O clã, o poder e a mentira
Clã Bolsonaro transforma escândalos em capital político e desafia os limites da democracia brasileira
As primeiras pesquisas do ano funcionam como um alerta sobre o que se desenha para 2026. Tanto a Quest quanto a AtlasIntel indicam a repetição do cenário de polarização entre Lula e Bolsonaro. E isso ocorre apesar de todas as atrocidades cometidas ao longo dos quatro anos de mandato de Jair Bolsonaro, da condenação relacionada ao plano golpista fracassado e até da tentativa bizarra de ele tentar destruir a tornozeleira eletrônica.
Mesmo dentro da prisão, o ex-presidente segue firme no comando da extrema-direita tupiniquim.
Bolsonaro não só abandonou Tarcísio de Freitas, mas também a elite sudestina que trabalhava firme para ter o governador paulista na corrida presidencial. Sem pestanejar, Bolsonaro lançou como candidato o filho “01”, mantendo o gado fiel sob suas asas.
Na lógica eleitoral dos tempos analógicos, muitos acreditam que a extensa ficha corrida de Flávio Bolsonaro seria suficiente para tirá-lo do páreo. Ledo engano.
Na era digital, dominada por influenciadores e algoritmos, a extrema-direita nada de braçada.
Isso ocorre especialmente em um momento em que as big techs concentram um poder econômico e informacional que ultrapassa fronteiras nacionais e desafia frontalmente as democracias. Milhões de pessoas se “informam” diariamente pelas redes sociais e pelas mensagens que inundam aplicativos privados. A famosa frase atribuída a Galileu, de que a verdade é filha do tempo, já não faz sentido no mundo digital.
Vivemos o tempo da pós-verdade, em que a percepção de parcelas significativas da sociedade não se apoia em dados comprovados, mas em narrativas que confirmam crenças, valores e ressentimentos, ainda que sejam falsas. Fake news não são um desvio: são método.
É triste constatar que uma parcela expressiva do eleitorado se identifique com a ideia de que vale tudo para “vencer na vida”. Em nome de uma fé distorcida, tudo se torna permitido: preconceito, racismo, homofobia, machismo e até a eliminação física de adversários políticos.
Por isso, quem ainda acredita na força dos fatos precisa abandonar ilusões. A ficha corrida de Flávio Bolsonaro só seria um impeditivo real há vinte anos. Hoje, ela não apenas não o desqualifica, como se transforma em ativo político para sua base.
O histórico do senador é vasto. Enriquecimento por meio das “rachadinhas”, operadas a partir de seu gabinete na Alerj pelo miliciano Fabrício Queiroz. Expansão patrimonial com uma loja de chocolates onde pagamentos milionários eram feitos em dinheiro vivo. Relações duradouras com personagens ligados ao chamado “escritório do crime”, uma milícia formada por policiais da ativa e da reserva que atuou por anos na zona oeste do Rio de Janeiro.
Esse grupo foi liderado por Adriano da Nóbrega, ex-capitão do Bope. Flávio Bolsonaro manteve como assessoras em seu gabinete a mãe e a esposa do miliciano e chegou a condecorá-lo dentro do presídio onde cumpria pena.
E sabe o que tudo isso significa no mundo de hoje? Nada.
Anote aí: o discurso vitimista dos Bolsonaro, de que Jair estaria doente e sendo tratado com desdém pela Justiça, terá papel central na campanha. No auge do processo eleitoral, o clã apelará para a dramatização máxima, criando a narrativa de que o ex-presidente estaria entre a vida e a morte, responsabilizando a prisão por supostos maus-tratos e injustiças.
Tudo isso com o apoio explícito de setores do mercado financeiro, que no último dia 21 de janeiro comemoraram o desempenho de Flávio Bolsonaro na pesquisa da AtlasIntel. Para essa gente, segue válida a máxima de Jarbas Passarinho ao assinar o AI-5, o mais duro dos decretos da ditadura militar: “Às favas, todos os escrúpulos de consciência”.
Na eleição de 2026, o que estará em disputa não é apenas a alternância de poder, mas dois projetos antagônicos de país. De um lado, a construção de um futuro baseado na redução das desigualdades e na ampliação da justiça social. De outro, o projeto patrimonialista de uma família que transformou cargos públicos em trampolim para a acumulação de riqueza e proteção de interesses próprios.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



