Tarcísio amplia articulações nacionais e evita Bolsonaro em meio à disputa pela sucessão presidencial
O movimento do governador também é impulsionado por setores empresariais, do mercado financeiro e por lideranças evangélicas.
247 - O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), intensificou nas últimas semanas uma série de movimentos políticos de alcance nacional que reacenderam especulações sobre uma eventual candidatura ao Palácio do Planalto em 2026. As articulações incluem reuniões com empresários, interlocução com o mercado financeiro e consultas a estrategistas de comunicação, ao mesmo tempo em que ele adiou uma visita ao ex-presidente Jair Bolsonaro, atualmente preso na Papudinha, em Brasília. A informação foi revelada em reportagem de O GLOBO, assinada por Luísa Marzullo, Sérgio Quintella e Hyndara Freitas.
Embora mantenha publicamente o discurso de que disputará a reeleição ao governo paulista, aliados avaliam que o conjunto de gestos indica uma tentativa de reposicionamento no tabuleiro nacional, em meio às resistências internas à pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O adiamento da visita a Bolsonaro foi interpretado como uma estratégia para ganhar tempo e evitar um comprometimento precoce com a campanha do filho do ex-presidente.
A visita ao ex-presidente havia sido incentivada pelo próprio Bolsonaro e chegou a ser autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), após pedido da defesa. A mudança de planos, no entanto, ocorreu depois de Flávio afirmar que Tarcísio ouviria do pai que a disputa presidencial estava fora de cogitação para o governador e que a reeleição em São Paulo seria “fundamental” para o projeto político do bolsonarismo. A desistência do encontro foi lida por aliados como um gesto calculado para não se alinhar formalmente à estratégia do senador.
A reação no entorno de Bolsonaro foi imediata. O vice-prefeito de São Paulo, Ricardo Mello Araújo, criticou publicamente o recuo do governador:
— Fica realmente difícil entender. Milhões de brasileiros até pagariam para ter essa oportunidade.
Procurado, o governo paulista reiterou que Tarcísio será candidato à reeleição e alegou que compromissos previamente agendados impediram a ida a Brasília. Na semana anterior, o próprio governador havia declarado apoio à pré-candidatura de Flávio.
Nos bastidores, integrantes do Centrão avaliam que Tarcísio tenta recuperar terreno após ter entrado tardiamente no debate nacional. Para esses dirigentes, a visita a Bolsonaro poderia trazer mais riscos do que benefícios, ao associá-lo de forma prematura à estratégia eleitoral da família. Um representante do bloco resumiu a avaliação: “quanto mais a visita for adiada, melhor”.
O movimento do governador também é impulsionado por setores empresariais, do mercado financeiro e por lideranças evangélicas. Segundo interlocutores, participam dessas conversas nomes próximos a Bolsonaro, como o ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto e o ex-secretário de Comunicação Fabio Wajngarten, que não comentaram o assunto. Tarcísio deve se reunir nas próximas semanas com empresários que estiveram recentemente com Flávio Bolsonaro, entre eles Flávio Rocha, Richard Gerdau, Alexandre Ostrowiecki e Mario Araripe.
Entre investidores e executivos da Faria Lima, persiste a avaliação de que Flávio enfrenta dificuldades para competir com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sobretudo por causa do alto índice de rejeição. Pesquisas indicam que a rejeição ao senador chega a 55%, enquanto a de Tarcísio é de 43%, o que reforça a leitura de que o governador teria maior capacidade de ampliar seu eleitorado.
Essa percepção também encontra respaldo em setores do campo evangélico. O empresário Silas Malafaia, uma das principais lideranças do bolsonarismo, foi direto ao defender o nome do governador:
— Para derrotar Lula e o PT, é Tarcísio presidente e Michelle vice. Flávio não tem musculatura.
Paralelamente, Tarcísio iniciou sondagens com marqueteiros para avaliar cenários eleitorais. De acordo com relatos do Palácio dos Bandeirantes, ele procurou Lula Guimarães, Duda Lima e Paulo Vasconcelos, este último atualmente na pré-campanha do governador de Goiás, Ronaldo Caiado. As conversas, segundo aliados, tiveram caráter exploratório, com foco em análises sobre o cenário nacional, possíveis composições de chapa e o comportamento do eleitorado em um quadro de fragmentação da direita.
Nessas reuniões reservadas, o governador buscou compreender os limites de crescimento de seu nome fora do campo conservador e medir a competitividade de outros pré-candidatos. Interlocutores destacam que não houve negociação formal para contratação de equipes, mas sim um esforço para avaliar a viabilidade de uma eventual campanha presidencial.
Outro fator que estimula as articulações é o comportamento recente da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. Aliados de Tarcísio interpretaram sinais de distanciamento dela em relação à pré-candidatura de Flávio como um possível aval ao governador. O clima se acirrou após episódios envolvendo publicações nas redes sociais, incluindo um vídeo de Michelle com Tarcísio e um comentário da primeira-dama paulista, Cristiane Freitas, afirmando que “o Brasil precisa de um novo CEO”, curtido por Michelle. Publicamente, Flávio negou qualquer indisposição.
Apesar dos estímulos, aliados do governador agem com cautela para evitar que ele seja rotulado como “traidor” no bolsonarismo. A avaliação é de que uma candidatura sem o aval explícito de Jair Bolsonaro teria poucas chances de prosperar. O presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI), resumiu a resistência:
— Acho muito difícil este arranjo. Flávio já está muito forte nas pesquisas e Tarcísio não vai disputar contra Bolsonaro.
Com Lula liderando as intenções de voto e Flávio apresentando crescimento, segundo pesquisas recentes, o tempo e a complexidade de uma eventual transição também pesam contra uma decisão imediata. Por ora, Tarcísio segue ampliando conversas, evitando movimentos definitivos e apostando em um jogo de espera, enquanto a direita busca um nome capaz de unificar o campo conservador na disputa presidencial de 2026.


