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Luis Pellegrini

Luís Pellegrini é jornalista e editor da revista Oásis

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O caso do Príncipe Andrew: uma leitura junguiana

A prisão de Andrew não representa apenas a queda de um príncipe. Significa muito mais a fratura de um sistema que sempre se julgou acima da consequência

Andrew Mountbatten Windsor (Foto: REUTERS/Phil Noble)

Durante séculos, a monarquia britânica vendeu ao mundo a ideia de que encarna estabilidade, honra, continuidade. Uma espécie de altar laico da civilização ocidental. Mas quando um membro central dessa engrenagem – um membro na linha direta de sucessão ao trono - se vê associado ao escândalo envolvendo Jeffrey Epstein, o que desmorona não é apenas a reputação de um indivíduo - é o mito da excepcionalidade. E o mito é o verdadeiro trono. 

A engrenagem invisível da proteção - O poder raramente se protege de maneira explícita. Ele opera por camadas: influência, silêncio, adiamentos, acordos, constrangimentos sutis. Andrew já foi afastado, perdeu títulos, desapareceu da vitrine oficial. Mas tudo isso ocorreu dentro de um roteiro cuidadosamente controlado pelo Palácio. Não foi ruptura - foi contenção de danos.

Uma prisão como essa rasga o roteiro. Ela obriga a admitir que nem o sangue azul está imune à lei. E essa admissão é perigosa, porque revela algo maior: durante muito tempo, pareceu estar acima da lei.

E uma questão fundamental permanece pairando no ar: Por que um indivíduo que nasceu e cresceu no topo de uma pirâmide de poder tão forte quanto a realeza britânica se entrega, ao  que parece em vários momentos da sua vida, aos desfrutes licenciosos oferecidos por um proxeneta profissional que passou a vida a serviço de alguns dos mais ricos e poderosos homens do mundo? O que faltou – ou existiu em excesso – na vida de Andrew, para que o agora ex-príncipe pusesse em risco todos os seus privilégios em troca de farras sexuais muitas vezes com menores indefesos promovidas pelo rufião Epstein?

Se olharmos o caso Andrew pela lente de Carl Gustav Jung, saímos do terreno jurídico e entramos no território dos arquétipos - estruturas simbólicas profundas que organizam o imaginário coletivo.

Na visão junguiana, a monarquia não é apenas uma instituição política. É um arquétipo vivo. Quando um membro da realeza cai em escândalo, o que se abala não é só a pessoa - é o mito.

Para Jung, o Rei simboliza: a ordem; é o centro organizador da psique coletiva; a autoridade legítima; a continuidade e a estabilidade.

A família real encarna esse arquétipo no inconsciente coletivo britânico. Mesmo sem poder governante efetivo, ela representa o “centro simbólico”. Quando Andrew - filho da Rainha, irmão do Rei - se vê envolvido em escândalo dessa proporção, ele não é mais apenas um indivíduo em crise. É uma fissura no arquétipo do Rei, pois o Rei deve ser íntegro. Quando a integridade é questionada, o inconsciente coletivo reage com choque.

Jung chamava de sombra aquilo que o mito tenta esconder: “A sombra é tudo aquilo que o ego não quer reconhecer em si mesmo.” Para o grande psicólogo, toda instituição luminosa projeta uma sombra proporcional. Se a monarquia representa tradição, honra e elevação, sua sombra contém: privilégio, abuso de poder, blindagem, impunidade. O caso Andrew pode ser visto como a irrupção da sombra da monarquia na consciência pública. A sombra não surge do nada. Ela sempre esteve lá - apenas invisível, reprimida. Quando vem à tona, causa escândalo porque desmente o mito.

Nas narrativas míticas, o Príncipe representa: continuidade da linhagem, promessa de futuro, nobreza herdada. Mas há também o arquétipo do Príncipe corrompido - aquele que falha moralmente e ameaça a ordem do reino.

Nas histórias antigas, isso geralmente leva a duas possibilidades: purificação (redenção ou punição), ou declínio do reino. Andrew se encontra agora nessa tremenda encruzilhada. E o inconsciente coletivo espera um rápido e claro desfecho simbólico. Ambiguidade prolongada gera inquietação.

Por outro lado, existe um agravante: é evidente que vivemos, a nível mundial,  um momento histórico em que arquétipos tradicionais estão sendo questionados: rei, pai, patriarca, instituição.

O caso Andrew não ocorre no vazio. Ele acontece numa era de desconfiança estrutural em relação à autoridade, e por isso o seu impacto é amplificado. Não é apenas “um escândalo”. É mais um sinal de que o arquétipo do Rei está fragilizado e desmoronando  na psique humana coletiva.

Mitologicamente, quando a sombra emerge, a ordem exige integração. Ou o sistema reconhece a falha, passa por purificação simbólica e se transforma; ou a confiança na autoridade do Rei se dissolve. A prisão de Andrew teria, nesse sentido, o valor arquetípico de sacrifício ritual - não apenas jurídico, mas simbólico. Seria uma forma de restaurar equilíbrio. Sem isso, a sombra permanece pairando sobre o trono. Um trono ensombrecido é portal para a emergência dos espíritos da escuridão. 

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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