil figura consistentemente entre as duas maiores taxas reais do mundo. A liderança pode variar conforme metodologia e horizonte — em alguns rankings aparece a Turquia, em outros a Rússia —, mas o fato incontornável é que o Brasil está no topo global de remuneração real do capital financeiro.
Para evitar qualquer generalidade, é necessário olhar os números concretos das principais economias. O Federal Reserve, banco central dos Estados Unidos, manteve nos últimos três meses a taxa básica (Fed Funds) no intervalo de 3,50% a 3,75% ao ano. O Banco Central Europeu (BCE — Banco Central Europeu), responsável pela política monetária dos 20 países que utilizam o euro, opera com taxa de depósito em 2,00% e taxa principal de refinanciamento em torno de 2,15%.
No caso latino-americano, os dados são igualmente objetivos. O Banco de México (Banxico) mantém a taxa básica em 11,00% ao ano no início de 2026. O Banco Central do Chile trabalha com taxa de política monetária em torno de 6,50% ao ano. Não há adjetivos aqui — há números. O Brasil opera com 15%. México, 11%. Chile, 6,50%. O diferencial é estrutural.
Diante desse quadro, a pergunta que se impõe não é se juros combatem inflação — combatem, em determinadas circunstâncias —, mas se o Brasil está pagando um preço desproporcional por uma estabilidade que já apresenta sinais de consolidação.
Quando o cofre rende mais que a fábrica
Adam Smith (1723–1790) escreveu em A Riqueza das Nações que “o trabalho anual de cada nação é o fundo que originalmente lhe fornece todas as coisas necessárias e convenientes da vida”. Smith desmontou o mercantilismo ao mostrar que riqueza não é metal acumulado, mas produção gerada. Ao manter juros reais de dois dígitos, o Brasil sinaliza que o retorno do capital financeiro supera, com folga, o retorno do investimento produtivo médio. Isso cria um desalinhamento estrutural.
David Ricardo (1772–1823), ao formular a teoria das vantagens comparativas, partiu da ideia de que o capital flui para onde a produtividade relativa é maior. Mas essa lógica pressupõe um custo de oportunidade compatível com o risco produtivo. Quando o título público brasileiro remunera a 15%, projetos industriais, tecnológicos e exportadores precisam oferecer retornos extraordinários apenas para empatar com o risco soberano. O efeito não é abstrato: investimentos são adiados, cadeias produtivas perdem densidade, inovação é comprimida. Isso significa menos fábricas abertas, menos startups financiadas, menos empregos qualificados gerados. Significa também crédito imobiliário mais caro, financiamento estudantil mais restrito e consumo das famílias permanentemente pressionado. A vida cotidiana sente o impacto na prestação do carro, na taxa do cartão, no custo do capital de giro da padaria da esquina.
A sedução do capital volátil e a fragilidade estrutural
Joseph Schumpeter (1883–1950) afirmava que “o crédito é essencialmente criação de poder de compra para fins de inovação”. Sem crédito acessível e previsível, a destruição criativa se enfraquece. Juros elevados atraem capital de curto prazo interessado no diferencial de taxa — o chamado carry trade — mas não necessariamente capital produtivo de longo prazo. Esse fluxo pode apreciar o câmbio temporariamente, reduzir competitividade industrial e tornar o país mais dependente de commodities.
Essa dependência não é abstrata nem recente. Soja, minério de ferro, petróleo bruto, milho e carnes representam parcela central da pauta exportadora brasileira. O agronegócio responde por cerca de 25% do PIB, direta e indiretamente, e mais de 45% das exportações totais. A concentração em produtos primários, embora gere divisas, limita a sofisticação tecnológica da economia. Juros elevados reforçam essa dinâmica ao desestimular indústria de transformação e setores intensivos em inovação. Parte do atraso industrial e tecnológico brasileiro nasce justamente desse círculo vicioso: capital caro, indústria enfraquecida, dependência crescente de produtos básicos.
O trilhão que não vira escola, hospital ou estrada
Em 2025, as despesas com juros nominais do setor público brasileiro ultrapassaram um trilhão de reais. Traduzindo para linguagem direta: para cada 100 reais produzidos pelo país em um ano, quase 8 reais foram destinados apenas ao pagamento de juros da dívida pública. Esse dinheiro não constrói pontes, não amplia universidades, não financia pesquisa científica, não fortalece hospitais. Ele remunera o estoque da dívida.
John Maynard Keynes (1883–1946) advertiu que “a dificuldade não está nas novas ideias, mas em escapar das antigas”. Persistir em taxas excepcionalmente elevadas pode transformar prudência monetária em rigidez estrutural. Michal Kalecki (1899–1970) foi ainda mais incisivo ao sustentar que decisões macroeconômicas refletem conflitos distributivos. Juros elevados transferem renda para quem possui ativos financeiros e pressionam quem depende de crédito. Não é neutralidade técnica; é escolha institucional.
Eficiência, distribuição e responsabilidade histórica
Vilfredo Pareto (1848–1923) formulou o conceito de eficiência econômica que leva seu nome, mas jamais confundiu eficiência com justiça social. John Stuart Mill (1806–1873) escreveu que “as leis da produção são naturais; as da distribuição são obra das instituições humanas”. Juros de 15% não são fenômeno da natureza. São resultado de decisão política dentro de um arcabouço institucional.
A história do pensamento econômico mostra que políticas surgem para responder a contextos específicos. O mercantilismo confundia riqueza com metal. Smith o contestou. Keynes rompeu com a crença na autorregulação automática. Schumpeter mostrou que crescimento exige ruptura. Cada avanço teórico ocorreu quando a realidade impôs revisão.
O Brasil de 2026 enfrenta esse momento. Combater inflação é necessário. Transformar juros excepcionalmente elevados em padrão prolongado pode ser um erro estratégico. Quando o país figura de forma recorrente entre os maiores juros reais do mundo, envia mensagem clara ao investidor produtivo: aqui, o risco compensa menos do que a aplicação passiva.
Persistir nessa trajetória significa aceitar crescimento medíocre, inovação tímida e indústria fragilizada como preço da estabilidade. A economia não é um exercício de contabilidade; é projeto de nação. E juros de 15% ao ano, mantidos como regra estrutural, deixam de ser instrumento de política monetária e passam a ser definição silenciosa de destino.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



